sexta-feira, 7 de julho de 2017

They live e problematizações chiques

They Live é um filme de 1988 do John Carpenter, um diretor que fez vários filmes de terror fodas, inclusive várias adaptações dos livros do Stephen King. Esse filme é sobre um cara que encontra um óculos escuro que permite que ele enxergue algumas pessoas como elas realmente são: aliens que estão entre nós disfarçados e que controlam o mundo através de mensagens subliminares por toda parte, mandando que as pessoas obedeçam, se conformem, não pensem, durmam, assistam tv, casem e reproduzam, não questionem autoridade, etc.



Ontem eu tava voltando da casa de Vanny e passei pela Hermes, uma rua cheia de lojas fancy e de fancyness especialmente para os ricos moradores de Tirol e Petrópolis (mas sem fazer distinção com os de outros lugares, é claro!). Do lado do ônibus que sentei estavam as lojas de móveis e elas enchiam os olhos: a maioria de dois andares, cheias de coisas dentro: muitas plantas, flores, móveis de madeira maçiça de cores naturais, iluminação fraca e amarelada dando uma sensação de aconchego, lustres enormes cheios de cristais brilhantes criando efeitos belíssimos, castiçais de metal (provavelmente prata), outros itens de metal, todas as cores em harmonia, "ambientes" montados para demonstrar o resultado final. O tipo de loja que eu tenho até vergonha de entrar, muito diferente das que passei o dia visitando: essas tinham móveis quase todos iguais, padronizados, nada exclusivo, o que mudava de loja pra loja era o preço, modelos majoritariamente iguais. Feitos de mdf, com cores artificiais, brancos, pretos, detalhes de plástico vagabundos, tempo de vida curto, que não aguentam uma mudança direito. Luz branca e vendedores comuns, tudo amontoadinho sem criar sensação de aconchego, elegância ou luxo. Móveis mais voltados pra necessidade imediata de organização e melhor sobrevivência em algum lugar, do que pra enfeitar e encher os olhos, ou serem transmitidos ao longo de gerações. Na Hermes, um pensamento veio à minha cabeça: "um dia eu vou ter dinheiro e poder montar uma casa bonita como essas lojas mostram". Imediatamente veio à minha cabeça outro pensamento, questionando o primeiro: "mas por que eu quero isso?"

Outro dia eu assisti um vídeo da Jout Jout indicando um filme e resolvi chamar Yuri pra assistir, na certeza de que ele iria gostar. "Capitão Fantástico" é realmente fantástico (kkk), uma mistura de They live com Into the wild. Nele, o Aragorn de Senhor dos Anéis cria seus seis filhos no meio da floresta em Washington, sob um regime democrático-socialista, com uma visão extremamente crítica do sistema capitalista, ensinando-os a se virar na natureza, a serem companheiros e solidários uns com os outros e a compreenderem o que é realmente importante na vida e o que é só um valor falso e vazio, fruto de propaganda pra alimentar e manter um sistema que é insustentável a longo prazo.

Uma filhotinha dessa até eu ia querer
Muitas pessoas assistem vídeos do Pepe Mujica (ex-presidente do Uruguai), compartilham, falam sobre ele ser um exemplo de pessoa e de governante, etc. Tudo isso porque ele buscou estabelecer políticas acolhedoras (legalização da maconha, aborto...), além de ser um homem simples, que andava de fusca, não tinha grandes propriedades, não usava fancy clothes e fancy nada. Mas quantas dessas pessoas que o glorificam estão dispostas a seguir o exemplo? Eu chuto que poucas, e o pior é que às vezes nem é culpa delas. Como se libertar do sistema e continuar inserido nele?

