quarta-feira, 31 de maio de 2017

Filhos

O comportamento que quero estudar na minha pesquisa, a minha variável dependente são as decisões reprodutivas das pessoas. Em outras palavras, eu quero entender os fatores que levam as pessoas a escolher ter nenhum filho, mais ou menos filhos. 
Quando começamos o mestrado, Fívia fez uma reunião comigo e as outras 7 orientandas dela (descobri hoje que atualmente ela orienta 20 alunos... eis a raiz de toda a minha angústia... a maioria dos professores tem 3 ou 4) com um professor lá do Espírito Santo que deu sugestões sobre os nossos delineamentos experimentais, e quando eu falei sobre a minha pesquisa ele perguntou "e você quer ter filhos?" e eu prontamente disse "kero". As discussões que aconteceram hoje me fizeram pensar um pouco sobre isso.
Quando eu era criança eu tinha certeza que eu ia casar e ter filhos porque nos anos 90 aqui na minha família numa cidadezinha pequena do Nordeste do Brasil essa era a única possibilidade naquele tempo (muito embora quase todas as irmãs do meu pai não tenham se casado e nem tido filhos, elas eram jovens ainda quando eu era pequena). Ia ser assim e isso era tão inquestionável quanto a existência de Deus era pra mim naquela época, e lembro até da minha irmã falando uma vez sobre como o sobrenome da família do meu pai não ia ter continuidade porque eu e elas somos mulheres e o meu irmão é gay. Quando eu virei pré-adolescente e assistia Keeping up with the Kardashians eu queria ter 5 filhas igual a mãe Kardashian e achava o máximo ter uma família grande.
Lembrando disso, é impressionante o quanto a cultura influencia nossas necessidades, planos, sonhos... eu sempre gostei muito do natal (o feriado) e era a rainha de assistir os desenhos natalinos (sempre os mesmos todo ano) e de ler as revistinhas da Turma da Mônica especiais de natal, que inclusive uma das minhas preferidas era uma paródia do "A Christmas Carol" do Charles Dickens (posteriormente eu descobri que li MUITAS paródias do Charles Dickens em revistinhas da Mônica.. haha ler gibi também é cultura). Acontece que nos filmes dos anos 80/90 que são a minha grande referência de "vida boa" ou de como uma vida deve ser vivida (bom e velho american way of life teve uma influência gigante na minha formação) sempre tinha uma familinha feliz que montava a árvore, enfeitava a casa toda de pisca-pisca e se reunia em volta da lareira na manhã do dia 25 pras crianças abrirem o presente. Acontece que eu nunca ia ser aquelas crianças do filme. Não vou ser injusta, os meus pais sempre me deram na medida do possível as coisas que eu pedia, e também quando eu era muito novinha eles faziam uma encenação do papai Noel, em que ninguém se vestia de nada, mas lembro de uma vez que minha mãe tava penteando meu cabelo na cama e meu pai tocou o sininho do enfeite da árvore depois de deixar os presentes e saiu, aí minha mãe disse que ainda viu ele no céu, indo embora no trenó ahuahaua. Enfim os meus natais em geral foram muito mais ruins do que bons e eu sabia que a única possibilidade de ter a familinha que aparecia no filme era se eu saísse do meu lugarzinho de criança pra o lugarzinho de ser a mãe, a chefe da família. E por muito, muito tempo eu tive essa ideia na minha cabeça SÓ por causa disso, por mais absurdo que possa soar.

crazy xmas lady
Quando eu tinha 19 até meus 22 anos, eu vivi um relacionamento extremamente abusivo que me consumiu completamente, um dos maiores arrependimentos da minha vida, mal posso numerar a quantidade de coisas que eu perdi por causa daquilo. E o motivo que a minha cabeça me dizia over and over again pra eu não sair dali era porque eu tinha um pensamento engessado na minha cabeça de que até os 30 eu deveria ter a minha própria família, e eu queria que o meu marido fosse alguém que eu conhecesse há muito tempo e que já tivesse vivido bastante junto, tipo uma década ou quase. The clock was ticking, em contagem regressiva. Hoje em dia isso parece uma maluquice pra mim, mas um dia já fez todo o sentido. Por muito tempo fez todo o sentido. A pressão de acreditar que a vida certa e boa é somente aquela dentro dos padrões sociais estabelecidos me fez sofrer igual uma condenada ao longo de vários relacionamentos. Porque tudo que eu precisa era de uma peça pra encaixar ali, sabe? Um homem pra figurar de marido na família ideal que eu criei na minha cabeça ASSISTINDO FILME! Não importa o quanto ele fosse babaca, me tratasse mal, pisasse, fosse um cretino canalha... bastava dizer que ia casar comigo e ter filhos que pra mim isso estava acima de tudo. E aí essa família que eu pleiteava formar com macho trash ia acabar parecendo com a de quem? Isso mesmo, a família que eu já tinha. Então eu ia ficar na mesma, no fim das contas. Eu ia ficar presa num ciclo... de sair desesperadamente de um lugar pra cair em outro igual. Tal qual eu acho que aconteceu com a minha mãe. Eu queria tão desesperadamente consertar tudo que eu passei, começando a minha própria família. Mas essa família que eu idealizei nunca vai ser posta em prática. Aprendi isso viajando pra SP com Yuri. Aprendi isso realmente fazendo o mestrado que sonhava. Nada é como a gente sonha, planeja, idealiza. Tudo é sempre um pouco pior do que o que a gente espera. E não adianta achar que isso vai preencher o vazio, vai consertar o que passei. Nada vai consertar, a experiência que eu não tive enquanto família, eu nunca vou ter. E qual o problema nisso?

Até hoje eu entro na Etna pra olhar a decoração xD

Agora eu namoro com Yuri, que se não for a pessoa mais paternal que eu conheço, eu cegue. Yuri daria um excelente pai, a vida dele (quando não tá jogando) é cuidar dos outros. Isso é algo de se enxergar muito claramente nele, por ele ser uma pessoa completamente generosa e dedicada, sempre pronto pra abrir mão de si pra beneficiar os outros. Yuri é empático, é "kind" em todas as traduções em português da palavra. He has what it takes. Mas e agora, e eu?

