quarta-feira, 16 de agosto de 2017

[mais um texto sem propósito porque eu esqueci qual era antes mesmo de começar]

Hoje eu voltei pra casa de ônibus, 19:30, dormindo na janela. Esses dias eu tenho estado muito cansada, e sei que é por causa da coleta dos dados.

Eu deveria começar a estudar personalidade pra encontrar algumas respostas. Será que existem coisas nas pessoas que é da natureza delas? Eu acredito que sim. Os traços de personalidade são exatamente isso. Algo da sua natureza que você não pode mudar mesmo que se esforce muito. Por exemplo, eu tenho muita empatia e por isso acabo sendo pouco maquiavélica, já Keila é o contrário, o maquiavelismo pesa mais que a empatia (e ela se julga uma má pessoa por isso. Eu considero apenas diferenças individuais). 

O ponto onde quero chegar é que sou uma pessoa introvertida. Isso fica cada vez mais claro a cada dia que trabalho em contato direto com pessoas, especialmente desconhecidos. Parece que eu chego em casa completamente drenada como se alguém tivesse sugado a energia de cada célula. Na verdade é porque é muito desgastante pra mim lidar com pessoas por muitas horas. Não é que eu não goste delas ou goste de ficar sozinha. Mas eu PRECISO ficar sozinha algumas horas por dia pra recarregar as baterias. Na verdade eu até gostaria de ser diferente, gostaria de ser aquela pessoa que se recarrega nos encontros, mas vejo que isso é algo que está fora do meu domínio de ser mudado completamente. Isso é um pouco diferente quando estou com amigos próximos, porque rola uma renovação. Eu acho que é porque eu tenho um desejo muito forte de agradar e por causa disso eu acabo usando minhas habilidades cognitivas ao máximo tentando dar respostas rápidas, sendo engraçada, agradável, paciente, segura, inteligente... já com os amigos que sinto que já gostam de mim pelo que sou posso agir naturalmente e é por isso que não fico tão cansada.

Eu já tenho 107 sujeitos. Dizem que é um número impressionante pra só uma semana e meia. Só que eu já tô farta de fazer isso (kkkk) e pra validar todos os meus questionários preciso de 180. 180 sujeitos de qualquer orientação sexual/nível socioeconômico/cidade de origem, e preciso de 130 estritamente héteros e natalenses, ou ao menos norte rio-grandenses (vamos deliberar sobre isso). Mesmo Keila que tá me ajudando (em troca de metade do valor da bolsa de IC) e coletando só 50 sujeitos sempre que tem oportunidade reclama que é algo chato de fazer. Que as pessoas dizem não ou não sabem responder, dão trabalho, perguntam se é o Enem e etc. É um trabalhinho meio ingrato mesmo... 

São 3h da manhã e eu deveria estar dormindo pra acordar cedo e organizar bem o meu dia amanhã. Só que eu cheguei em casa e desmaiei completamente até as 22:30. Ugh...

Ontem aproveitei que estava pela graminha em C&T, e passei o questionário pra uma menina fazer. O nome dela era Gabi, ela tinha 20 anos e já tinha uma filhinha, chamada Lua (só Lua mesmo, achei top). A gente conversou bastante (isso significa, eu sentei e ouvi ela falar. Assim como tenho feito com todo mundo o tempo todo) e em dado momento ela me disse que eu tinha que acordar cedo pra ter energia, disposição e essas coisas todas. Engraçado. I get that a lot. E eu nunca digo que paguei uma disciplina de 60h chamada "Cronobiologia aplicada à saúde" que era sobre ritmos biológicos e a maior parte dela sobre SONO, falando também, claro, sobre outros processos circadianos, infradianos... nunca digo também que o professor passou um questionário validado pra gente descobrir nossos biotipos e o resultado do meu foi que era o biotipo mais problemático, vespertino bimodal. Nunca digo que se eu dormir antes de meia noite, eu acordo várias vezes antes da hora, e em algumas das vezes eu passo mais de uma hora acordada antes de conseguir dormir de novo. Eu concordo que dormir cedo é melhor pra todo mundo (todos os biotipos), que se descansa melhor porque é o horário adequado, especialmente por conta do silêncio e ausência de luz durante a madrugada, mas infelizmente não é tão simples assim pra algumas pessoas, como eu. Ela chegou a dizer que eu deveria acordar as 4h e dormir as 8 da noite, e eu achei engraçado sobre o quanto as pessoas podem te dizer o que fazer com sua vida sem saberem nada sobre você além do seu primeiro nome, haha. Até aí tudo bem, mas quando ela começou a falar que a gente evitasse ter filho cedo mas que na hora que DEUS QUER a gente iria ter de qualquer jeito e não poderia evitar (como ela, porque Deus quis), parei de ouvir e fui conversar com Theu, alguém de quem morro de saudades da época de que era meu melhor amigo e que sinto que tá precisando um pouco de cuidado, e queria poder oferecer isso muito mais... enfim. 