O capitalismo atual não é mais um sistema de produção, mas de consumo

Na faculdade, me apaixonei por três textos que a tia de Mari (que era minha prof) passou na disciplina dela, que era pautada em crítica social. O relato de um índio sobre o mundo do homem branco (papalagui, na língua deles) e outros dois sobre identidade e capitalismo. Esses textos defendiam que o capitalismo atual vende identidades e se pauta em consumo, e não mais em produção, pra se sustentar. Afirmava também que a preocupação em buscar meios de prolongar o lifespan dos indivíduos era uma forma de mantê-los consumindo, uma vez que quem morre não consume mais, e assim o sistema perde uma engrenagenzinha. Eu lembro nebulosamente sobre os exemplos de venda de identidade, mas era algo do tipo: vende-se por exemplo a identidade "estilo de vida saudável" e dentro dela vem o pacote de consumo: matrículas em academia, suplementos alimentares, whey, roupas apropriadas pra esporte e acessórios, consumo de alimentos naturais - e aqui acrescento que esses vem em ondas de "tendências" e modismos baseados em "dados científicos" e oferecendo alimentos overpriced e muitas vezes não-endêmicos, acarretando alto impacto ambiental e social. Exemplos dessas tendências de saúde e emagrecimento são a chia, linhaça, óleo de coco, chá verde, chá de hibisco, couve, sal do himalaia, etc... Então, a pessoa que deseja demonstrar a identidade "vida saudável" irá seguir um conjunto de comportamentos e padrões de consumo. Pra cada tipo de identidade que desejamos exibir socialmente, há um conjunto de rituais que precisamos cumprir afim de nos adequar àquela forma, e eles vem especialmente através do consumo. Esse era o ponto dos textos.

Display e reconhecimento social

Yuri não gosta de tirar fotos porque não se sente fotogênico. Ele também não gosta de demonstrações públicas de amor em redes sociais, do estilo textões de aniversário se declarando e esse tipo de coisa. Isso me faz sentir desobrigada. Quer dizer, quando reclamo dele, ou passo uma raiva e penso em terminar, não fico constrangida com o que os outros vão pensar. Afinal, eles não sabem nada sobre nosso relacionamento, e não é como se eu tivesse voltando atrás em algo que eu disse, tipo promessas de amor eterno que as pessoas costumam fazer no Facebook e se arrepender poucos meses depois. Mesmo esse sendo o meu melhor relacionamento com alguém, só quem sabe disso são as pessoas que realmente nos conhecem, porque nós somos discretos e eu acho isso o máximo. Uma vez Yuri disse algo como "nosso relacionamento é pra mostrar pros outros, ou é pra nós dois?". Isso diz tudo pra mim, e muito sobre a maturidade dele. 
Quando Lauro terminou comigo, eu não queria tirar o nome dele do status no Orkut. Ele disse "mas a gente não já acabou mesmo? que diferença isso vai fazer?". Ele não entendia mesmo. O que estava em jogo não era a gente estar junto ou não, mas o meu status social. Era uma questão simbólica, e não prática.
Percebi que ficar usando o Instastories me pressiona a ser perfeita. Me pego frequentemente me preocupando em tirar fotos dos melhores ângulos e tentar mostrar pras pessoas, ou quase provar/esfregar na cara delas o melhor lado da minha vida. Meus bens materiais, meu namorado bonito, as safadezas do meu gatinho, minha alimentação respeitosa com a natureza, mostrar que tenho vida social e amigos, ou que estudo em inglês, que leio, faço academia, ouço metal progressivo, etc. Mas por que eu sinto essa necessidade, que dois meses atrás não sentia? Sempre fugi do snapchat, nunca instalei no meu celular, não tenho nem ideia de como funciona. Mas ele deu seu jeito de me alcançar. Meus amigos me diziam que ele fazia as pessoas "se conectarem mais" porque você podia "acompanhar o cotidiano de alguém". Bem, tudo que eu ganhei com o stories foi pressão pra ser bonita/organizada/exibir desejabilidade social, chateação quando via meus amigos me excluindo de algo e um consumo muito maior do meu pacote de dados. Hahua. Eu me pergunto se Bauman antes de morrer ficou sabendo dessa história de Snapstorie, que pra mim é o líquido do líquido da modernidade líquida. Os móveis entram nessa questão. Quantas vezes eu imaginei meu quarto de um jeito que as pessoas fossem achar ele legal, e não considerando que ele fosse funcionalmente bom pra mim? Que coubesse minhas coisas, que mantivesse uma organização e coerência. Eu queria impressionar os outros, mesmo que numa fotografia que se esmaece em 24 horas. 