Hoje em dia eu tenho estado muito preocupada com o trabalho e fico pensando... onde isso caberia na minha vida? Porque:
1) Eu odeio criança. Acho criança um bicho insuportável, um trem ruim como diria minha mãe. Eu não gosto de como elas gritam, da necessidade delas de atenção, da falta de controle, da imaturidade... não gosto de adultos infantis, muito menos dos seres que tem justificativa pra agir infantilmente haha. E acho que a maior parte do tempo em que um filho passa com os pais é sendo criança. Tendo o meu sobrinho em casa eu sei quantas vezes negligenciei ou não quis dar atenção pra ele porque chego cansada da rua, ou porque ainda preciso trabalhar, porque quero ler e me distrair, e vou te contar, ele vem no meu quarto pelo menos umas 20x todos os dias e as vezes só pra dizer "tudo bem?" e isso me irrita (às vezes muito, outras só um pouco) e eu tenho certeza que eu teria dificuldade em desviar a atenção dos meus interesses pra satisfazer uma outra coisinha.
2) Bebês são nojentos. Eu sou a pessoa que quando um amigo tá vomitando de bêbado no rolé, largo ele pra ser cuidado pelo primeiro que aparecer. Eu sou fresca e cheia de nojinho, e definitivamente me faria totalmente infeliz limpar uma bunda que não fosse a minha. Quem dirá de 3 em 3 horas.
3) A pior coisa que alguém pode me fazer é me impedir de dormir. Eu ODEIO que me acorde quando tô cansada, ficar privada de sono me transforma num bicho selvagem muito distante de um ser humano. Imagine um troço me acordar de 2 em 2h pra mastigar minha teta sensível? Acordar o tempo todo pra ser torturada, durante alguns anos? How about no?
4) Gravidez. A gravidez é como ter um parasita no corpo. Até anticorpo contra o bebê a mulher cria. A gravidez é um conflito de interesses entre o metabolismo da mãe e da criança, um cabo de guerra pelos recursos. É por isso que existe eclâmpsia, pré-eclâmpsia. Fora a labilidade emocional (que a minha já é extrema) e o meu autocontrole emocional que é tão frágil. O meu corpo que já é difícil de cuidar, imagine depois de guardar uma melancia na barriga por 9 meses. Mamilos escurecidos, teta caída, estrias por toda parte e uma Suzy que nunca mais vai ser a mesma (afinal eu jamais faria uma cesárea). Cruzes
5) Egoísmo. Eu sempre achei que era uma pessoa generosa como Yuri. Por muito tempo eu fui uma pessoa muito "giving" mas agora eu sinto cada vez mais necessidade de defender meus interesses. Cada vez mais necessidade de olhar pra mim, de cuidar de mim. Quando eu tinha Lulu eu fazia tudo por ele. Acordava cedo só pra ele ir lá fora fazer o xixizinho dele as 6 da manhã, mesmo que eu tivesse ido dormir as 5. Esperava ele voltar. Dormia com o ar condicionado na temperatura mais quente, morrendo de calor, pra ele não sentir frio. Se precisasse eu tirava a comida da minha boca pra dar pra ele, fazia tudo por ele. Mas era hábito. E ele era um cachorro. Hoje Logan não me deixa dormir e eu não consigo mais lidar com isso da mesma forma que antes. Eu esqueci como é que se dedica aos outros totalmente e não se perturba com isso. E um filho exigiria muito mais do que Logan e Lulu juntos.
6) Eles não necessariamente viram o que você quer. Imagina meu filho cristão. De direita. Ou acreditando que tudo na vida é construção social? Precisa nem dizer mais nada.
7) Carreira. De que horas vai dar pra encaixar na carreira sofrida que é ser prof universitário, ter um filho? Depois do mestrado, sem emprego, sem bolsa? Pra minha mãe criar? Depois do doutorado, pras publicações ficarem obsoletas, eu sem dinheiro e sem ser professora? Ou sendo professora, tendo que deixar o filho em creche com poucos anos de idade, com terceiros que nunca vão fazer por ele o que eu faria... Simplesmente parece que não tem hora boa pra isso. Criando só Yuri já é difícil de estudar. Imagine Yuri + um ou dois mastigadores de tetas. Lattes pra atualizar, etc.
8) Eu nunca entendi porque os pais gastam dinheiro com filhos. Eu sempre pensava "Por que meu pai me dá tanto dinheiro que podia gastar com ele, se eu não dou retorno nenhum de nada pra ele?". Que tipo de investimento é esse em que você dá tudo pra não ter nada em troca. Só o fato de eu não entender a essência da relação pai-filho já torna uma extravagância eu ter filhos. Com todo o dinheiro que eu podia investir em um filho, eu poderia viajar, aprender tantas coisas, construir memórias pra mim, conhecer tantas possibilidades...
9) Mundo cruel. Infelizmente pra todo lado que eu olhe (como queria ver algo diferente!) só vejo pessoas alienadas se reproduzindo. Pessoas com ideias na cabeça incompatíveis com a criação de seres humanos decentes e saudáveis mentalmente. Não é com esse tipo de gente que eu quero que Ulysses/Ceres (sim os nomes imaginários dos meus filhos) convivam. Não é nesse mundo desgraçado pela destruição ambiental, de guerra iminente, de gente podre que eu quero que eles vivam. Então não tem lugar pra eles. Mal tem lugar pra mim na maior parte do tempo...

Hoje eu tava olhando o SIGAA de Yuri, a previsão de conclusão de curso dele é 2017.2. Mas faltam ainda quase mil horas. Significa: ele só se forma perto de 2020, porque C&T + engcomp, isso no melhor dos cenários. Quando eu tiver 27 anos e com sorte, no final do doutorado. E isso me fez ter o choque de realidade necessário pra escrever esse texto. Desculpem mãe e pai, mas eu não vou reproduzir.

terça-feira, 30 de maio de 2017

I'm kinda tired & sad. Vou me aproveitar da frustração pra ver se sai algo (leia-se: reclamar hehe).

