terça-feira, 4 de julho de 2017

Time to go

Tenho tido uma dificuldade imensa de escrever ultimamente, mas dessa vez por um motivo diferente. Eu sinto que tem tanta coisa que quero dizer aqui, que toda vez que vou escrever um texto eu paro quando tô cansada de digitar ou de manter a coerência naquela linha de pensamento. Também tenho me preocupado com o fato de que meu blog deixou de ser um espaço filosófico e analítico pra ser um "meu querido diário" como diria a galera de um grupo que tenho no facebook. Sinto que as coisas acabam saindo tortas por causa disso e me preocupo com meu nível de desejabilidade social. Por isso vou tentar escrever um pouco mais pra mim hoje. Aos que gostam de ler, esse definitivamente não será o texto mais edificante do blog.

Umas duas semanas atrás, minha mãe veio com uma conversa de que queria voltar pra Minas. Ela é mineira e até onde sei sempre teve planos de ir pra lá, porque ela sempre juntou muito dinheiro e que se não é pra tirar do banco e fazer uma piroca gigante pra sentar em cima, só pode ter algum objetivo. Ela sempre disse que queria comprar uma casa lá, ser enterrada lá junto com a família dela, etc. Ela falou que sente saudade da família dela, mas que eu e meu irmão não poderíamos ir (ele é concursado; eu faço mestrado. A minha irmã iria de ótimo grado afinal o namorado dela é mineiro e mora lá) e que teria que esperar ele fazer uma transferência e eu terminar o mestrado e arrumar algo por lá. Ela também falou sobre como aqui é violento e que quando veio pra cá com meu pai essa cidade era uma das mais tranquilas do país. Falou que sente saudade da família mas que se eu e meu irmão ficássemos aqui iria sentir saudade da gente e ficaria na mesma situação.
Ok.
Não é a primeira vez que a minha mãe coloca a culpa na gente por não fazer alguma coisa que ela "quer" fazer. É impressionante esse nível de cara de pau. Pra quem não conhece a gente, ouvindo isso pensaria "oh que mãezinha carinhosa" e não entenderia nada.
Quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia que não ia embora pra MG porque eu era pequena e não podia me deixar aqui pro meu pai criar e nem levar junto com ela porque não teria condiçõe$ de me criar lá como ele tinha de me criar aqui. Ela me fez acreditar por muito tempo que eu era culpada por ela passar o que passava com meu pai, afinal eu nasci 10 anos depois dos meus irmãos e atrapalhei o grande plano dela de ir embora quando eles tivessem grandes, então o problema não era nem ter filhos, mas especificamente eu.
Eu sempre tive muita compaixão pela minha mãe e o abuso emocional-físico-psicológico que ele infligia nela arrasava meu coração infantil. Sempre quis que ela se divorciasse e sempre incentivei isso, mas ela tinha essa desculpa sempre na manga. Se não fosse por mim ela já teria ido, era o que ela gostava de dizer.
O tempo passou, eu cresci. Sob ameaças de divórcio, a primeira quando tinha 7 anos. Eu estava sentada em cima da mesa da sala, que era oval e toda de madeira maciça, e não de mdf como se faz tudo hoje em dia. Era forte e eu subia nela pra brincar de pular lá de cima. Era de noite. Meus pais juntaram eu e meus irmãos na sala, pra anunciar a separação. Fiquei com medo da mudança, lembro disso. Desde então, as ameaças eram frequentes; cada um que dizia que ia embora na sua vez. O meu pai dizia no estilo dele "vou embora dessa casa, quero ver o que vocês parasitas vão fazer sem mim" e minha mãe no estilo dela "vou voltar pra MG, não tenho onde ficar aqui, vocês vão ter que ficar com seu pai", o que não era lá uma grande coisa, ficar com o meu pai que bebia de quinta a domingo, o que fazia com que a maioria da semana fosse um pesadelo, e talvez pior que um pesadelo: o pesadelo acaba quando você acorda. A realidade desgraçada dura todas as horas que um dia pode durar, e quando chega no domingo e você suspira de alívio pelo seu pai passar o dia desmaiado na rede, você logo prende a respiração de novo quando se dá conta de que quinta-feira que vem tem mais.

Nesse ambiente de instabilidade, eu peguei o meu desamparo aprendido e sonhei a vida inteira com a segurança. A minha psicóloga costumava dizer que a segurança era meu valor supremo, que eu colocava acima de todas as outras coisas que desejava. E não adianta eu negar que tudo que procurei na vida inteira foi um lugar onde jogar a âncora e pensar "tá tudo bem agora". Mas, é claro, nada no universo é simples desse jeito.
Continuando a história de voltar pra onde veio, eu falei pra minha mãe que ela não sentiria saudade de mim e do meu irmão porque quase não nos vê, não conversa com a gente e que só fala com a gente se tiver algo a reclamar. Considerando a obsessão dela por trancas e fechaduras depois da morte do meu pai, disse que acreditava mesmo que era a melhor coisa pra ela fazer, porém que eu e meu irmão certamente ficaríamos aqui e que a gente poderia ficar com essa casa. Não era o que ela esperava ouvir.Na vida muitas coisas importantes acontecem tarde demais. A minha vida inteira eu fui Team Mom, e nunca quis entender o meu pai. A minha psicóloga também me criticava por isso, e eu simplesmente achava que ela não entendia realmente a situação da minha casa e fazia suposições ingênuas. Depois que ele morreu e eu e meus irmãos tivemos que assumir o seu lugar, finalmente eu entendo a tormenta que era a vida do meu pai, convivendo com a minha mãe. Ele não era nenhum santo, nenhum anjo, sequer uma pessoa fácil de lidar. Ele era machista e conservador e daí derivava TODA a prática dele enquanto parente, então acho que mencionando só isso dá pra explicar bem.

