quinta-feira, 27 de abril de 2017

Se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe.

Guardador de rebanhos - Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de abril de 2017

Das lições dessa semana


Na semana santa eu e Yuri ficamos doentes, destruídos. Isso é bastante comum quando se volta de SP, mas é claro que eu fiquei aterrorizada achando que era febre amarela durante 24h haha. Marié foi pra casa dela em Campos de Santana, mesmo lugar onde a gente passou o aniversário dela no ano passado, uma casa linda estilo hippie, simples e parecendo que saiu de um filme sobre bruxas wicca, com uma lagoa a poucos metros dela, nos fundos da casa. 

Quintal de Marié em CS
Acontece que dessa vez ela chamou as mesmas pessoas que no aniversário, menos umas que não estavam aqui e... eu (e Yuri por consequência. hauah tadinho). Claro que ela tentou justificar depois, como eu sabia que ela ia fazer, quando a gente fosse pro bar ("é porque Keila disse que você não tinha voltado de viagem ainda" - o que infelizmente é mentira, porque Keila tem aula com Yuri todos os dias e já tinha visto ele aqui), e independente do motivo pelo qual ela tenha feito isso, eu me senti  exatamente como nessa postagem que Fernanda acabou de compartilhar:

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Com a minha experiência em relacionamentos (de todos os tipos), seria ingenuidade ou cinismo culpar uma pessoa ou outra por isso. Eu sei que as relações são vias de mão dupla, bilaterais (se o nome é relação, está implícito que é de uma coisa com a outra) e analisando racionalmente, não posso deixar de admitir uma parte (quem sabe a maior) da culpa no que aconteceu.
"Tudo que dura pra sempre precisa de manutenção", de novo. Foi aí que eu vi que deixei meus amigos de lado. Fiquei preguiçosa e indisposta a aceitar o fluir do mundo. As pessoas combinavam de sair e levavam outras pessoas que eu não conhecia e eu me sentia deslocada e sem graça. Não encontrava espaço pra tratar dos meus conflitos, pra ter qualquer conversa mais íntima do que quais as séries que todo mundo está assistindo. Pra me sentir melhor eu precisava beber e fumar e isso me fazia sentir culpada depois porque eu não queria mais fazer essas coisas, eu queria poder dizer que sou straight edge mesmo, sem exceções (além de ter que economizar dinheiro pra viagem). Por causa disso eu fui me afastando até que minha presença não fosse relevante o suficiente.
A carta de Breno me serviu como um lembrete de que é preciso ação, ou como diria ele "afet.ação", então eu combinei de encontrar Gui e Thiago na florestinha, e depois ir pro Pedrão com Cacau, Cibele, Marié e Keila. Depois de tanto tempo sem ir na jungle, eu tinha me esquecido completamente da escuridão, do abafado e da sensação de ancestralidade que dá fazer uma rodinha no meio da mata, cantando juntos e compartilhando bebida e cigarro (e maconha, que não fumei lá). Depois passamos na graminha pra encontrar os amigos de Yuri e chamar eles pro bar também e Tovar me deu um restinho de beck inteiro, que eu fumei pra comemorar o dia 420. No Pedrão, depois que as meninas foram embora eu e Marié ficamos conversando sobre os planos dela de ir morar no Canadá em 2019 e isso sempre me inspira demais a correr atrás do que quero, fazer planos, prestar atenção na minha vida, ter metas de onde quero chegar. Na sexta, fizemos uma rodinha aqui em casa com as cadeiras lá fora, e bebemos cerveja com o meu irmão, o namorado dele, um amigo deles, minha irmã, Yuri (de prancha) e meu sobrinho, cena que eu jamais poderia imaginar um ano atrás. Foi um rolé tão fora do comum que até Yuri tomou uma cerveja, e ficamos até de madrugada na "arriação". No sábado, fomos pra praça do Gringo's com Luan e Batista, que levou kunk no vaporizador e eu fumei pra experimentar. Depois, ficamos jogando truco e fodinha até 3h da madrugada, quando voltamos pra casa pra assistir Scarface e esperar a hora de ir buscar minha mãe no aeroporto. No domingo, eu acordei me sentindo tão absoluta e plenamente bem, leve. Tudo isso por causa da sacudida que levei ali, antes do feriado. Porque decidi fazer diferente e oportunizar pra que todas essas coisas acontecessem de novo, porque tive iniciativa, porque não fiquei presa na minha zona de conforto onde já não é mais confortável de verdade, ficou mais pra uma pizza que já esfriou e você come porque não quer ter o trabalho de fazer outra coisa, nem levantar pra colocar pra esquentar.
Apesar de nada ter mudado ultimamente e eu continuar lutando contra os mesmos problemas de sempre, tenho a sensação de que eles não são mais tão importantes assim. Eu me senti tão livre. Acho que o significado de liberdade é não sentir culpa. Liberdade não é usar drogas ou não usar. Comer junk food ou plant based. Ficar em casa sábado à noite ou sair. Liberdade é poder fazer algo sem se sentir mal depois, sem ficar com peso na consciência, sem que aquilo te deixe mais triste do que o prazer que foi fazer essa coisa. Antes eu fumava cada cigarro com medo do câncer no futuro, com pena do dinheiro, bebia me preocupando com a ressaca, fumava esse preocupada se ia dar conta de aprender os conteúdos do meu projeto com "aquele estilo de vida". Eu descobri que não preciso me proibir de fazer o que quero em nome de ideologia nenhuma. Eu posso simplesmente fazer as coisas quando tenho vontade, sem me tornar escrava delas. E é isso que me faz feliz. O meio-termo, a moderação em detrimento da radicalidade, o eclético, o autêntico. O que é construído e criado por mim pra ser eu, e não o que vem pronto. Nem junkie nem edge. Ninguém me proíbe de nada, e eu não preciso proibir, porque me conheço. Eu sei a dose que preciso, eu sei quanto aguento. Eu sei o quanto faz bem e até que ponto ir. Quanto mais me aceito, melhor me conheço. Isso me faz genuinamente feliz. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017