Nas últimas duas semanas que passaram eu não consegui escrever nenhum dia porque estava muito cansada. Estava cansada porque acordava cedo e passava o dia me dedicando ao mestrado, aos projetos, disciplinas, em ajudar meu co-orientador... eu acordava já pensando nas coisas que tinha pra fazer, mas não pensando "poxa que saco, tem que fazer x..." e sim levantava às 6 da manhã pensando mal posso esperar pra traduzir isso, mal posso esperar pra organizar minha pesquisa, pra ler, saber mais, me apropriar. Mal posso esperar pra trabalhar. 
Só que o grande segredo do meu sucesso tinha sido o fato de que a família de Yuri viajou pro RJ (são de lá) e ficamos sozinhos em casa, como Yuri é um anjinho que dorme com uma pedra até eu chamar ele, ele não tem me atrapalhado em absolutamente nada e a casa dele (vazia) tem sido um ambiente completamente favorecedor pra trabalhar. Ainda assim não posso morar lá, tenho minhas coisas aqui: meu gato, minhas plantas, minhas roupas, meu espaço, todos os meus pertences, etc. Hoje tive que vir pra casa, tomei um anti-histamínico e fiquei mole morrendo de sono e não consegui dormir por motivos de gato subindo na cama pra morder, meu sobrinho assistindo vídeo na cozinha, conversando com meu irmão, gente acendendo e apagando a luz da cozinha o tempo todo como se fosse uma boate (embaixo da minha porta - que foi mal cortada - tem uma brecha enorme que faz passar toda a luz e som que vem de lá). Tô tão frustrada porque eu vinha sendo o perfeito trabalhador que dorme cedo, acorda cedo, só faz trabalhar and i'm not even sorry for this. Enquanto estou na universidade aprendo cada vez mais sobre evolução, comportamento animal, ciência, ouço as pessoas que sabem mais do que eu, debato minhas curiosidades com os colegas, observo o cotidiano da profissão que quero exercer, descubro quais são as dificuldades, quais as possibilidades pro meu futuro, aprendo sempre um pouco mais como agir, enfim, eu me sinto crescendo a olhos vistos quando estou lá. Ultimamente quando eu estou num lugar ouvindo gente falar mal de quem nem conheço, dando scroll no facebook ou ouvindo pessoas falarem sobre coisas que não me interessam, ou pior ainda, falando durante vários minutos o que podiam comunicar em menos de um e seguir em frente fico impaciente, simplesmente sinto que não estou no meu lugar. 
Eu tenho me dado conta do quanto minha área de estudo é minha vida, minha religião, é o que dá sentido à minha existência, está implícito em tudo que faço, na forma como meu pensamento se organiza. Sempre foi assim desde que comecei a estudar mais e o que eu quero é saber mais ainda. Estudar evolução me faz tão feliz, faz tudo fazer sentido. Eu perco as contas de quantas vezes durante o dia eu me pego prestando atenção naquele momento e sentindo algo bom por dentro, um prazer em estar naquela situação. Um prazer em estar em sala de aula ouvindo Fívia ou Emília falarem, um prazer em conversar com Victor (meu co-orientador) e mostrar tudo que eu descobri pro meu projeto desde a nossa última conversa, um prazer em fazer planos, em querer chegar em algum lugar. Eu quero ir embora daqui, quero viver num lugar bonito, seguro e confortável. Quero tantas coisas que vi em filmes e li em livros e que nunca ousei cogitar aquilo pra minha vida porque parecia distante demais. Mas por que não? Por que não sonhar em ter uma vida melhor? Por que eu não posso me tornar o que sempre quis ser? Por que pensar que eu não deveria me atrever a querer certas coisas porque é tão "impossível" pra mim? Será que eu deveria voar baixo, me contentar com qualquer coisa?
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Nas vésperas do meu aniversário eu tava conversando com Yuri e falando sobre como eu ia ter (agora tenho) 24 anos. "Vinte e quatro anos, 24, 2-4 anos amor!" ainda sem saber muito bem o que eu pensava sobre isso. Aí Yuri disse que queria ter 19 anos pra sempre, que é a idade perfeita porque é maior de idade mas ainda é muito jovem. E eu de repente disse assim. "Pois eu gosto de ter 24 anos. Eu gosto de ganhar meu dinheiro, de ter meu emprego, meu cartão, pagar minhas contas. Eu gosto de ser responsável pela minha vida, eu gosto de ter a liberdade que eu tenho, eu gosto de quem eu sou agora. Deus me livre voltar a ter 19 anos." E aí eu finalmente percebi. Não lamento nem um pouco a minha idade. As rugas, o cabelo ficando mais ralo ou os peitos caindo (hauah), as emoções ficando menos intensas. Quando eu li o Retrato de Dorian Gray, ou mesmo antes quando vi o filme, eu nem por um minuto senti inveja dele, nunca quis ser como ele, entendi a lição do Oscar Wilde muito antes do filme/livro chegar no final. Eu nunca fui uma pessoa de eternidades. Quando eu era cristã o meu maior medo era viver pra sempre. Eu não queria ficar presa num momento que durasse toda a eternidade. Eu percebi que não vejo problema em envelhecer. Tudo que ganhei desde quando tinha 19 anos pra cá, todo o conhecimento, maturidade, sabedoria, experiência, tranquilidade, auto-controle e tantas coisas valem muito mais do que qualquer pele lisinha ou metabolismo acelerado. Pra que eu iria querer parar nos 19 anos, depender sempre da vontade do meu pai e da minha mãe, ter que pedir tudo pra eles, seja autorização, dinheiro, dar satisfação de cada passo, não poder ter minhas ideias por conta própria... tudo isso sempre foi uma tormenta pra mim. Na verdade acho que eu, durante toda a minha vida mal podia esperar por ser minimamente autônoma e independente, e ainda quero ser muito mais. Por que eu iria querer ser uma criança o resto da vida? Eu sou feliz com a vida que tenho agora. Só crianças acham bonito ser criança. Quem tem maturidade não tem problema com o envelhecimento, porque entende que só com ele pode vir o aperfeiçoamento. Quem floresce ao longo do tempo percebe muito bem que só tem a ganhar com a passagem dele. Eu sinto que cheguei tão longe me comparando há cinco anos atrás, quando eu tinha (olha só) 19 anos. Imagine o que vou me tornar em mais cinco, mais dez! Tenho certeza de que será algo a me orgulhar. Tenho certeza que saberei muito mais e entenderei tudo ainda mais claramente. Não há porque lamentar o tempo. =)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Como colocar um narcisista em seu lugar? 
(pergunta no Quora Digest)

