quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

15/12/16

Uma das minhas partes preferidas de férias/final de ano é a hora de jogar as coisas fora.

Se tem uma das poucas coisas que acredito é que a energia fica estagnada nas coisas que não mexemos e vamos entulhando e transformando nossas vidas numa bagunça pouco prática por querermos manter conosco coisas demais, coisas das quais não vamos nunca mais precisar. Quando eu era criança a minha mãe dizia "vamos dar espaço pro novo" e aí a gente ficava jogando fora tudo que estava velho, inútil ou ultrapassado. Eu adoro a hora de jogar as coisas fora. É como um ritual. Você relembra do passado, se despede e deixa ele ir embora. Adoro tirar um tempo pra fazer isso, pra doar roupas, pra jogar fora as pastas e pastas de xérox da faculdade que não li e nem vou ler. Quando mexo nas minhas coisas sempre descubro de detalhes que não lembrava mais, me revejo, reconheço o que me constitui. 

A vida parece ser um equilíbrio entre jogar fora e colocar coisas no lugar. 

Bout work

Viver é um processo interessante.

Por que será que com o tempo se torna tão difícil admitir o que realmente sentimos?
Ultimamente eu tenho me sentido angustiada e sem direção. 

Meus amigos têm estado cada vez mais distantes. Eu não escrevo mais. Outro dia tentei desenhar e não consegui. Tenho ficado doente constantemente. Na verdade, nos últimos três ou quatro meses tive doenças relacionadas a condições respiratórias (uma tosse desgraçada e horrível) que nas minhas duas últimas idas ao hospital foram diagnosticadas como "sinusite" sem um exame mais cuidadoso, o que acabou por me desmotivar a ir dessa vez e apelar direto pros corticoides. Constantemente tenho a impressão que tenho quedas no meu sistema imunológico por causa do estresse intenso do trabalho. Por passar semanas dormindo menos do que cinco horas por dia, por não conseguir comer direito. Por viver orbitando entre os extremos da procrastinação e o mergulho profundo no projeto. Nesse momento não consigo fazer nada de útil. Sinto que estou jogando fora o meu tempo de vida. Não consigo estudar, não consigo fazer o que gosto de fazer.
Escrever uma dissertação, uma qualificação, montar um projeto tem sido um processo que fala sobre mim o tempo todo. Quando me engajei na Psicobiologia, achei que iria me aproximar cada vez mais de um entendimento verdadeiro do funcionamento do comportamento humano, do mundo natural, algo para além de uma teoria imaginária, abstrata, pessoal, parcial, mas com evidências físicas, conforme o método científico: universais, replicáveis. Leis. Verdades seguras. Mas tenho dado de cara comigo o tempo todo; tenho dado de cara com os meus medos. Me pergunto se é isso que no fundo torna fazer um mestrado difícil.
Às vezes eu me imagino com uma carreira à frente cheia de responsabilidades e dores de cabeça. Cheia de sacrifícios e "trade-offs", como eu diria na minha dissertação. Como membra do colegiado, tenho observado que o fazer ciência de hoje nada tem a ver com o fazer ciência que idealizei. Eu vejo um caminho cheio de espinhos. Um mundo competitivo e que parece não ter lugar para mim. E então eu me imagino pendurada pelo pescoço numa corda. Me imagino com artérias cortadas. Me imagino com um cano na boca. Me imagino me perdendo dentro do mar. Algumas pessoas me acusariam de fraqueza. Na mesma proporção existiriam outras que diriam justamente o oposto. Eu não poderia me decidir.
Vejo tantos dos meus colegas, especialmente os mais jovens, ou pelo menos os com cabeças de jovens, terminando a faculdade e entrando em outra. Isso sempre faz eu me perguntar se a intenção deles não é adiar sentir o que tenho sentido. O peso das responsabilidades, de trilhar um caminho sozinho, de estar por conta própria. Me pergunto se não é uma tentativa de prolongar todas as coisas boas as quais a graduação parece nos trazer. O aconchego de estar na casa dos pais, na posição de estudantes, sem responsabilidades financeiras ou para com outras pessoas. Saber que nada sério será culpa nossa ou atribuído a nós. O sucesso ou fracasso traduzido como nada mais do que um número no papel, sem impacto social nenhum. A convivência com pessoas novas. Novos desafios estilo mais do mesmo: de novo a nível de graduação, algo que essas pessoas já viveram e já sabem como é, apenas com uma configuração diferente. O tempo livre, a Spotted, as festas, as drogas, as séries, as amizades, as preocupações indiretas com o sucesso reprodutivo (garantir parceiros, haha) quase como prioridade. O medo de se responsabilizar por algo ou encarar a dureza do mundo fora dos muros verdejantes da universidade.
Por outro lado, eu me pergunto também o quanto da minha visão é preconceito, projeção ou identificação, ressentimento ou desprezo. Eu tenho me conhecido na condição de um ser ansioso, preocupado, inseguro. Tenho me encontrado em condições de incerteza, medo, vulnerabilidade, exposição ao fracasso iminente. Tenho aprendido como é contar só comigo pra organizar algo, pra fazer algo. Algo que ninguém mais pode fazer por mim. E com o tempo parece que vai se desenhando na minha cabeça um entendimento do conceito de ser adulto. É como se ser adulto fosse estar frequentemente fazendo coisas que ninguém mais pode fazer no seu lugar. É como se ser adulto fosse não poder pedir ajuda sempre que gostaria pra fazer alguma coisa, porque é esperado de você que você seja capaz de fazer sozinho. Ser adulto é dar a cara a tapa. É arriscar ouvir coisas que vão te ferir e conseguir suportar, conseguir entender, conseguir desenvolver algo a partir dali. Ser adulto é não ter uma mão na qual segurar, uma voz pra te indicar o melhor caminho. Ser adulto é observar o silêncio do cômodo vazio de madrugada enquanto tenta chegar a alguma conclusão sobre qualquer coisa aparentemente séria. É saber descontar o futuro do presente. É ter que ouvir um "não" de si mesmo repetidas vezes. É se dar conta cada vez mais de possuir em mãos uma vida inteira a ser conduzida. É esquecer a maior parte do tempo da sua condição de primata. É não poder mais olhar o pôr do sol o tanto quanto gostaria. É não conseguir manter a coesão de um texto, e ter que aprender a lidar com isso.