Encontrar esse tipo de coisa numa mini-faxina cotidiana no quarto é como beber amor num copinho de dose, e às vezes a dose de amor vem num momento em que a gente precisa muito (providencial, palavra que Yuri adora usar). 

É tão difícil falar de você, meu amigo. Já intercalei várias vezes encaradas na barrinha de digitação piscante do Word, levantadas da cadeira e visitas à geladeira. Por um lado por eu sentir que as minhas palavras jamais poderão representar com fidelidade o que sinto, e acreditar que o silêncio de um abraço apertado pudesse fazer com que nossos corações conversassem muito melhor (e também porque o abraço parece ser sua forma de comunicação favorita), por outro lado, por eu não saber, como você, transformar o dizer em arte, através de versos e metáforas. Talvez também por achar que mais lhe valeria o presente de uma carta assinada à mão, as palavras materiais e não virtuais, imperfeitas e autênticas. Isso seria difícil, dado nossas barreiras físicas: você, enquanto passarinho livre sem motivos para se prender em lugar nenhum, já alçou vôo pra Recife há algum tempo. 
Você viu em mim algo que tão poucos vêem, mesmo hoje. Me atrevo a dizer que viu algo que ainda não estava ali pra ser visto, mas se fez ver depois que você plantou a semente, dizendo que via, entende a mágica? O seu amor genuíno me despertou também amor! Coincidentemente, vi que você postou isso há pouco:

"eu via olhar de beleza em tudo!
a experiência do cotidiano me convida às suas belezuras!
os encontros transbordam conexão.
permite estar!
aconchega, acalenta, vibra!
o mar dos abraços, me pegou.
eu vejo olhar de beleza em nada!"

Quando te conheci, trazia dentro de mim um caleidoscópio de sentimentos mesquinhos: ódio, ressentimento, indisposição, dor, mágoas, constrangimento e acima de tudo, pressa. Eu era com os outros como meu pai era comigo: ele respondia sempre com um aceno de cabeça, sem tirar os olhos do computador, a menos que eu fizesse alguma solicitação tão extravagante que acabava o obrigando a dizer alguma coisa. Sempre perdida em algo distante, em meus pensamentos. Eu não tinha tempo pra parar, porque estava sempre correndo. Não tinha tempo de dar uma boa olhada em alguém, a ponto de muitas vezes demorar pra conseguir associar rostos e nomes. 