Resposta (Helena Kvam):

"Nada terá o efeito que você procura, mas em falta de meios para um fim, ignorá-los é a única posição que você pode tomar. Não é realista pensar que há algo que você possa dizer ou fazer pra ensinar a pessoa com Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) uma lição, ou colocá-la em seu lugar. O TPN é resistente às críticas e desvia delas, para acomodar um senso inflado de self. Estar convencido da sua superioridade é a "coluna vertebral" do transtorno. Forçar terapia neles não funcionará também. O TPN irá encontrar um jeito de desviar da verdade, e achará o terapeuta corrupto, burro, louco ou invejoso. Talvez até mesmo alegar que o terapeuta está apaixonado por ele, e porque ele não corresponde aos seus flertes óbvios, o terapeuta lhe deu um falso diagnóstico. 
Acusar um narcisista da responsabilidade pelas coisas ruins que ele fez é visto meramente como um obstáculo infeliz no qual ele não prestará atenção (pois não é sua culpa). Se você tentar pegá-lo numa armadilha ou situação comprometedora, ele agirá com indiferença ou como uma criança. Ele irá mentir ou fazer gaslight* sobre o incidente ("Isso não aconteceu"; "eles mentiram pra 'ficar por cima', porque tem inveja de mim"). Em mutos casos, o TPN irá ressentir fortemente do seu esforço em corrigir o comportamento dele. Ele tem um senso infinito de que tem direito às coisas, então ele vai afirmar estar em seu direito ou ser inocente quando usar de métodos criminais para conseguir o que quer. 
O TPN é viciado em atenção e admiração. Eles procurarão situações nas quais seu vício seja nutrido adequadamente. O narcisista alimenta seu vício com atenção tanto positiva quanto negativa. A atenção negativa se refere ao drama, com o qual eles podem "cuddle with" por um longo período de tempo. Drama inclui campanhas de difamação de outras pessoas, estragos e às vezes até sérios atos criminosos. Dependendo do mal que tenha sido infligido, o narcisista pode tornar-se perigoso por necessitar de vingança.
Se tem algo que pode fazer o narcisista mudar seu comportamento é ignorá-lo por um tempo, isso caso ele precise de você na vida dele. Não será uma mudança permanente, já que é uma mudança calculada. O narcisista sempre tem um plano."

*Gaslight: forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Just venting

Servidão

"Chamo de servidão a impotência humana para regular e refrear os afetos. Pois o homem submetido aos afetos não está sob seu próprio comando, mas sob o do acaso, a cujo poder está a tal ponto sujeitado que é, muitas vezes forçado, ainda que perceba o que é melhor para si, a fazer, entretanto, o pior." 

Pra Espinosa, o homem escravo dos próprios afetos "vê o que é melhor pra si e aprova, mas segue fazendo o pior". Eram 23h e eu estava cozinhando batatas pra depois assar com orégano e farinha de trigo porque estava com um desejo de batata frita (só que seria sem noção fritar aquela hora). Enquanto eu cozinhava as batatas, a minha irmã veio na cozinha, viu e disse algo como "é por isso que você não emagrece!!!! Não adianta passar o dia inteiro em jejum, sem comer e de noite ficar comendo essas coisas!". Me lembrei do taoísmo e pensei "o sábio taoísta é como uma garrafa de vidro sem fundo, que permite que a energia passe por ele e o atravesse, sem reter nada". Mesmo dizendo isso pra mim, e tentando aceitar, esquecer, não me deixar sentir raiva, isso ficou na minha cabeça. Quase uma hora depois, quando eu já tinha colocado a louça de molho pra depois lavar, minha mãe chegou na cozinha e disse algo como "espero que um dia você vire uma pessoa normal, ao invés de passar o dia dormindo e fazendo comida a essa hora da noite, pra feder a casa inteira, encher de barata, sujar tudo (etc)".
Ok. É difícil ser um sábio taoísta nessa casa! hauahauha
Eu sou uma pessoa righteous, juro. Eu limpo o que sujo, lavo. Chego em casa, troco a areia do gato, lavo minha roupa na máquina, penduro, guardo, cozinho minha própria comida, até mesmo compro minha própria comida no supermercado com o meu dinheiro. E vou te contar, é de partir o coração ser chamada de "anormal" ou ser vista como vagabunda por causa do meu horário de dormir. Quer dizer, o meu irmão, que não consegue sequer pegar a roupa dobrada e passada que fica em cima da mesa e guardar dentro das gavetas dele é melhor do que eu, porque acorda às 8h. É por aí que as coisas funcionam aqui.
Fico pensando em como é desafiante seguir um caminho de iluminação. Mas preciso ser firme! Se fosse fácil não era "iluminação". Eu mal consigo me ver num nível de desprendimento em que eu não me importe com isso, mas quero acreditar que isso é possível!