É até difícil falar disso por causa da sacralização social da figura da mãe como um anjo que só faz bem. Algumas mães podem ser tóxicas e fazer mal pros seus próprios filhos, como é o caso da minha. Alguém com uma imaturidade emocional fora do comum, pelo menos fora do espectro de todas as pessoas que já conheci. E se por um lado eu sinto pena, sinto também vontade de sair correndo, de ficar bem longe. Se eu antes sentia medo do meu pai, agora eu sinto um cansaço imenso por saber que quando chegar em casa da rua depois de horas de aula ou acabada da academia, sei que vou ouvir reclamações a partir do momento que passar pela porta, até a hora que ela for dormir. Pelo que quer que seja que eu faça, pelo que quer que seja que meu gato faça. A primeira coisa que ela faz quando chego é ameaçar que vai se livrar dele quando eu não estiver aqui. Algumas vezes ela não espera nem eu abrir os olhos pra começar a rodada de reclamação e infernização do dia. Não basta se lamentar e reclamar, é sempre gritando, ou em tom de voz elevado, sempre querendo calar e ter a última palavra (ao pé da letra). Me lembra a frase de Paulo Freire "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor". Ela me deixa doente e esgota toda a minha paciência e humildade (em ouvir calada), faz com que não sobre energia pra lidar com ninguém. Faz com que eu desconte a raiva em Yuri e ao perceber isso queira ficar longe de todo mundo, com receio de que sintam em mim aquela energia rasteira negativa, a raiva que sinto, com medo que saibam do que passo e olhem pra mim com desprezo por eu não ser normal numa família normal e feliz como o esperado...

Por causa disso eu tenho pensado há muito tempo sobre o preço de ficar aqui. A minha sanidade. Em troca de poder comprar prata, roupas, comer comida cara e gordurosa e usar perfume francês. Eu digo que não saio de casa pra juntar dinheiro pra viajar e pros meus objetivos. Nunca guardei um centavo, mas já tentei bastante. Nunca consegui chegar em lugar nenhum e me sinto afundando profundamente. Me sinto infeliz e de saco cheio e ansiosa e com uma vontade desgraçada de fugir, de desaparecer. Conversei com Vanny sobre a possibilidade de morar com ela (já que ela mora só num apartamento de dois quartos) e depois de muito receio, finalmente entendi que não posso mais. Hoje quando cheguei aqui e tentei responder calmamente à loucura da minha mãe sobre um xixizinho de Logan no canto da cozinha, percebi que abrir mão de qualquer luxo que seja é um preço barato a pagar perto da recompensa que é a PAZ. Então eu falei calmamente que já que incomodo tanto posso ir embora assim que meu dinheiro chegar e algumas frases que ela me respondeu foram "Você acha que vou chorar?"; "Não volte quando embuchar pra jogar o filho aqui que eu não vou criar"; "Já vai tarde" e "Assim que eu receber te dou seu dinheiro (minha mesada) pra você ir logo!"; "Leva esse gato pra bem longe daqui", etc. Bem, não parece algo que alguém que sentiria saudade dos filhos por se mudar pra outro estado diria, certo?

Welly well. Que se foda a estabilidade e segurança. Eu vou é embora.

Um comentário:

  1. Amiga, a vida é tão louca, né. As relações humanas são a base, a causa e o problema de tudo que existe no mundo. Muita gente diz "o dinheiro é o mal do homem" mas se a gente inventou o dinheiro? Tudo é a gente. A gente criou a criatura e agora ela quer nos comer. Literalmente. Eu fico me perguntando como é ser mãe, sabe. Eu fico me perguntando se o que chamam de "depressão pós parto" pode durar uma vida inteira. Quando a mãe se cura da depressão pós parto? Onde elas sentem que todo mundo tá feliz, que elas deviam estar felizes mas não estão? E só querem descontar no mundo e se sentem pior por isso e descontam ainda mais. Eu não sei se é isso, mas eu queria muito poder chegar próximo de uma resposta, pq as vezes eu fico com mágoa do mundo, de como as inseguranças minhas e dos meus amigos sempre podem ser traçadas por uma linha até a origem: a criação, os pais, a vida em casa...
    Eu fico pensando as vezes nos macacos, de como deve ser horrível pra eles ser o subordinado num recinto 2x3m. Onde eles não tem pra onde correr, acordam estressados e vão dormir estressados todos os dias com medo e raiva do outro.
    Uma vez a gente discutiu um artigo que dizia que muitas vezes os dominantes são mais estressados, pq eles tem que manter o posto, manter os outros debaixo do pé
    (lembrei de uma música do sweeney todd "Because in all of the whole human race, Mrs Lovett, there are two kinds of men and only two. There's the one they put in his proper place and the one with his foot in the other one's face")
    Independente de quem é o mais estressado, uma coisa é certa: os dois estão estressados.
    E eu tenho certeza que ambos sairiam daquela porta se pudessem. Se eu pudesse abrir.
    Então, amiga, se você pode, vá. Pq de longe as coisas parecem mais claras. E tentar alguma coisa, fazer um movimento, vai te fazer bem, bem melhor do que ficar aguentando relação abusiva que só te deixa estressada dia e noite.
    Eu te apoio até o fim. E se vc desistir de sair de casa ou se sair e precisar voltar, nunca vai ser humilhação. Eu te apoio também. Pq here down in earth we are all trying.

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