sexta-feira, 21 de julho de 2017

Rainy day.

Hoje aconteceram várias coisas. Mostly bad things. 
Tô morando com Vanessa faz 2 dias.
Hoje minha irmã mandou um whats dizendo pra ir pra casa, porque minha tia Leda morreu.
Primeiro o tio Roberto, irmão de vovó. Uns 2 anos depois (ou menos), minha avó paterna também morreu. Um ou dois anos depois, o filho mais velho dela, tio Wellington. Dois anos depois (ou menos?) meu pai. Hoje faz 1 ano e 10 dias que meu pai morreu, e agora morreu a minha tia. Minha avó teve 13 filhos. Todos "criados" como se diz no interior. Morreram depois dos 60. Agora são 10. 
Eu lembro de me dar conta que eles estavam perto de morrer, uns 5 natais atrás. Lembro de olhar em volta e observar como todos já estavam tão velhos e completamente diferentes das memórias da minha infância.
Eu não vi meu pai envelhecendo. Num dia ele tinha cabelo e bigode preto, no outro dia era cinza e ele não tinha mais 1,80m, ele não parecia mais tão maior que eu. Do lado dele eu já estava quase da mesma altura, e eu não cresci. Ele se curvou. Na verdade, o tempo curvou ele.
Voltei pra casa pra ir pro velório. Ninguém me disse nada, do que ela morreu, o horário, nada. Cheguei e minha irmã estava sozinha (com meu sobrinho). Começou a gritar sobre como eu vou matar minha mãe porque saí de casa (pff....), a discussão foi escalating quickly, não levei desaforo pra casa, gritei de volta. Um show de berros. Ela começou a gritar que eu sou louca. Larguei meu notebook e voei em cima dela, puxei o cabelo dela, agarrei o pescoço dela. Coitado do meu sobrinho, nunca tinha visto essas coisas... tudo bem. Eu vi tanto e sobrevivi. Ela disse que ia me internar no hospício, que ia chamar isso, aquilo, ia chamar "o meu irmão pra ele me controlar". Eu disse chame mesmo, pode chamar. O meu sobrinho gritou NÃO!!!!! kkkkkkk. Não entende que adultos blefam.
Fui tomar banho chorando, pensando em escrever pra minha mãe. Sobre tudo. Os pensamentos suicidas, a depressão, a ansiedade, e o que pensei sobre ser parecida com meu pai que era extremamente depressivo. Meu irmão chegou em casa, eu soluçando no quarto escrevendo, minha irmã no telefone rindo. Ele veio me abraçar e disse que não ligue pra ela, você não sabe que sua irmã é assim? ... etc. Cansei de aceitar isso, cansei de "você não sabe que fulano é assim?". Lembrei do texto que Vitória postou dizendo que pregar que a pessoa deve "oferecer a outra face" é interesse de quem tem o poder. Eu não me senti em casa lá. Engraçado. Em Petrópolis tenho tido problema com a bagunça e o gato de Vanny que mia a noite inteira quando ela sai, mija tudo etc. Mas assim que eu cheguei na casa da minha mãe, eu quis voltar pra lá. Minha mãe veio conversar. Disse que "eu estou exagerando" por reagir assim (ir embora) aos desaforos dela. Que ela reclama e enche o saco e pasme,.... eu não sei que ela é assim mesmo? Assim mesmo. ... E tem alguém pra passar a mão na minha cabeça e dizer que eu sou "assim mesmo"? Not really
Eu cortei a mão no aparelho da minha irmã e machuquei forte a lateral da mão e uma parte dos tendões do dedo mindinho e anelar. Mal consigo digitar. Maldita seja. Eu nunca fui muito família. Nunca fui, que família? Nós sempre fomos uma república. Pra que fingir, diria Cazuza.
Não queria ir pra missa amanhã. O enterro. Pobre tia Leda e primo Marcelo. Ela morreu do nada... como todo mundo na família do meu pai. Ela era uma boa pessoa. Doce como o primeiro nome dela (Dulce) sugeria. Carinhosa, gentil, tranquila, crafty. Me ensinou a fazer biscuit e ponto cruz. Ela sabia que eu adorava natal e sempre me dava muitos enfeites que ela mesma fazia pra colocar lá em casa, e eram perfeitamente lindos, como os de editorial de revista mesmo. Ela nunca foi má ou escrota como a tia Neide, hehe. Bem... eu sei que se eu for amanhã vou chorar e ficar triste. É triste, um clima triste. Essa chuva, mais um enterro... eu me sinto sem tempo pra luto e tristeza. Time is running out... eu preciso trabalhar, estudar, arrumar um emprego, me sustentar, fazer o cartão do RU, passar o pano na casa... começar a coleta, responder o cara lá de NY...fico listando mentalmente. Olhar tela de proteção. Quanto é a internet a Cabo? (dica: é caro...) 
Minha irmã disse que já saiu de casa com 4 mil reais e quando viu as contas blá blá. Estou te dando um conselho de irmã mais velha (dizia ela, segurando os meus dois pulsos, sem eu ter tocado nela, depois que saí do banho.. a toalha caindo, meu sobrinho olhando) você não tem onde cair morta, etc.. quis vomitar na cara dela. A mãe de Yuri não poderia nem sonhar em ganhar 4 mil reais por mês. Tanta gente se sustentando com poucos salários mínimos, criando filho, dando nó em pingo d'água igual Marié. Ela gritou que sou rica, mimada, rica... eu não diria uma coisa tão nojenta quanto "4 mil reais por mês não dá pra pagar as contas". Isso é ridículo. Piranha riquinha dondoca. Só sabe se olhar no espelho e procurar ruga e tratamento de botox, plástica, peeling, esperar o macho da vez pedir em casamento, fofocar no telefone com as amigas, a minha mãe diz "quando sua irmã vai cair na real e deixar de ser adolescente? ela tem 34 anos e um filho que teoricamente ela deveria criar". Mãe, meu palpite é que nunca. 
Quando eu cheguei em Vanny eu limpei minha privada do meu banheiro. Nunca limpei uma privada. Eu tenho 24 anos... Yuri ficou indignado quando eu disse que nunca passei uma roupa. Odeio isso, odeio ser assim, odeio viver numa bolha, odeio não ter autonomia e responsabilidade, odeio como minha mãe não deixa meus irmãos aprenderem a se virar pra usar a dependência deles pra nunca ficar sozinha. 