Conhecimento é poder

Quando estava na graduação, paguei a disciplina de Cronobiologia Aplicada à Saúde, que fala, de forma geral, sobre nossos processos biológicos circadianos, especialmente o sono. Meus pais sempre fizeram questão de me diminuir, me colocar como um estorvo por eu desde criança dormir e acordar tarde. Como se isso fosse algo impuro, sujo, quase demoníaco. Como se eu nunca fosse conseguir nada na vida por ser assim. Essa disciplina foi minha redenção. Lá eu aprendi que o ciclo do sono dos seres humanos é maior do que 24 horas, o que faz com que quando as pessoas desregulam seu sono, elas tendem a dormir cada vez mais tarde e acordar cada vez mais tarde (chamam isso de arrasto). Aprendi que existem pessoas com cronotipos extremamente matutinos, moderadamente matutinos, intermediários, moderadamente vespertinos e extremamente vespertinos. A maioria da população cai no tipo intermediário, por isso são flexíveis e conseguem acordar cedo ou tarde a depender da necessidade. Segundo os testes desenvolvidos pelo professor (que é médico), o meu cronotipo é moderadamente vespertino. O que significa que eu vou apanhar a vida inteira pra me adequar à uma sociedade com um mundo construído pra matutinos-intermediários. Lá eu aprendi que a luz azul do computador e celular servem pra indicar pro organismo que ainda é de dia e barrar a produção de melatonina. Aprendi que o sono durante o dia não é reparador por conta da quantidade de barulho e de luz que se recebe, por mais que se tente impedir e isso. Aprendi que dormir mal engorda. Aprendi que a melhor forma de se adaptar pra acordar cedo é acordar cedo, tomar uma hora de sol sem óculos (pra que a retina capte de verdade a luz e mostre pro corpo que está de dia), não dormir o resto do dia e depois restringir o uso de aparelhos emissores de luz azul ao cair da noite.
Mas como explicar isso pra um casal imerso na cultura judaico-cristã brasileira, onde "Deus ajuda quem madruga", cada qual vindo do seu interior, com suas convicções, e o pior: dois intermediários-matutinos ou quase isso. Como explicar pra minha mãe tudo que sei de biologia, sendo que ela escuta 50% do que eu digo e dá crédito a menos de 10%? Simples. Não se explica! Se tem uma coisa que aprendi com minhas vivências é que nada se fala a quem não quer escutar, a menos que seu hobby seja perder tempo. E pior que até tentei, uma ou outra vez, mas era em vão. Perda de tempo. A minha mãe só vai prestar atenção se alguém falar isso pra ela em corrente do Whatsapp, ou caso ela veja na televisão. De outra forma, vindo de mim, quer dizer... quem sou pra saber alguma coisa na vida? Eu e meu diplominha, com essa pose de cientista, com esse ar de quem sabe mais do que o mero senso comum, essa criaturinha arrogante que não conhece o seu lugar. Eu que nasci quando ela já tinha 31 anos de mundo. A verdade é que eu nunca vou ter credibilidade pra ela, e tudo bem. O sábio é silencioso, isso eu posso dizer que me evitou muitas boas dores de cabeça, atritos, estresse e mágoas.

É aí que entra Espinosa. O homem escravo dos seus afetos vê o melhor e aprova, mas segue fazendo o pior.

Insônia e compulsão

Eu comecei a ter uma insônia absurda que me faz ficar acordada até as 12h, depois dormir até as 17h e ficar acordada o resto do dia. Na maioria dos dias, eu durmo menos de 6h. Talvez por causa disso eu agora cultivo uma dor de cabeça persistente. A minha insônia começou quando parti pro low-carb, que comecei pra perder peso mais rápido (além de que eu faço jejum. 18h ou 12h, treinando pras 24h). O problema é que essa porra não me deixa dormir e eu tive que voltar a comer carboidrato, porque eu não dormia de fome ou porque sei lá, comer planta dá uma energia do caralho na hora que você deveria dormir. Eu pareço saber exatamente tudo que deve ser feito. Pra emagrecer, comer coisas naturais. Comer pouco. Longos jejuns. Se entupir de água. Nada de farinha de trigo/doces. Fazer exercício. Pra dormir fazer isso, aquilo. Pra produzir melhor no trabalho, fazer isso, fazer aquilo. Mas eu não faço isso. Bem, eu tento. Comparando ao que eu era ano passado, esse ano eu sou alguém 100% mais esforçada e mais disciplinada, eu realmente consegui chegar em algum lugar. Só que eu queria ir mais longe e isso me faz sofrer tanto. Estar acima do peso me faz sofrer ainda mais porque o "tipo" do meu namorado são mulheres com o corpo igual o dele, só que uma buceta substituindo a rola. O negócio dele é realmente mulher magrela e muito embora (preciso ser justa) ele não exija nada (mas fala "você é linda mas poderia ser mais"... -ugh, right!) isso fica na minha cabeça. Isso fica na minha cabeça e atrapalha quando a gente transa, isso fica na minha cabeça e me faz ficar triste quando vou escolher uma roupa ou me olho no espelho, isso fica na minha cabeça mas eu não tenho pra quem dizer porque sinto vergonha, porque me sinto fraca, incapaz de mudar algo que parece "tão simples", que o que não falta é receita na internet e interesse da minha parte, vídeo no youtube, e eu vou mudando tudo, cortando tudo até não sobrar nada que eu realmente goste (e a comida é o grande consolo da minha ansiedade, já era mesmo quando eu fumava, imagine depois que larguei o cigarro). E eu sinto que eu ajeito uma coisa e começa a dar certo e logo bagunça outra e eu acabo perdendo o progresso daquela coisa que ia ajeitando, porque quando eu tô certinha na academia ou comendo direito vem algo do mestrado desafiador demais e eu fico ansiosa e tomo aquela rasteira e acabo comendo feito uma doida de volta, ou tendo que dedicar muitas horas seguidas pra resolver algo com prazo pra ontem, por aí vai. Eu me sinto uma malabarista de facas, vou jogando cada uma pra cima tentando segurar a outra enquanto a primeira voa, e logo depois jogando mais uma pra pegar a próxima, e parece que eu simplesmente não tenho mãos pra segurar tudo. Não tenho como ser o que todo mundo quer o tempo todo, ou sequer uma parte do tempo e isso me deixa tão mal e me prende dentro de um círculo vicioso de ansiedade, tristeza, carência, insônia, medo, culpa, fome, desolação e caos. Eu sento aqui e faço planilhas, tento juntar dinheiro, conto caloria em app, não como, olho pra minha dissertação e me perco onde começar, vão surgindo coisas, anoto tudo, tento controlar tudo, meu deus do céu por dentro eu sei que tô tão cansada, mas tô aqui e não consigo dormir um pingo, não consigo abrir mão de estar consciente pra sofrer. Tô aqui e não consigo parar de escrever nesse blog que tantas vezes é o único lugar que eu tenho pra falar a verdade, pra me abrir. Unload.
E aí eu penso em Espinosa e lembro da servidão humana aos afetos, da ausência de controle e me pergunto o que fazer pra submeter meus afetos a mim e não os deixar nas mãos do acaso, da Fortuna. Espinosa tem a resposta no seu livro, Ética. Fui na livraria, mas estava em falta.

domingo, 14 de maio de 2017

"Um mestre antigo dizia que nós deveríamos saber receber tudo o que vem do mundo e repassar tudo de volta para o mundo. Dessa maneira, a nossa vida torna-se algo vazio e esse vazio permite que a vida flua dentro de nós. É desse processo que vem a alegria sem euforia e a tristeza sem depressão. Vêm coisas saborosas e amargas, e tanto umas quanto outras entram e saem de nós como se estivessem sendo derramadas numa garrafa sem fundo.