Talvez por esse contraste eu prestasse tanta atenção em você. Você dispunha sempre de tempo pra saudar cada uma das pessoas que conhecia com um sorriso no rosto, um alegre e sincero "como você tá?!" acompanhado de um abraço forte e demorado, não importava se você tivesse acabado de chegar na UFRN depois de uma caminhada a pé desde a sua casa, debaixo do sol do meio dia, com a sua camisa pintada pelos seus sobrinhos pequenos, cheia de mãozinhas marcadas com tinta. Não importava também se tivesse chovido torrencialmente e você estivesse todo molhado. Enquanto eu corria de casaco na cabeça, temendo pela chapinha que tinha me custado tempo, você chegava todo feliz porque choveu e você aproveitou pra tomar um banho de chuva. Entusiasmado, como sempre, no sentido exato que essa palavra tem: en + theos, preenchido, habitado por divindade! O seu existir simples, despretensioso, carinhoso, presente, acalentador, singelo, sensível e apaixonado me provoca saudades imensas. Gostaria que você soubesse o quanto aprendi a amar com você! Seria impossível contar quantas vezes minhas lembranças sobre você me desarmaram diante dos outros, me fizeram pensar duas vezes antes de agir. Me fizeram olhar nos olhos, me fizeram parar e escutar. Me fizeram dar abraços lentos de amor. Me fizeram saber ter tempo pro que é importante de verdade. Me fizeram amar meus dias existindo, sem que houvesse motivo especial ou que outro motivo se fizesse mais especial do que a minha própria existência. Eu quis acolher por te ver acolher, semear o bem por te ver semear, me alegrar por te ver ser tão alegre. Breno, você me inspira, e eu amo você, eu choro lendo suas reflexões, mesmo que no Facebook, assim como chorei hoje, várias vezes, ao tentar escrever sobre você. Ao meu espírito só resta se transformar em lágrimas quando contempla a beleza do seu! Gratidão pelos ensinamentos, por esse encontro que me mostra que a nobreza não tem nariz empinado, ao invés disso, é humilde. Gratidão pelo cruzamento dos nossos caminhos! Eu não poderia encerrar aqui senão com um poema do Manoel de Barros, que você me mostrou uma vez e nunca esquecerei:

"A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios."

segunda-feira, 17 de abril de 2017

São Paulo #1

06/04

Depois que fecharam o aeroporto Augusto Severo e colocaram outro em São Gonçalo do Amarante, eu não faço mais a menor ideia de como calcular o tempo pra sair de casa e não chegar lá nem muito antes nem em cima da hora. Dormi só 4 horas essa noite de ansiedade e acordei às 11h, e enquanto comia meu cream cracker na tranquilidade de quem só embarca as 13:40, minha irmã chega alardeando: os índios fecharam a estrada pro aeroporto!!! Não tá passando ninguém!!! Ok, wtf? haha. Logo hoje? Entro na Tribuna do Norte. "Protesto indígena fecha acesso para o aeroporto e não há previsão de dispersão." Não sei o que seria mais em vão aqui: me perguntar qual a causa (já que os índios tem infinitas causas mais do que legítimas pra protestar) ou tentar incutir algum senso de urgência em Yuri, mas escolho inocentemente a segunda opção. Minha irmã terrorista me diz que vou perder o vôo porque já fiz o check-in (chequinho), e encontra na minha mãe um eco para a voz do desespero fatalista. Saio antes das 11:30, sem levar nem casaco (mas só vou lembrar disso quando estiver na ZN) tendo metade do meu guarda-roupa dedicado exclusivamente a esse tipo de vestimenta... ahauha, pra depois chegar no posto e esperar pelo menos uns 15 minutos pra ser atendida pelos caras porque "o sistema de cartão não tá funcionando" sendo que a gente ia pagar em dinheiro.