Hoje o bb chegou depois de 3 semanas fora. Eu não sabia muito bem o que esperar, porque comigo é out of sight, out of mind. Cheguei num ponto em que pensei que ele poderia ficar lá e eu estaria bem. Me virando, cheia de problemas, mas bem, normal... talvez indiferente. Eu me tornei uma pessoa fria, do ano passado pra cá... mas também me arranjei um monte de problemas e passei todo o tempo que pude com minhas amigas e acho que isso ajudou a me deixar assim tão tranquila em relação a isso. Ele tá dormindo aqui, na cama dele. Agora eu gosto mais daqui (da casa dele). Yuri voltou muito carinhoso e carente. Acordou e disse que sonhou comigo, e voltou a dormir. Eu achei que iria sofrer mais que ele, porque ele estaria na Europa se divertindo e eu aqui na mesmice, obrigações, problemas. Mas ele sentiu mais, sofreu mais... I have grown colder. A vida não me choca nem surpreende. Quando lembro de Gui dizendo que na maior parte do tempo não sente nada, cada vez me identifico mais...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu sei que você não lê aqui, mesmo daí, mesmo de longe, ou mesmo quando você voltar. Mas o que se repete muito na cabeça pede pra sair da abstração, de onde não se sabe onde fica, pra se tornar material, existir no mundo de forma concreta, física. 

Hey bb,
How you doing? São 5:49 da manhã e eu perdi o controle da minha vida de novo, como sempre.
Logan tá dormindo aqui na cama e quando passo a mão na cabecinha dele, ele me responde apropriadamente com um prrrr prr. Será que você vai chegar aqui e dizer "que gato é esse?", como costuma fazer, porque ele cresceu? Eu nem percebo mais que ele tá ficando maior. Só reparo que agora as patinhas dele são enormes e a "luvinha" branca tá aumentando.

Sabe, lindo. Escrevi pra você ontem, mas não publiquei aqui. Lembra daquele dia que eu voltei do banho e comecei a escrever, mas aí parei e disse "eu nunca mais vou continuar esse texto", e você me perguntou por que e respondi que simplesmente se eu parasse de escrever um texto no meio, nunca retomava. Aquele era sobre saudade. Nunca retomei. O blog é cheio de rascunhos, a parte secreta dele. Rascunhos em que escrevo o que eu não quero que seja lido, ou lembrado. Ou simplesmente que achei que não estava bom o suficiente pra publicar, ou parei na metade.
Outro dia Vitória tava me contando que uma pedra (gema) era mais cara o quanto mais sua cor no meio fosse uniforme. Significava que ela foi muito lapidada. Uma pedra mais "suja" e com mais cores e desenhos é menos nobre. Os textos não publicados são a gema impura, que não foi muito lapidada, ou que simplesmente era de um pedaço mais  externo da pedra. 
Olha que interessante, o texto de ontem também era um pouco sobre saudade. Vou reproduzir umas partes dele aqui, e outras não. Tentar seguir com o processo de lapidação.

Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave, but don't leave me
Look around, choose your own ground
For long you live and high you fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
It's all your life will ever be

É um pouco mais de 1h do dia 13/07, aqui em Natal. Aí onde você tá são 6h, segundo o Google. O país com o nome que pra mim é a palavra mais bonita em alemão: Österreich (se lê 'êsterraish', Áustria em português). Todos os dias você me pergunta se estou com saudades. Sabe, pra falar a verdade eu ainda não tinha sentido tanto assim, até ontem de noite. Quando parei pra pensar.

Um dia você tava dirigindo no caminho pra sua casa, e você comentou sobre Time, do Pink Floyd. Eu falei que nunca ouvia essa música, porque a única que ouvia do Dark Side of the Moon era Money. Você ficou indignado e disse que a gente iria escutar assim que chegasse. Quando você colocou ela, reconheci um trecho que já havia visto escrito em algum lugar, mas não sabia de qual música era:

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire

Gostei da melodia dela, apesar que não dei muita importância. Ela ficou na minha cabeça. Semana passada eu tava lavando louça e ouvindo música e começou a melodia de Time, mas a introdução da música era diferente. Então o Waters começou a dizer breathe, breathe in the air... era outra música. E ouvindo ela entendi como Time era linda. Era uma continuação de Breathe, e elas eram uma coisa só junto com The Great Gig in the Sky. E olha só a letra dela... eu diria que algumas coisas parecem vir no momento certo nas nossas vidas. Você responderia que estou sendo incoerente, haha.
Faz uma semana que você foi embora. Left, but didn't left me. Você me diz que quando voltar vamos direto pro cinema assistir Planeta dos Macacos. Você diz "um estranho, veio de fora..." pra me dar a dica que comprou um alienzinho do Toy Story pra mim. Você tem razão, lindo, eu reclamo demais. Você tem razão, lindo, eu sou como sua vó que não acredita no que você diz! kkkk. Eu deveria confiar mais no seu julgamento. Confiar mais em você, seguir mais o que você diz, levar você mais a sério. Você tem razão quando diz que não dou valor ao que você faz por mim. E agora de longe eu consigo ver melhor, entender melhor. De alguma forma entrou na minha cabeça, eu me fiz ou fui feita acreditar que amar era expressar com palavras. Era criar situações românticas com silêncios, momentos memoráveis, misteriosos, era saber fazer o uso adequado e certeiro da linguagem. Lembro de um dia ter dito pra você que você não é romântico! Você poderia elegantemente ter me respondido

"Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain, so does the pain
Words are meaningless, and forgettable"
Amar não é dizer que ama. Não é criar situações de caso pensado, usar estratégias e fórmulas genéricas que funcionariam com qualquer pessoa. Amar é ver o alien de Toy Story na loja de brinquedo em Londres e lembrar que sua namorada sabe todas as falas dele no filme. Amar é prometer uma ida ao cinema quando chegar, o que deixa implícito: está tudo bem entre nós, não me apaixonei por nenhuma europeia! Quando voltar, veremos nossa sequência de filmes preferida no cinema. Amar é dizer que ama pela primeira vez no meio de uma briga, ou no meio de outra, com voz relutante e envergonhada "não vá embora, agora eu sei que é com você que quero passar o resto da minha vida!". Amar é caótico, é bagunçado, cru, não é perfeito, limpo, organizado, não segue roteiro, não é como no cinema (apesar de que tem trilha sonora!), não tem uma fórmula, não existe critérios a serem cumpridos, como no manual dos transtornos mentais, em que pra poder rotular alguém com um determinado transtorno basta que a pessoa tenha apresentado cinco dos dez critérios nos últimos seis meses. Eu sempre pensei que os relacionamentos começavam como vasos muito bonitos e intactos e que com a medida do tempo iam caindo e criando cicatrizes irreparáveis, e que na primeira cicatriz já valia a pena desistir, porque não era mais perfeito. Que ideia!

Agora que você tá aí e eu aqui, estou finalmente tendo a experiência de ficar sozinha. Eu sempre busquei a todo custo nunca ter que suportar a minha própria companhia. Sempre tive alguém em quem pensar, ou com quem contar. E agora eu tô vivendo sem te consultar, tomando minhas próprias decisões. Outro dia minhas músicas no celular simplesmente sumiram! Quase te contei, mas aí pensei "posso resolver isso". Apareceram problemas, dilemas, tomei decisões, descobri meu caminho sem perguntar pra ninguém! Muitas vezes eu comecei a te escrever no whats e apaguei ao invés de enviar. Estou aprendendo a não te contar cada passo, cada pensamento, cada emoção. Aprendendo a não descarregar tudo em cima de você. Aprendendo a dormir sozinha (com Logan hehe). Eu percebi, por exemplo, que muitas vezes fico triste e você não dá importância e isso me chateia. Mas que minhas tristezas vão embora tão rápido quanto chegam. Talvez seja por isso que você não se preocupa muito. Agora eu penso "tudo bem, vai passar!" e percebo o quanto minhas emoções variam rápido. Eu não preciso falar o tempo todo sobre elas. Se você visse o quanto cresci, o quanto cresci do ano passado pra cá... e muita coisa foi por sua causa, sabia? 

Ano passado eu e Vitória conversamos algumas vezes sobre a definição de amor, se o amor real é o que faz sofrer, ou o que só faz bem. Eu não posso definir o que é amor e o que não, mas posso definir uma coisa. Um amor bom é aquele que nos permite amar a nós mesmos, enquanto amamos o outro. E você não é egoísta, você me dá espaço pra que eu também me ame, você não monopoliza o meu amor todo pra si. Pra te amar não precisa estar de joelhos. É por isso que eu cresço perto de você. 
Eu sempre acreditei no jeito de saber pelo caminho letrado, culto, filosófico, reflexivo, complexo. A sua sabedoria não vem de livro, é simples, é experiência. Você é meu simple kind of man. Você é something you love and understand. Você é sábio de um jeito poético, amoroso, musical, doce. Racional, mas não ensaiado, espontâneo, kind hearted. Eu amo você. Que bom que te encontrei. You're all I need... 

sim estou com sdds principalmente de:



sexta-feira, 7 de julho de 2017

They live e problematizações chiques

They Live é um filme de 1988 do John Carpenter, um diretor que fez vários filmes de terror fodas, inclusive várias adaptações dos livros do Stephen King. Esse filme é sobre um cara que encontra um óculos escuro que permite que ele enxergue algumas pessoas como elas realmente são: aliens que estão entre nós disfarçados e que controlam o mundo através de mensagens subliminares por toda parte, mandando que as pessoas obedeçam, se conformem, não pensem, durmam, assistam tv, casem e reproduzam, não questionem autoridade, etc.