Assim, a nossa capacidade tanto de receber quanto de dar nunca termina e, com isso, a vida se torna mais leve porque, nesse momento, deixamos de fluir na vida para deixar a vida fluir em nós. A partir dessa hora nós nos transformamos e ficamos como se fôssemos um tubo por onde a água, que simboliza a vida, passa por nós e vai adiante, fluindo sem parar porque não existe um fundo, um limite que a represe.

De modo contrário, se nós tivermos um fundo, como uma garrafa ou um copo, a água não vai fluir. Ela vai encher essa garrafa até seu limite, depois transbordar, e terminar levando o copo ou a garrafa junto com ela, em vez de passar e sair. Então, a pessoa que tem o ego muito forte é levada pelo destino, em vez de permitir que o destino ou a vida passe por ela. (...)

Precisamos nos esvaziar para podermos nos tornar receptivos. Sendo receptivos, podemos de fato abraçar todas as coisas e, ao mesmo tempo, permitir que todas as coisas se desenvolvam e se transformem de modo natural e fluido."

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Um pouco sobre evolução

"O resto é mar
É tudo que eu não sei contar
São coisas lindas
Que eu tenho pra te dar
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho"

A coisa que mais gosto sobre a Psicologia Evolucionista é o quanto os fenômenos estudados por nós são observáveis no cotidiano. Uma coisa que me incomoda um pouco e tenho visto recentemente é a máxima "ame a solidão", "aprenda a gostar de você e ser feliz sozinho" e outras ideias na mesma direção.
Na minha concepção, o que é natural não exige esforço. 
Considere o comportamento alimentar: a maioria dos seres humanos tem preferência por doce e gordura, possuindo inclusive receptores gustativos especializados em detectar gordura, por exemplo. Por que isso acontece? Ao longo da evolução da espécie, nos deparamos com desafios energéticos que favoreceram os indivíduos que tinham preferência por essas características nos alimentos, aumentando sua taxa de sobrevivência e reprodução, e portanto, transmitindo a preferência pras próximas gerações através da genética.
Quando alguém toma a decisão de ser vegano, vegetariano, evitar o glúten, açúcar e toda a sorte de alimentos "viciantes" (essa palavra já diz tudo!), está fazendo um esforço consciente pra mudar um comportamento. De fato, atualmente pode ser mais vantajoso adotar esse tipo de dieta em detrimento das nossas preferências ancestrais, uma vez que o ambiente está em constante mutação, e que a disponibilidade, fácil acesso e constância de alimentos cada vez mais ricos naquilo que nos desenvolvemos pra gostar está nos tornando doentes, obesos, diabéticos, hipertensos. Porém, a preferência por gordura e doce ainda estará lá, só que estaremos de certa forma passando por cima dela, em nome de um bem maior.
Nas ciências humanas costuma existir uma ranço muito grande com relação às ciências naturais. Isso acontece porque o berço dos estudos sobre a humanidade foi o positivismo científico, e ao longo do tempo esses estudiosos foram procurando seu lugar ao sol, sendo hoje como um filho adolescente que se rebela contra a sua mãe por não ser capaz de compreender sua experiência e sabedoria. Porque ele tem que fazer as coisas do jeito dele, precisa descobrir o próprio caminho. Eles dizem "O ser humano não nasce; torna-se. Não existem instintos. Tudo é construção social, e por isso, tudo é passível de ser diferente do que é, de ser mudado". Ora!!!!!!!! A construção social se inscreve num corpo biológico. Nele agem leis naturais. Hormônios e neurotransmissores funcionam em ciclo, alinhados com as forças da natureza: a luz solar, as estações do ano, as fases lunares. O tempo. Pressões ambientais selecionam características que prosperarão e as que serão arruinadas. Não se pode apagar o bio do psicossocial, não importa que se feche os olhos e deseje com toda a força. Não adianta querer se destacar da natureza, desejar não estar inserido em um reino, filo, classe, ordem, família, gênero, espécie. 
Os pesquisadores Miller e Saad afirmam que a mídia e o mercado nos oferecem aquilo que nós já desejamos. Colocar como padrão de beleza cintura fina, pele lisa, cabelo comprido é vender uma preferência que a gente identifica claramente nas pesquisas. Romances monogâmicos em enredos de produções culturais direcionadas à mulheres também.  Ou por exemplo a letra de Ugly Boy do Die Antwoord, que deixa tão claro as preferências femininas:

Ninja:
"Got nothing to worry about trust me
You trust in ninjie cause he don't play
Everything's going to be okay
I can make your problems go away
And I ain't scared of shit
Whatever the fuck it is I take care of it
If you're strapped for cash, heading straight for a crash
I can make cash rain on your ass
Anything you want (you got it)
Anything you need (you got it)
Just keep it real with me
(...)
Respect me receive my protection
I'm always right by your side like a weapon
Love me I grant you there will be love
Fuck with my girl there will be blood"

Yolandi:
"Ugly on the skin
But you're lovely from within
An angel kiss from me to you
Always there for me when I'm feelin' blue
You say you'll stick with me and I know you well
I just get so emotional
When I'm down and feeling weak
With tears streaming down my cheeks
You say the sweetest things"

(claro que essas coisas se retroalimentam: a preferência natural alimenta a mídia, e a mídia artificializa e fortalece essa preferência!)

Quando dei aula sobre preferências femininas pra parceiros de longo prazo, me baseei no capítulo do Buss que colocava, entre outras características, a estabilidade emocional, recurso financeiro, capacidade de proteger fisicamente (formato do corpo + altura, coragem, sinais comportamentais de uma boa quantidade de testosterona), disposição em investir (fidelidade, generosidade), capacidade de garantir recurso ao longo da vida (status social). Nessa letra Ninja oferece tudo isso em troca de uma coisa que pede pra Yolandi (keep it real with me - fidelidade, sinceridade), enquanto Yolandi diz que não importa a aparência de Ninja, pois ele está tão disposto a investir nela e protegê-la, justamente como vemos nas pesquisas que fazemos. A natureza e a cultura andam de mãos dadas, e uma interfere na outra.