Strike 1: Bloqueio no aeroporto

Meu deus do céu. Será que depois de tudo que passei ano passado, de não ter férias, do estresse do mestrado, eu não mereço 4 dias em paz sem me preocupar com nada? Quando eu vou ter o direito de ser feliz etc? Chego na casa de Yuri e ele diz "desce aí, minha mãe vai levar a gente depois." A minha irmã já começa a gargalhar da minha cara sem nenhuma vergonha. Ahauhau será que eu deveria ter um pouco mais de fé e acreditar em karma? O que fiz pra merecer isso, etc. Quando finalmente consigo arrastar ele pra dentro do carro, seguimos viagem e quase chegando na ZN, Yuri diz (com a voz de quem diz bom dia assim que acorda num domingo qualquer): 
- Linda, preciso dizer uma coisa. Nossa reserva no hotel foi cancelada.
- Quê??? Como assim???!?!?!?
- Eles ligaram pra mim hoje de manhã dizendo que teve um problema no encanamento e dizendo que vão colocar a gente em outro hotel. 
- Que hotel, meu amor? Qual é o nome? Me diz aí pra eu pesquisar aqui as avaliações sobre ele!
- Não sei... esqueci.
- Tá bom lindo. Eu sinto muito, mas quando a gente voltar eu não quero mais namorar com você, tá bom? Você tá maluco. Como é que você não anota nem o nome do hotel em que a gente vai ficar, Yurileon? Pelo amor de deus eu não aguento mais namorar com um bebê gigante, uma criança que assume responsabilidade nenhuma e fica esperando por mim pra fazer tudo, blá blá blá...

Strike 2: Hotel

Reservei um hotel na Consolação, na rua Augusta. Perto de bares, restaurantes, padaria, xopem, tudo quanto se possa imaginar. Tudo bem, um hotelzinho razoavelmente pequeno, por um preço muito bom e várias reclamações sobre o barulho da rua e o funcionamento da água quente dos chuveiros, num pedaço totalmente pichado e sujo osso da Augusta, porém, estaríamos na Consolação e com café da manhã grátis (que era a única coisa que importava pra Yuri). O/a? Booking mandou um email (que se não tivesse ligado, eu aposto a minha vida que Yuri nunca teria lido) avisando que teríamos que ficar em outro hotel e sugeriu o Uniclass Hotel na República, como sendo um hotel parecido pelo mesmo preço. Tivemos que fazer reserva nesse novo hotel A CAMINHO DO AEROPORTO, com a minha mãe de má vontade pra emprestar o cartão de novo achando que iam cobrar duas vezes. Mas o mais importante disso tudo é que eu já tinha visto hotéis excelentes, bonitos, com um preço maravilhoso, banquete da manhã ao invés de café, amplos, várias estrelas, que não reservei justamente por esse detalhe: era na República. O bairro República é conhecido em São Paulo por ser extremamente perigoso, fazendo parte da área da Crackolândia. Vanny ficou lá e desaconselhou fortemente que eu ficasse também, mas a essa altura o que me restava fazer? Yuri quis ficar nesse mesmo e eu não tinha internet pra procurar outros, é isso aí, férias na crackolândia. Mas o fato de ficar nesse hotel ia mudar completamente minha visão sobre São Paulo e nossa viagem em si. #aprendizado

Strike 3: Kazakus

Esqueci meu casaco, segundo as previsoras do tempo profissionais minha mãe e minha irmã, em São Paulo vai chover granizo porque nessa época do ano "já é frio em Minas". Yuri aproveitou pra tirar bastante onda com a minha cara. Agora vou ter que gastar dinheiro com isso quando chegar lá e não é dessa vez que minha jaqueta chiquérrima de Gramado vai ter algum uso. Fak. Chegando no aeroporto, nada de protesto, índio, nada. Yuri diz "nunca acreditei nesse protesto", 1x0 pra ele. Com um pouco de vantagem (mas não muita), deu tempo de colocar uma meia calça e almoçar no Subway, enquanto eu tinha uma conversa séria (que teria ainda muitas outras vezes durante a viagem) com Yuri sobre como não vou me casar com ele porque ele não tem consideração por mim. KKKKKK Além disso recebi um strip forçado no banheiro do aeroporto, quando uma funcionária do Subway resolveu colocar a farda sem calcinha e depois ficar me encarando com uma expressão safada, só achei digno de nota mesmo hehe valha.