Ontem eu tava voltando da casa de Vanny e passei pela Hermes, uma rua cheia de lojas fancy e de fancyness especialmente para os ricos moradores de Tirol e Petrópolis (mas sem fazer distinção com os de outros lugares, é claro!). Do lado do ônibus que sentei estavam as lojas de móveis e elas enchiam os olhos: a maioria de dois andares, cheias de coisas dentro: muitas plantas, flores, móveis de madeira maçiça de cores naturais, iluminação fraca e amarelada dando uma sensação de aconchego, lustres enormes cheios de cristais brilhantes criando efeitos belíssimos, castiçais de metal (provavelmente prata), outros itens de metal, todas as cores em harmonia, "ambientes" montados para demonstrar o resultado final. O tipo de loja que eu tenho até vergonha de entrar, muito diferente das que passei o dia visitando: essas tinham móveis quase todos iguais, padronizados, nada exclusivo, o que mudava de loja pra loja era o preço, modelos majoritariamente iguais. Feitos de mdf, com cores artificiais, brancos, pretos, detalhes de plástico vagabundos, tempo de vida curto, que não aguentam uma mudança direito. Luz branca e vendedores comuns, tudo amontoadinho sem criar sensação de aconchego, elegância ou luxo. Móveis mais voltados pra necessidade imediata de organização e melhor sobrevivência em algum lugar, do que pra enfeitar e encher os olhos, ou serem transmitidos ao longo de gerações. Na Hermes, um pensamento veio à minha cabeça: "um dia eu vou ter dinheiro e poder montar uma casa bonita como essas lojas mostram". Imediatamente veio à minha cabeça outro pensamento, questionando o primeiro: "mas por que eu quero isso?"

Outro dia eu assisti um vídeo da Jout Jout indicando um filme e resolvi chamar Yuri pra assistir, na certeza de que ele iria gostar. "Capitão Fantástico" é realmente fantástico (kkk), uma mistura de They live com Into the wild. Nele, o Aragorn de Senhor dos Anéis cria seus seis filhos no meio da floresta em Washington, sob um regime democrático-socialista, com uma visão extremamente crítica do sistema capitalista, ensinando-os a se virar na natureza, a serem companheiros e solidários uns com os outros e a compreenderem o que é realmente importante na vida e o que é só um valor falso e vazio, fruto de propaganda pra alimentar e manter um sistema que é insustentável a longo prazo.

Uma filhotinha dessa até eu ia querer
Muitas pessoas assistem vídeos do Pepe Mujica (ex-presidente do Uruguai), compartilham, falam sobre ele ser um exemplo de pessoa e de governante, etc. Tudo isso porque ele buscou estabelecer políticas acolhedoras (legalização da maconha, aborto...), além de ser um homem simples, que andava de fusca, não tinha grandes propriedades, não usava fancy clothes e fancy nada. Mas quantas dessas pessoas que o glorificam estão dispostas a seguir o exemplo? Eu chuto que poucas, e o pior é que às vezes nem é culpa delas. Como se libertar do sistema e continuar inserido nele?

O capitalismo atual não é mais um sistema de produção, mas de consumo

Na faculdade, me apaixonei por três textos que a tia de Mari (que era minha prof) passou na disciplina dela, que era pautada em crítica social. O relato de um índio sobre o mundo do homem branco (papalagui, na língua deles) e outros dois sobre identidade e capitalismo. Esses textos defendiam que o capitalismo atual vende identidades e se pauta em consumo, e não mais em produção, pra se sustentar. Afirmava também que a preocupação em buscar meios de prolongar o lifespan dos indivíduos era uma forma de mantê-los consumindo, uma vez que quem morre não consume mais, e assim o sistema perde uma engrenagenzinha. Eu lembro nebulosamente sobre os exemplos de venda de identidade, mas era algo do tipo: vende-se por exemplo a identidade "estilo de vida saudável" e dentro dela vem o pacote de consumo: matrículas em academia, suplementos alimentares, whey, roupas apropriadas pra esporte e acessórios, consumo de alimentos naturais - e aqui acrescento que esses vem em ondas de "tendências" e modismos baseados em "dados científicos" e oferecendo alimentos overpriced e muitas vezes não-endêmicos, acarretando alto impacto ambiental e social. Exemplos dessas tendências de saúde e emagrecimento são a chia, linhaça, óleo de coco, chá verde, chá de hibisco, couve, sal do himalaia, etc... Então, a pessoa que deseja demonstrar a identidade "vida saudável" irá seguir um conjunto de comportamentos e padrões de consumo. Pra cada tipo de identidade que desejamos exibir socialmente, há um conjunto de rituais que precisamos cumprir afim de nos adequar àquela forma, e eles vem especialmente através do consumo. Esse era o ponto dos textos.

Display e reconhecimento social

Yuri não gosta de tirar fotos porque não se sente fotogênico. Ele também não gosta de demonstrações públicas de amor em redes sociais, do estilo textões de aniversário se declarando e esse tipo de coisa. Isso me faz sentir desobrigada. Quer dizer, quando reclamo dele, ou passo uma raiva e penso em terminar, não fico constrangida com o que os outros vão pensar. Afinal, eles não sabem nada sobre nosso relacionamento, e não é como se eu tivesse voltando atrás em algo que eu disse, tipo promessas de amor eterno que as pessoas costumam fazer no Facebook e se arrepender poucos meses depois. Mesmo esse sendo o meu melhor relacionamento com alguém, só quem sabe disso são as pessoas que realmente nos conhecem, porque nós somos discretos e eu acho isso o máximo. Uma vez Yuri disse algo como "nosso relacionamento é pra mostrar pros outros, ou é pra nós dois?". Isso diz tudo pra mim, e muito sobre a maturidade dele. 
Quando Lauro terminou comigo, eu não queria tirar o nome dele do status no Orkut. Ele disse "mas a gente não já acabou mesmo? que diferença isso vai fazer?". Ele não entendia mesmo. O que estava em jogo não era a gente estar junto ou não, mas o meu status social. Era uma questão simbólica, e não prática.
Percebi que ficar usando o Instastories me pressiona a ser perfeita. Me pego frequentemente me preocupando em tirar fotos dos melhores ângulos e tentar mostrar pras pessoas, ou quase provar/esfregar na cara delas o melhor lado da minha vida. Meus bens materiais, meu namorado bonito, as safadezas do meu gatinho, minha alimentação respeitosa com a natureza, mostrar que tenho vida social e amigos, ou que estudo em inglês, que leio, faço academia, ouço metal progressivo, etc. Mas por que eu sinto essa necessidade, que dois meses atrás não sentia? Sempre fugi do snapchat, nunca instalei no meu celular, não tenho nem ideia de como funciona. Mas ele deu seu jeito de me alcançar. Meus amigos me diziam que ele fazia as pessoas "se conectarem mais" porque você podia "acompanhar o cotidiano de alguém". Bem, tudo que eu ganhei com o stories foi pressão pra ser bonita/organizada/exibir desejabilidade social, chateação quando via meus amigos me excluindo de algo e um consumo muito maior do meu pacote de dados. Hahua. Eu me pergunto se Bauman antes de morrer ficou sabendo dessa história de Snapstorie, que pra mim é o líquido do líquido da modernidade líquida. Os móveis entram nessa questão. Quantas vezes eu imaginei meu quarto de um jeito que as pessoas fossem achar ele legal, e não considerando que ele fosse funcionalmente bom pra mim? Que coubesse minhas coisas, que mantivesse uma organização e coerência. Eu queria impressionar os outros, mesmo que numa fotografia que se esmaece em 24 horas. 