Flexibilidade

Quando eu tava comprando o guarda roupas, pedi a opinião de Yuri e ele disse "você tem coisa demais. Agora quer comprar um guarda roupa maior pra caber tudo, mas não precisa. Era melhor vender as coisas que você tem!".
Gui é uma pessoa que tem poucas coisas. Ele tem poucas roupas, poucos livros, poucos sapatos, poucas mochilas, etc. Já ter ido na casa dele ajuda, mas eu também posso reparar isso quando saio com ele e ele tá sempre com as mesmas coisas. Que importa isso? Ele é flexível. Pra ele é fácil ir de um canto pra outro: não tem um monte de coisa pra carregar.
Quando meu pai morreu, a gente se viu com um arsenal gigante de coisas sem valor. Muitos cds e dvds, entre os que ele comprava e os que ele fazia (hobby dele). Livros e pôsteres caríssimos dos Beatles, revistas de esporte antigas, LPs (alguns valem uma baba), coleções de carrinhos. Pra que tudo isso? Ele dormia vendo os filmes. Vou arriscar dizer que só os livros mesmo que ele leu. Ele nunca sequer pendurou os pôsteres nem nada disso. Pra que consumir sem usar? Pra que tanta coisa? E agora o que a gente faz com tanta matéria parada e inútil? Pra que tudo isso?
Agora que vou me mudar, eu fico constantemente olhando e volta e pensando em como vou empacotar tudo isso. Como vou levar tudo isso? Eu nem sequer tenho uma mala. Toda vez que tenho um tempinho em casa eu sento e doo mais coisas, jogo fora, me livro. Pra que tanta matéria acumulada? Deixa tão difícil de carregar. Me deixa presa porque é muita carga pra levar. E eu quero poder ser também itinerante. Livre. Mudar de ideia. Sair de um lugar pro outro.
Ontem eu perguntei pra Vanny se o ap dela era comprado. Ela disse "não. Mas eu não queria que fosse. Não quero sentir que algo é permanente. Quero pensar que daqui a um ano posso ir pra outro lugar". Conversei com Gui e ele me disse "as pessoas querem muitas coisas, e fazem de tudo pra ter aquilo. Eu me pergunto por que eu quero isso? Eu quero viajar. Podia me endividar agora, fazer empréstimos e ir. Ou posso juntar dinheiro e só fazer algo se realmente tiver condições de fazer.". A gente não precisa de muitas coisas. Da maioria das coisas. 
Yuri foi viajar pra Europa, eu disse pra Vanny. E ela me disse "espero que ele traga um monte de coisa pra você! Você pediu maquiagem pra ele?? Não acredito que não!". Antes de ir, ele me perguntou
- O que você vai querer de lá, linda?
- Imãs e globos de neve dos países que você for! =)
- Só isso??
- Sim, sempre quis ter globos de neve de cidadezinhas!
Aí ele fez uma cara de "ô meu amor..." e me deu um abraço. Aparentemente gostar de decorar a casa é fofo pra uns, coisa de trouxa pra outros. 

Um comentário:

  1. amiga, eu amei ler esse texto!
    ao contrário do insta stories, esse vínculo que a gente tem aqui no blog me permite acompanhar sua vida real de perto e me faz sentir empatia pelas suas frustrações, ficar feliz com suas realizações, indagar a mim própria com as suas dúvidas e aprender com seus devaneios.
    Te amo real

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