Strike 4: Cadeira do avião

Entrando no avião x 30 min depois. Companheirismo 0 haha

Eu e Yuri compramos a passagem muitos meses atrás, numa promoção em que a passagem de volta estava por 50 reais. Nossa viagem ia nos custar belíssimos 480 reais ida e volta sem taxas, o que se transformou em 600 e tanto com taxas. Yurileon não queria aquietar seus 1,92m num assento normal no avião durante 3 horas, então resolveu selecionar o ~~~~~assento conforto~~~~~ por 15 reais a mais, adicionando 30 reais ao precinho da nossa passagem, o que me gerou bastante desgosto e minha única saída foi transformar isso em meme, fazendo com que em todas as apostas que eu fizesse com ele dali pra frente, eu apostasse o dinheiro da minha poltrona já que eu tive que pagar R$ 30 a mais só pra sentar do lado dele. Depois de tantos meses reclamando disso, finalmente tive meu payback quando a gente chegou no avião e o braço da nossa poltrona não levantava ahuaha! finalmente 1x1 pra mim e ele desmoralizado. Ele logo desmaiou sentado mesmo e eu fiquei acordada torcendo pro tempo passar logo porque cada minuto passado era um minuto a menos em que o avião podia cair. Mas com o avião voando baixo num dia limpo e num horário tão agradável, coloquei um Rain Song do LedZ pra aproveitar a vista como faria numa viagem de ônibus, e logo percebi o tamanho do meu privilégio de estar ali voando, enquanto tantos outros estavam no chão naquele momento. O tamanho do meu privilégio de poder apreciar uma vista tão bonita num dia comercial, comum, enquanto tantos outros estavam em seus trabalhos, em suas rotinas. O tamanho do meu privilégio de poder brincar de tentar adivinhar que estado eu estava sobrevoando. 

Great day for flying! =)
Strike 4: Ônibus da GOL + crianças

Pra sair de Guarulhos, aeroporto que eu sempre escolho simplesmente porque tenho medo mesmo de Congonhas (aviões entre prédios, que deus defenda) pegamos o ônibus gratuito da Gol que vai de Guarulhos pra Congonhas. Ponto positivo: very comfy. Ponto negativo: o ônibus passou a uns 2km do nosso hotel, e seguiu em frente no seu caminho até Congonhas, que era tipo, o dobro do caminho, haha! Ou seje. Passamos duas horas dentro do ônibus, na hora do rush em SP, morrendo de fome, com crianças demônias gritando bem muito no nosso ouvido (notas sobre SP: os pais não colocam limite nas crianças) percorrendo o danado do dobro do caminho, porque o ônibus não para em lugar nenhum, que não seja nos aeroportos. Hehe ok.......... Bônus positivo: Outback a 2km de Congonhas



Strike 5: CHUVA

Finalmente chegando no hotel, caiu o mundo no caminho. No dia seguinte no noticiário: na madrugada de ontem choveu x mm em SP, mais do que a média do mês inteiro de abril... engarrafamentos de não sei quantos km, já durando não sei quantas [insira aqui quantidade absurda] horas. Marginal do Tietê e do rio não sei das quantas transbordam. Carros em desgraça total. What are the odds? Sério mesmo? Nessa hora eu comecei a pensar em tudo que tinha planejado fazer contando com o sol......... Além de tudo, a chuva do caralho caiu enquanto eu tomava banho, de noite, lavando o cabelo. Cada relâmpago que eu via pela janela era um pulo que eu dava, pensando ser meu último suspiro no chuveiro (caipira no Sudeste) e pensando se daria tempo de eu pular aquele batente gigante do box e fugir do choque [Yuri, enquanto tomava banho, NÃO PERCEBEU(!) as luzes dos relâmpagos hahuahauhauahauha]. Vale acrescentar que nesse momento percebi o valor de estar hospedada num hotel sem reclamações sobre a temperatura da água do chuveiro, pois se aquele chuveiro não tivesse aquecimento, seria IMPOSSÍVEL que a gente tomasse banho qualquer um dos dias. A água de SP é fria pra caralho, zuliv. Ponto pro azar! (Há males que vem pro bem) [continua]

No elevador pensando sobre chuva e quantidade de pedras que atirei na cruz

"A cidade de São Paulo registrou o dia mais chuvoso de abril dos últimos 23 anos, informou o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) nesta sexta-feira (7). Choveu 83,8% do esperado para todo o mês na quinta-feira (6). De acordo com o CGE, choveu de forma intermitente e em pontos isolados de São Paulo durante toda a quinta-feira e com mais intensidade a partir das 21 horas. Choveu 53,4 mm de chuva, 83,8% do esperado para o mês, que é 63,7 mm." [Fonte: G1]