Flexibilidade

Quando eu tava comprando o guarda roupas, pedi a opinião de Yuri e ele disse "você tem coisa demais. Agora quer comprar um guarda roupa maior pra caber tudo, mas não precisa. Era melhor vender as coisas que você tem!".
Gui é uma pessoa que tem poucas coisas. Ele tem poucas roupas, poucos livros, poucos sapatos, poucas mochilas, etc. Já ter ido na casa dele ajuda, mas eu também posso reparar isso quando saio com ele e ele tá sempre com as mesmas coisas. Que importa isso? Ele é flexível. Pra ele é fácil ir de um canto pra outro: não tem um monte de coisa pra carregar.
Quando meu pai morreu, a gente se viu com um arsenal gigante de coisas sem valor. Muitos cds e dvds, entre os que ele comprava e os que ele fazia (hobby dele). Livros e pôsteres caríssimos dos Beatles, revistas de esporte antigas, LPs (alguns valem uma baba), coleções de carrinhos. Pra que tudo isso? Ele dormia vendo os filmes. Vou arriscar dizer que só os livros mesmo que ele leu. Ele nunca sequer pendurou os pôsteres nem nada disso. Pra que consumir sem usar? Pra que tanta coisa? E agora o que a gente faz com tanta matéria parada e inútil? Pra que tudo isso?
Agora que vou me mudar, eu fico constantemente olhando e volta e pensando em como vou empacotar tudo isso. Como vou levar tudo isso? Eu nem sequer tenho uma mala. Toda vez que tenho um tempinho em casa eu sento e doo mais coisas, jogo fora, me livro. Pra que tanta matéria acumulada? Deixa tão difícil de carregar. Me deixa presa porque é muita carga pra levar. E eu quero poder ser também itinerante. Livre. Mudar de ideia. Sair de um lugar pro outro.
Ontem eu perguntei pra Vanny se o ap dela era comprado. Ela disse "não. Mas eu não queria que fosse. Não quero sentir que algo é permanente. Quero pensar que daqui a um ano posso ir pra outro lugar". Conversei com Gui e ele me disse "as pessoas querem muitas coisas, e fazem de tudo pra ter aquilo. Eu me pergunto por que eu quero isso? Eu quero viajar. Podia me endividar agora, fazer empréstimos e ir. Ou posso juntar dinheiro e só fazer algo se realmente tiver condições de fazer.". A gente não precisa de muitas coisas. Da maioria das coisas. 
Yuri foi viajar pra Europa, eu disse pra Vanny. E ela me disse "espero que ele traga um monte de coisa pra você! Você pediu maquiagem pra ele?? Não acredito que não!". Antes de ir, ele me perguntou
- O que você vai querer de lá, linda?
- Imãs e globos de neve dos países que você for! =)
- Só isso??
- Sim, sempre quis ter globos de neve de cidadezinhas!
Aí ele fez uma cara de "ô meu amor..." e me deu um abraço. Aparentemente gostar de decorar a casa é fofo pra uns, coisa de trouxa pra outros. 
Eu sou daquelas pessoas que acreditam que sair da zona de conforto sempre vai gerar algum tipo de sofrimento. Sempre comento com Yuri e Gui em como fico admirada com Vitória por ela sempre se jogar em fazer coisas novas: se alguém oferece a ela uma comida que ela nunca comeu, ela não pensa duas vezes antes de provar e ainda acaba gostando. Se alguém chama ela pra fazer algo que nunca fez, ir em algum lugar que ela nunca foi... ela na verdade parece estar constantemente buscando se colocar em situações assim. Outro dia eu tava no Pedrão com Marié e Deca e ela reclamou justamente do oposto: Deca sempre quer fazer o que já fez, o que já conhece, o que já gosta... ele adota uma estratégia mais segura, o que também é o meu caso. Já reclamaram de mim porque quando eu saía sempre comia as mesmas coisas e eu dizia "vou arriscar meu dinheiro comprando algo que talvez não goste, sendo que já sei exatamente o que gosto?" e foi algo desse tipo que Deca respondeu pra Marié naquele dia. O meu pai detestava fazer coisas novas. Todos os dias ele ia pra UFRN pelo mesmo caminho, sempre comprava no mesmo supermercado, fazia as mesmas rotas, entrava em contato com as mesmas pessoas. Uma das coisas que mais estressava meu pai era que eu pedisse pra ele me levar em algum lugar em que ele não conhecia, como da vez que eu levei príncipe Lulu no dentista canino da São José e tive que aprender o caminho bem direitinho pra explicar pra ele, mas mesmo assim ele ainda olhou umas mil vezes no google maps. O máximo de manjar dos paranauês dele era ali pela Campos Sales, porque ele morava lá quando era jovem (coincidentemente, é a rua paralela a Prudente, a rua que vou morar). Eu fiquei muito parecida com ele nesse quesito, e talvez todos aqui de casa. Mesmo minha mãe, que fugiu de casa com 14 anos e nunca mais voltou, convivendo com ele começou a se aterrorizar com mudanças. É difícil medir o quanto algumas coisas são genéticas quando você não tem, de jeito nenhum, como separar do ambiente.