Dei uma volta muito grande, mas queria chegar numa problematização final: participo de vários grupos exclusivamente femininos e um tema que observo com recorrência são relatos de solidão e tristeza (em decorrência da sensação de solidão), dependência de relacionamentos fracassados e tóxicos. Aí chega alguém e fala "você tem que aprender a ser feliz sozinha!" e eu me coço todinha. Não consigo imaginar como seria possível jogar fora milhões de anos de evolução como espécie social, de uma hora pra outra, pra que alguém possa ser feliz "sozinho". Happiness is only real when shared é verdadeiro demais. Nas minhas mais marcantes memórias, eu estava acompanhada. Às vezes eu me vejo triste, e percebo que é falta de encontros felizes com pessoas que gosto. Podemos nos distrair, refletir ou aprender enquanto sós, mas que valor tem qualquer conhecimento na solidão? Pra que existiria o pensar sem o falar, quando o pensamento nasce da necessidade de formular uma comunicação precisa, de estabelecer uma conexão com o outro, de se colocar no lugar do outro pra entender sua mente e sentimentos? Nós fomos feitos pra isso. Nós temos expressões faciais pra isso, nós temos empatia por isso, nós articulamos teoria da mente por causa disso, nós criamos vastos vocabulários e rituais por causa disso. Se fosse simples, se fosse a ordem natural, não era necessário que alguém ficasse nos ditando isso. Não precisaria que ninguém dissesse, bastava ser. Seria fácil. Se nasce sozinho, sim. Mas a vida se dá em grupo. A vida é impossível de ser mantida, especialmente em seus primórdios, em outra condição que não seja com os outros que lhe cuidem, alimentem e protejam. O ser social é a característica mais bonita da nossa espécie. Quando se fala em "humanização" ou que um animal foi "mais humano do que muitos humanos" ao ajudar um outro, seja animal ou humano, é sempre por causa disso: empatia, compaixão, lealdade, compreensão. Características sociais!!!! Como alguém pode chegar e querer tirar isso da outra pessoa? Dizer que não se "precisa de ninguém pra viver". Tudo bem, não precisa de ninguém específico. Mas que se precisa de alguém, claro que sim. Fomos feitos pra isso. Por que fazer alguém ter vergonha do que se é? Se sentir fraco por ser um exemplar da espécie humana. Dizer que são feias nossas características mais essenciais. Não existe porque se envergonhar de desejar suporte, companhia, compartilhamento, conexão. Queria ver cada vez menos essa besteira sendo dita por aí.

[queria escrever mais, mas preciso dormir...]

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Dogs

No domingo encontrei Fívia e o marido dela no show de jazz com Ed Motta. Ela me falou da sua cachorrinha (Duquesa, uma yorkie exatamente da idade que Lulu teria - 9 anos) porque a filha tinha acabado de mandar uma mensagem dizendo que a cachorra teve outra convulsão. Dudu toma Gardenal porque tem convulsões há algum tempo, elas tinham diminuído a quantidade do remédio porque ela já não fazia mais nada o dia inteiro. Tinha dificuldade de andar, se equilibrar, prestar atenção em qualquer coisa... mas como as convulsões voltaram, Fívia falou pra filha dar a dose máxima de novo (10 gotas). Toda vez que ela me conta algo sobre Dudu eu fico sem ter o que dizer, pela situação extremamente triste. Ao mesmo tempo, isso me fez lembrar de Lulu

Sinto que finalmente entendi o que Nathan quis dizer quando Lulu morreu. Ele disse algo como "ele sofreu por pouco tempo, agora só você tá sofrendo" e também algo sobre como ele iria morrer em algum momento. O que eu achei interessante naquela situação foi o fato de tanta gente ter me falado sobre Deus, céu, planos (no sentido de planejamento) divinos, planos (no sentido de realidades) espirituais, reencontro, etc etc... e Nathan, a pessoa mais religiosa que eu conhecia, em momento nenhum falou de vida após a morte, continuidade, eternidade. Ele foi o único que realmente se esforçou pra falar na minha língua, pra me confortar considerando o que eu realmente acreditava ou deixava de acreditar (claro, não desprezando o amor que todas as pessoas próximas a mim me ofereceram, porque o conteúdo das palavras ditas era irrelevante diante das demonstrações de carinho que vieram junto). 

Meu filhinho morreu com 8 anos. Como a Duquesa, ele também tinha pedigree. Estava com algum problema de memória ou nos sentidos. Lulu estranhava todo mundo aqui em casa de vez em quando (frequentemente), latindo e rosnando como se estivesse diante de um estranho. A única pessoa pra quem ele nunca latiu foi pra mim. A única pessoa que ele sempre reconheceu, talvez por passar tanto tempo comigo sempre. Era o começo de algo que iria se agravar. Os sintomas dele começaram na mesma época em que Dudu começou a ter convulsões. Quando ele morreu, me senti tão inconformada porque queria que ele tivesse vivido todos os anos da sua vidinha canina (até calculei um dia, que se ele vivesse todos os aninhos em miniatura esperados, morreria quando eu tivesse 30 anos). Na verdade, eu secretamente sempre desejei/acreditei que ele fosse imortal. Ao mesmo tempo, me preocupava em morrer antes dele. Eu sabia que ele tinha que morrer primeiro, porque enquanto humana, poderia entender o significado da morte. Ele, enquanto cachorro, jamais compreenderia a minha.

Dudu às vezes passa dias sem comer. Fívia comprou uma ração especial pra cachorros com a doença dela, que custa 100 reais. Ela muitas vezes precisa forçar o remédio, e em outras, a empregada da casa esquece de dar, ou não liga mesmo, e aí ela tem convulsões longas, intensas. Dudu sobrevive. Lulu viveu. Eu nunca vou considerar que o que houve com ele foi melhor, é impossível dizer que o que aconteceu é bom, sob qualquer prisma. Mas o meu filho não ficou doente, não definhou. Morreu cheio de saúde, passeando, alegre, farejando. Foi sacudido e morreu. Em quanto tempo? Talvez menos de um minuto? Enquanto isso Dudu sofre todos os dias. Eu poderia arcar com isso, tanto emocionalmente quanto financeiramente? Poderia arcar com um tarja preta perigoso, cheio de efeitos colaterais? Ele teve uma convulsão nas patinhas de trás antes de morrer. Quantas vezes eu poderia aguentar assistir isso?