Glass prison

"Crawling to my glass prison
A place where no one knows
My secret lonely world begins
So much safer here
A place where I can go
To forget about my daily sins"

Outro dia eu conversava com Gui e em um determinado momento ele disse "gosto de aprender, isso eu sei. Só não posso sair do ritmo". Eu não sei se adoro ou odeio o quanto isso funciona pra tudo. Não me lembro de nada que se pare de fazer e depois consiga retomar exatamente de onde parou, sem que antes haja um tipo de "aquecimento" até voltar ao normal. Academia, sexo, estudos, escrever, dirigir, desenhar, o que for. Se parar, fudeu, como diria Gui. 
Muitas vezes me dá vontade de vir aqui e escrever mas sempre penso: preciso fazer primeiro as coisas importantes. E acabo que não faço nada. Porque embora não importe num sentido darwiniano de sobrevivência e reprodução, isso aqui também é importante, é o que faz respirar meu espírito que cada vez mais me mostra que não posso ignorá-lo. Não posso tentar escondê-lo embaixo do tapete e "seguir" com minha vida de forma automática, pois ele não irá permitir. Eu preciso vir e divagar sobre o que não encontro lugar para discutir no mundo real. 

Ontem minha irmã me pediu para dormir com meu sobrinho porque ela ia deixar o namorado no aeroporto. Aproveitei que minha mãe tá viajando e levei ele pro quarto dela, onde ficamos assistindo X-Men até dormir. Eu não quis desligar a tv, fiquei com medo. Um quarto em que eu dormi por 18 anos, me sentindo segura porque meu pai dormia perto da porta, agora me faz ter medo de fantasmas. Quando dormi, sonhei que existia um segundo andar e numa escada que subia por dentro do guarda roupa dos meus pais morava um feiticeiro, mago negro, bruxo, não sei. Eu me assustava com os crânios dos sacríficios que encontrava dentro do guarda roupa deles que como uma continuação superior do dos meus pais. Eu ouvia dizer que a razão de todo o nosso azar e desgraças era a presença deles dois na nossa casa. O mago era como uma sombra em que eu só via a boca, uma figura como fumaça e escura, e do filho dele eu só via o cabelo preto, longo e cacheado (será que era o Pirula? haha) e eu precisava ir embora pro aeroporto porque estava indo pro Sul de novo com a minha mãe e ela já tinha ido, mas não conseguia chegar lá nunca e sempre acabava voltando lá pra cima e encontrando o filho do mago, que em dado momento me dizia que ia embora e eu ficava triste, dizia que ia sentir falta dele. Eu tinha a sensação de que ele não tinha culpa de nada, mas independentemente disso, o sonho fala metaforicamente sobre mim: eu odeio que as coisas mudem. Não quero que o feiticeiro vá embora, o filho dele é minha única companhia, não importa que faça mal e não me deixe ir pra lugar nenhum onde eu deva ir, me deixe presa. Não quero que as coisas mudem, nem a má sorte que é intrínseca do mago que me acompanha num andar fantasmagórico da minha casa. 
Eu pensava sobre isso ontem, antes de dormir. O quanto os meus ressentimentos com a vida tem sido sobre as mudanças que não consigo evitar, as coisas que desejava manter mas não consigo. A minha inabilidade em aceitar o devir, o fluir, o girar da roda da vida. Talvez por sempre achar que as coisas só tendem a piorar. Outro dia eu conversei com Vitória sobre passado e futuro e ela disse que acreditava que o futuro ia ser bom, pelo passado ter sido bom. Eu, por outro lado, estive sempre a romantizar o passado, a ser a epítome da nostalgia, e a achar que o presente e o futuro jamais serão tão bons quanto o que já se foi. Tenho sido um grande problema pra mim mesma, com esse pensar, com a tendência à depressão e à inércia, com minha dificuldade de me responsabilizar pelos meus problemas. De try harder, de me expor, de deixar a vida me estapear, de correr atrás do que quero. Eu não me entendo aqui, não entendo o que me falta. Me viciei em café e tento combater a adicção através da abstinência. Mas se não tomo café, logo volto pra cama, várias vezes durante o dia, sem forças pra fazer nada. Parece que passei uma vida inteira agindo dessa forma. Como quem está sempre cansado, ou a quem falta algo que seja o motivo da ação. I wanted to be fresh, but i feel so heavy.