Hoje foi um dia foda. Fiz um milhão de coisas. No final do dia minha cabeça parecia que ia explodir não importava o que eu fizesse. Acabei tomando remédio depois de dormir algumas horas e acordar do mesmo jeito. Ontem fui dormir na casa de Yuri e como ele ia-se embora pra Europa hoje, foi extremely hard colocar ele pra dormir, o que só aconteceu lá pelas 4h. Ele ficou o tempo todo balançando os pezinhos e me acordando puxando assunto e querendo dar scroll no maldito 9gag, até que perguntou se eu queria ver um ep de Cowboy Bebop e mesmo já tendo visto tudo resolvi assisti de novo (de olhos fechados, claro) com ele pra ver se ele se acalmava, aí ele dormiu como uma criança pequena dorme no carro balançando ou assistindo Peppa pig enquanto toma mamadeira. Hoje a vó dele tava de um lado pro outro falando no telefone e querendo arrumar as últimas coisas da viagem e a gente teve que acordar umas 10h e ele não tinha nem feito a mala, é claro. Senti um pouco de compaixão por ela por saber o quanto a mania de deixar tudo pra última hora dele é irritante, mas um pouco de prazer também por saber que ela podia dar uma oprimida nele pra ele deixar de ser relaxado hehe. Acabei vazando logo cedo pra não atrapalhar levando meu kunk e meu pedal e fui lá pro centro resolver as coisas da casa nova. Quando ele voltar, tudo vai estar completamente diferente e acho isso 100% bem loco.

Eu e Vanny fomos na Rio Branco procurar meus móveis e acabei achando um guarda roupa legal e uma cama com um preço bom (de casal.. <3). Uma das primeiras primeiras (!!) coisas que percebi foi que

MEU DEUS DO CÉU VANNY É A EPÍTOME DA BAGUNÇA 

Eu cheguei naquele apartamentinho lindo e recém construído, cheio de frescura e frufru, senha elevador vaga na garagem varanda piscina vários ambiente etc mas Vanny faz parecer que é um lixão a céu fechado (porque ela não abre nenhuma janela pro gato dela não pular aaaa). Quando eu desci do elevador, no começo do corredor, eu já senti o fedor da caixa de areia do gato. Ahuaha é impressionante em como ela consegue deixar tudo o mais sujo e bagunçado possível e imaginável (na verdade de um jeito que eu não era capaz de imaginar, até ver hoje), a gente entrou no meu futuro quarto e ele tava vazio? Não. Cheio de tralha espalhada, e ela ainda disse "se você tiver sentindo um cheiro ruim, é porque Billy mijou aqui mas eu não sei aonde" e eu pensei "berro" aí ela achou que foi em cima de um plástico no chão e falou ah sim, foi ali. Aí virou as costas e foi embora e nem fez menção de que um dia iria catar e botar no lixo AAAA!!!! Eu tive vários ataques cardíacos com a minha mania de limpeza absurda herdada-ensinada pela minha mãe (que por um acaso é virginiana, e tem essa parada de que é o signo da limpeza, por um acaso hehe). A ração do gato tava espalhada no chão no corredor, o banheiro dela eu não soube o que dizer só sentir, a cama dela no chão sem lençol até hoje (outro berro), tudo espalhado pelo chão, tanto o lixo quanto as coisas que ela vai usar, sem a menor distinção, como um socialismo utópico dos bens materiais (socoro). Quem chega lá deduz imediatamente que ela se mudou ontem, sendo que faz tipo 4 meses ahuah. 

Eu, como sempre, fui um jegue e comprei um guarda roupa grande demais pra colocar na parede que eu queria assim como fiz nesse quarto aqui de casa e agora NÃO VAI FICAR TUDO PERFEITO DO JEITO QUE EU QUERO! eu pensei. Sendo que depois pensei "por que me importo tanto com a aparência quando o que importa é a função?" E aí viajei muito nisso, vou tratar mais lá na frente. 