Talvez tudo isso que eu esteja dizendo seja o velho "poderia ser pior". Poderia ser melhor também, quem sabe? Só que seria utópico demais achar que ele viveria bem, saudável, saltitante e maluco do jeito que era até o último dia, se ficasse velhinho demais. Eu ainda choro às vezes. Tenho pesadelos. Não posso ver algumas coisas, que servem de trigger (esse negócio é real. Por exemplo, não consigo ver cenas com cachorros estraçalhando algo, ou morrendo, como no clipe de Pitbull do Die Antwoord). Me restou um trauma, um ponto fraco, um calcanhar de Aquiles, um pedaço de mim sensível, vulnerável, machucado. Mas e pra ele? Eu sofri tanto, ele sofreu um pouco. Não chorou, talvez porque o susto, a adrenalina tenham inclusive bloqueado a percepção de dor dele. Só eu chorei. É como se eu finalmente encontrasse, racionalmente... um tipo de perdão, aceitação. Apaziguamento. 

"Não existe, na natureza das coisas, nenhuma coisa singular relativamente à qual não exista outra mais potente e mais forte. Dada uma coisa qualquer, existe uma outra, mais potente, pela qual a primeira deve ser destruída (...) A força pela qual o homem persevera no existir, é limitada e é superada, infinitamente, pela potência das causas exteriores"

O mundo tem uma capacidade infinita de entristecer. Se entregarmos nas mãos da Fortuna a nossa felicidade, teremos chances muito maiores de sofrer do que nos alegrar. A alegria só virá sempre quando formos causa própria dela, através da ação (refletir, observar, criar, sentir...). Enquanto primata, resisto diante do caos da existência, sem sucumbir diante da sua força, mas aprendendo a criar sentido e significado a cada golpe, a cada dia vivido. 

11 meses sem príncipe. Descanse em paz meu amor inesquecível. Um dia a mamãe também vai merecer o descanso eterno.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Espinosa parte de um pensamento monista: só há o mundo, ele e nada mais, o pensamento brota do seu corpo, que está no mundo. “O mundo se impõe”, não tem como fugir, não há outra maneira. Fugir do mundo é fugir da única coisa que existe, se matar, ou inventar planos transcendentes. Sendo assim, só há uma maneira de viver, no mundo. (...)

Seguindo este raciocínio, chegamos ao ponto máximo que a frase inicial nos traz: “O mundo é com você dentro”! Você faz partes das equações do universo, você está imbricado, diretamente relacionado com o modo como a existência se dá, se cria, se faz. Não vou te responsabilizar por nada, não há culpa, não há nada fora do mundo para te julgar. Mas há uma relação, você é cúmplice, para o bom e para o ruim.

O vento desvia de você, teu corpo esquenta o ambiente, sua fala afeta ouvidos alheios, um abraço alegra o outro, uma obra de arte traz lágrimas aos olhos. Você atualiza o mundo, você sofre e age, você afeta e é afetado. Você é parte da criação e transformação do universo, se afirmando, se multiplicando na existência. Assuma isso: a vida flui, as forças que te constituem te atravessam, te pluralizam, passam por você, te levam mais longe, além, sempre além. Seja digno da vida se afirmando em você." (Rafael Trindade)

Acho que finalmente encontrei um filósofo que gosto mais que Epicuro: Espinosa. Como Gui falou, é como se alguém dissesse o óbvio, algo que você já sabe, mas é de certa forma uma ideia nebulosa dentro da sua cabeça, mas que ele consegue tornar em ideia, palavras. Espero me disciplinar esses dias pra colocar em palavras tudo em que Espinosa me tem feito pensar...
"Num encontro, as relações podem se compor, e aumentar sua capacidade de agir. Um afeto de alegria acontece quando uma afecção nos leva para uma potência maior de ser e agir no mundo; isso porque encontramos um corpo que combina com o nosso. Ex. O corpo da mulher amada, o abraço de um grande amigo, a água fresca quando temos sede, a comida quando temos fome, a música que nos chega aos ouvidos. Espinosa chama a isso de bom-encontro.

Um afeto de tristeza acontece quando uma afecção nos leva para uma condição menor de potência, ou seja, nosso conatus diminui, nossa força para existir e agir, afetar e ser afetado, diminui, passamos para uma perfeição menor. Ex. o veneno que nos chega no sangue, encontrar-se com uma pessoa desagradável, ser ferido por um objeto cortante, ser infectado por alguma doença. (...)

Dos afetos primários, alegria e tristeza, nascem todos os outros. O amor, por exemplo, é a alegria acompanhada de uma causa exterior; o ódio é a tristeza acompanhada de uma causa exterior. Estas afecções refletem-se diretamente em ideias destas afecções, e a mente tem a potência de pensar tanto maior quanto tem a capacidade de ser afetada por múltiplas maneiras. (...)

Os afetos passivos, também chamados de paixões, acontecem quando não somos a causa de nossos afetos, ou apenas causa parcial. Eles são causa necessária de um mundo que se impõe em nossos corpos. Ao sabor dos encontros, podemos ser afetados positivamente ou negativamente (achar uma nota de dinheiro no chão ou tropeçar e machucar o pé). Mas estes afetos são inconstantes e não podemos depender deles, já que, da noite para o dia, aquilo que nos dava alegria pode, no momento seguinte, nos trazer tristeza.

Já afetos ativos, também chamados de ações, só podem ser alegres, porque o corpo sempre esforça-se para aumentar sua potência de agir. Quando o corpo age, ele age por sua própria natureza, que se esforça para crescer, ser cada vez mais forte, mais capaz de ser afetado de múltiplas maneiras e agir no mundo de muitas formas, aumentando sua potência e ser afetado cada vez mais por afetos alegres. A Ética de Espinosa procura transformar os afetos passivos em ativos, e assim sair da servidão para a liberdade."

Rafael Trindade (sobre Ética - B. Spinoza)