Quero aproveitar esse momento pra resumir os pontos principais já que tenho que dormir e só quero lembrar algum dia mesmo então
Pontos positivos felizes:
1) No centro tem vários pontos com pessoas vendendo frutas da estação/regionais! Vi um monte de caju, acerola, pinha e feijão verde pelas ruas e isso iluminou meu coração vegan
2) No centro o sacolão as coisas costumam ser mais baratas e o Alecrim fica a um pulo! Isso vai ser ótimo porque eu decidi ser uma pessoa crafty DIY handworker e vou passear bastante por lá e aprender as manhas de viver uma vida barata
3) O pai de Vanny tem uma lanchonete e ninguém vai morrer de fome comendo várias torrada e sanduíche sem carne
4) Nordestão a um passo também. Não vou precisar de carro not ever. Todos os médicos/dentistas/vet mais perto
5) Vanny me trata com um respeito que minha família talvez não saiba que existe.
6) Pela primeira vez na existência, eu vou ter um banheiro só meu... aqui em casa divido com 4 pessoas e é realmente terrível especialmente quando minha mãe tranca o dela pra ninguém usar
7) No prédio tem elevador, treino funcional e coisas fancy
8) Nunca mais vou acordar com grito, ouvir grito, ser tratada feito bosta, me estressar, não ter silêncio paz respeito e esse tipo de coisa que é o segredo da vida bem sucedida
9) Vou aprender a dançar funk e fazer twerk KKKKK
10) As paradas de ônibus são bem pertinho, festas na Ribeira de Uber por apenas 10 conto
11) Cama de casal. Finalmente vou poder dormir com Yuri no meu canto (já que ele tem cama de casal, mas não é a minha casa) sem ter que ficar me equilibrando na ponta da cama aleluia saravá axé namastê amém
12) Se tiver algo pra fazer na UF logo cedo ou imediatamente posso ficar na casa do bb
Pontos negativos horríveis:
1) Ficar longe da UF, não poder mais pegar o 54a, obrigatoriamente ter que pegar o circular :(
2) Sair de Ponta Negra, bairro do meu >core< e único lugar que eu realmente conheço na cidade KKKK
3) Na hora do rush tô lascada, ter que acordar muito mais cedo pra poder chegar nos lugares pontualmente
4) Ter que passar o pano no chão. Passar o pano eu te odeio. 
5) Ter que gastar com coisas tipo tupperware, lixo, cesto de roupa suja, lençóis :\
6) Não poder mais ver Yuri todo dia porque não seremos mais vizinhos de bairro
7) Ter que ficar trancada num espaço minúsculo com a caixinha de areia de Logan. Vai ser osso porque aqui eu boto ela lá fora e não gosto de jeito nenhum de deixar dentro de casa, é horrível 
8) Se os gatos não se derem bem
9) Adeus minha academia maravilhosa de rico Top Gym fitness. Era um saco mas ao mesmo tempo eu amava porque era muito chique. Pelo menos eles devolvem uma parte do dinheiro hehe
10) Vanny muito bagunceira até quando vou aguentar? Só o tempo dirá
11) Não ser mais rica esbanjadora, sem ar condicionado e edredom, coisas free, sem mãe arrumando a casa, ter dinheiro de sobra (agora vou ter que ter juntar grana pra emergência)

Fiquei cansada agora mas amanhã tem mais porque estou obcecada por esse assunto.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Time to go

Tenho tido uma dificuldade imensa de escrever ultimamente, mas dessa vez por um motivo diferente. Eu sinto que tem tanta coisa que quero dizer aqui, que toda vez que vou escrever um texto eu paro quando tô cansada de digitar ou de manter a coerência naquela linha de pensamento. Também tenho me preocupado com o fato de que meu blog deixou de ser um espaço filosófico e analítico pra ser um "meu querido diário" como diria a galera de um grupo que tenho no facebook. Sinto que as coisas acabam saindo tortas por causa disso e me preocupo com meu nível de desejabilidade social. Por isso vou tentar escrever um pouco mais pra mim hoje. Aos que gostam de ler, esse definitivamente não será o texto mais edificante do blog.

Umas duas semanas atrás, minha mãe veio com uma conversa de que queria voltar pra Minas. Ela é mineira e até onde sei sempre teve planos de ir pra lá, porque ela sempre juntou muito dinheiro e que se não é pra tirar do banco e fazer uma piroca gigante pra sentar em cima, só pode ter algum objetivo. Ela sempre disse que queria comprar uma casa lá, ser enterrada lá junto com a família dela, etc. Ela falou que sente saudade da família dela, mas que eu e meu irmão não poderíamos ir (ele é concursado; eu faço mestrado. A minha irmã iria de ótimo grado afinal o namorado dela é mineiro e mora lá) e que teria que esperar ele fazer uma transferência e eu terminar o mestrado e arrumar algo por lá. Ela também falou sobre como aqui é violento e que quando veio pra cá com meu pai essa cidade era uma das mais tranquilas do país. Falou que sente saudade da família mas que se eu e meu irmão ficássemos aqui iria sentir saudade da gente e ficaria na mesma situação.
Ok.
Não é a primeira vez que a minha mãe coloca a culpa na gente por não fazer alguma coisa que ela "quer" fazer. É impressionante esse nível de cara de pau. Pra quem não conhece a gente, ouvindo isso pensaria "oh que mãezinha carinhosa" e não entenderia nada.
Quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia que não ia embora pra MG porque eu era pequena e não podia me deixar aqui pro meu pai criar e nem levar junto com ela porque não teria condiçõe$ de me criar lá como ele tinha de me criar aqui. Ela me fez acreditar por muito tempo que eu era culpada por ela passar o que passava com meu pai, afinal eu nasci 10 anos depois dos meus irmãos e atrapalhei o grande plano dela de ir embora quando eles tivessem grandes, então o problema não era nem ter filhos, mas especificamente eu.
Eu sempre tive muita compaixão pela minha mãe e o abuso emocional-físico-psicológico que ele infligia nela arrasava meu coração infantil. Sempre quis que ela se divorciasse e sempre incentivei isso, mas ela tinha essa desculpa sempre na manga. Se não fosse por mim ela já teria ido, era o que ela gostava de dizer.
O tempo passou, eu cresci. Sob ameaças de divórcio, a primeira quando tinha 7 anos. Eu estava sentada em cima da mesa da sala, que era oval e toda de madeira maciça, e não de mdf como se faz tudo hoje em dia. Era forte e eu subia nela pra brincar de pular lá de cima. Era de noite. Meus pais juntaram eu e meus irmãos na sala, pra anunciar a separação. Fiquei com medo da mudança, lembro disso. Desde então, as ameaças eram frequentes; cada um que dizia que ia embora na sua vez. O meu pai dizia no estilo dele "vou embora dessa casa, quero ver o que vocês parasitas vão fazer sem mim" e minha mãe no estilo dela "vou voltar pra MG, não tenho onde ficar aqui, vocês vão ter que ficar com seu pai", o que não era lá uma grande coisa, ficar com o meu pai que bebia de quinta a domingo, o que fazia com que a maioria da semana fosse um pesadelo, e talvez pior que um pesadelo: o pesadelo acaba quando você acorda. A realidade desgraçada dura todas as horas que um dia pode durar, e quando chega no domingo e você suspira de alívio pelo seu pai passar o dia desmaiado na rede, você logo prende a respiração de novo quando se dá conta de que quinta-feira que vem tem mais.

Nesse ambiente de instabilidade, eu peguei o meu desamparo aprendido e sonhei a vida inteira com a segurança. A minha psicóloga costumava dizer que a segurança era meu valor supremo, que eu colocava acima de todas as outras coisas que desejava. E não adianta eu negar que tudo que procurei na vida inteira foi um lugar onde jogar a âncora e pensar "tá tudo bem agora". Mas, é claro, nada no universo é simples desse jeito.
Continuando a história de voltar pra onde veio, eu falei pra minha mãe que ela não sentiria saudade de mim e do meu irmão porque quase não nos vê, não conversa com a gente e que só fala com a gente se tiver algo a reclamar. Considerando a obsessão dela por trancas e fechaduras depois da morte do meu pai, disse que acreditava mesmo que era a melhor coisa pra ela fazer, porém que eu e meu irmão certamente ficaríamos aqui e que a gente poderia ficar com essa casa. Não era o que ela esperava ouvir.Na vida muitas coisas importantes acontecem tarde demais. A minha vida inteira eu fui Team Mom, e nunca quis entender o meu pai. A minha psicóloga também me criticava por isso, e eu simplesmente achava que ela não entendia realmente a situação da minha casa e fazia suposições ingênuas. Depois que ele morreu e eu e meus irmãos tivemos que assumir o seu lugar, finalmente eu entendo a tormenta que era a vida do meu pai, convivendo com a minha mãe. Ele não era nenhum santo, nenhum anjo, sequer uma pessoa fácil de lidar. Ele era machista e conservador e daí derivava TODA a prática dele enquanto parente, então acho que mencionando só isso dá pra explicar bem.

É até difícil falar disso por causa da sacralização social da figura da mãe como um anjo que só faz bem. Algumas mães podem ser tóxicas e fazer mal pros seus próprios filhos, como é o caso da minha. Alguém com uma imaturidade emocional fora do comum, pelo menos fora do espectro de todas as pessoas que já conheci. E se por um lado eu sinto pena, sinto também vontade de sair correndo, de ficar bem longe. Se eu antes sentia medo do meu pai, agora eu sinto um cansaço imenso por saber que quando chegar em casa da rua depois de horas de aula ou acabada da academia, sei que vou ouvir reclamações a partir do momento que passar pela porta, até a hora que ela for dormir. Pelo que quer que seja que eu faça, pelo que quer que seja que meu gato faça. A primeira coisa que ela faz quando chego é ameaçar que vai se livrar dele quando eu não estiver aqui. Algumas vezes ela não espera nem eu abrir os olhos pra começar a rodada de reclamação e infernização do dia. Não basta se lamentar e reclamar, é sempre gritando, ou em tom de voz elevado, sempre querendo calar e ter a última palavra (ao pé da letra). Me lembra a frase de Paulo Freire "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor". Ela me deixa doente e esgota toda a minha paciência e humildade (em ouvir calada), faz com que não sobre energia pra lidar com ninguém. Faz com que eu desconte a raiva em Yuri e ao perceber isso queira ficar longe de todo mundo, com receio de que sintam em mim aquela energia rasteira negativa, a raiva que sinto, com medo que saibam do que passo e olhem pra mim com desprezo por eu não ser normal numa família normal e feliz como o esperado...

Por causa disso eu tenho pensado há muito tempo sobre o preço de ficar aqui. A minha sanidade. Em troca de poder comprar prata, roupas, comer comida cara e gordurosa e usar perfume francês. Eu digo que não saio de casa pra juntar dinheiro pra viajar e pros meus objetivos. Nunca guardei um centavo, mas já tentei bastante. Nunca consegui chegar em lugar nenhum e me sinto afundando profundamente. Me sinto infeliz e de saco cheio e ansiosa e com uma vontade desgraçada de fugir, de desaparecer. Conversei com Vanny sobre a possibilidade de morar com ela (já que ela mora só num apartamento de dois quartos) e depois de muito receio, finalmente entendi que não posso mais. Hoje quando cheguei aqui e tentei responder calmamente à loucura da minha mãe sobre um xixizinho de Logan no canto da cozinha, percebi que abrir mão de qualquer luxo que seja é um preço barato a pagar perto da recompensa que é a PAZ. Então eu falei calmamente que já que incomodo tanto posso ir embora assim que meu dinheiro chegar e algumas frases que ela me respondeu foram "Você acha que vou chorar?"; "Não volte quando embuchar pra jogar o filho aqui que eu não vou criar"; "Já vai tarde" e "Assim que eu receber te dou seu dinheiro (minha mesada) pra você ir logo!"; "Leva esse gato pra bem longe daqui", etc. Bem, não parece algo que alguém que sentiria saudade dos filhos por se mudar pra outro estado diria, certo?

Welly well. Que se foda a estabilidade e segurança. Eu vou é embora.