Hoje achei Willianilson nos banquinhos fumando e chamei ele pra participar da minha pesquisa também. Eu fui me preparando pro pior porque nunca tive paciência pra ele, porque ele fala demais e se gaba demais, mas me surpreendi. Hoje achei estranhamente agradável conversar com ele. Deve ser porque me acostumei de verdade a ouvir muito, muito mais do que falar. Tem vezes que sinto até que não tenho mais o que falar mesmo, porque depois de 1h falando ele perguntou "e você, como tá?" (fiquei chocada) e eu nem soube o que dizer pra ele.

A coleta apesar de cansativa tem me ensinado muito sobre as pessoas. Sobre os hábitos, as necessidades, a pesquisa em si. Percebi que passar um questionário "grande" - que na verdade é pequeno comparado aos questionários "psicológicos" mesmo, que costumam ter mais de 100 itens - é problemático porque as pessoas não tem tempo pra pensar, na verdade não querem perder muito tempo, e aí respondem sem refletir, respondem sem entender direito a pergunta, respondem ser ler os enunciados, respondem pra me impressionar, respondem desconfiando de mim, de que o anonimato realmente é anonimato, respondem "não sei" pra tudo... a pesquisa em comportamento humano tem MUITO a se inovar com métodos. Quer dizer, precisamos pensar em métodos que possam capturar a essência dos comportamentos sem perguntar isso pras pessoas, porque a partir do momento em que elas puderem abrir a boca pra se expressar, elas vão mentir. Elas vão bloquear o que realmente sentem. Elas vão ficar tentando antecipar o que pensaremos delas ao ler suas respostas. A maior crítica a nossa área é justamente que usamos questionários e amostras universitárias e é pertinente demais, agora vejo com meus próprios olhos. 

A maior parte das pessoas precisa muito comunicar sobre si. A maior parte das pessoas quer muito ser ouvida. A maior parte das pessoas gostaria de receber o resultado do seu questionário como se fosse horóscopo, sendo que vou analisar a média da população. Arrisco dizer que a maior parte das pessoas não quer ouvir em troca também. Tenho percebido isso de todos os lados e só recentemente aprendi a me calar. Antes eu ficava chateada e saía logo de perto se eu estivesse num lugar onde alguém fala demais e não me deixa dizer nada. Agora aprendi a tolerar, e mais do que isso, ouvir mesmo. Percebi que no silêncio tem muito de maturidade. É como se algo de que você tem necessidade já tivesse sido preenchido por você mesmo. A partir daí você abre um espaço dentro de si onde cabem os outros e o que eles precisam...

A maior parte das pessoas também se constrange de alguma forma das suas necessidades. Muitas pessoas precisam se gabar da sua "independência", ou se reafirmar sobre outras coisas... aprendi sobre isso no quora digest e a vida me dá demonstrações confirmatórias o tempo todo. Lá alguém dizia, numa postagem sobre manipulação "The shy are dying for attention, people who point their thumbs to the chest are the biggest cowards", etc... é um pouco divertido observar o quanto tentamos encriptar o que realmente precisamos ou pensamos pra transformar em algo bem visto socialmente. Essas coisas me lembram dos narcisistas que conheci, que eram as pessoas com os egos mais frágeis e machucados que já vi também. Por isso toda aquela auto-afirmação, vanglória, blindagem contra críticas... eu penso sobre esses paradoxos e nossa necessidade tão forte de aceitação social e isso me mostra a importância de estudar evolução cultural ou no mínimo evolução gene-cultura e o quanto isso é crucial pra o estudo do comportamento humano. Mas meu tempo acabou de novo... então até a próxima brecha. :)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Voltei aqui e notei que não escrevo há quase um mês.
Acabei de ter um insight (epifania?) e achei que vale a pena registrar aqui.

Eu estava assistindo um vídeo sobre binge eating (algo como comer compulsivamente) e em certo ponto a moça diz mais ou menos assim: "o primeiro passo pra deixar de comer compulsivamente é entender que o seu corpo não é seu inimigo, mas quer o seu bem, quer que você sobreviva. Se você não come o que precisa, ou calorias o suficiente, ele tenta te proteger economizando ao máximo e acumulando gordura. Ele não faz por mal ou porque não quer cooperar, mas porque entende que aquilo é o melhor que pode fazer pra te proteger." Derramei algumas lágrimas ouvindo isso, porque eu já perdi a conta de quanto tempo faz que odeio meu corpo, que o vejo como um inimigo que preciso lutar contra a cada minuto, porque ele parece não querer contribuir de jeito nenhum pra ser como eu gostaria que ele fosse. 

Recentemente, engordei uns 3 kg. Parece pouco, mas pra voltar pro maior peso que já pesei, faltam só mais 4. Parei pra pensar o que eu fiz meu corpo passar ultimamente. Saí de casa, larguei a academia que estava indo muito bem. Durante o tempo que estive fora morando com Vanny, voltei a fumar com toda a força, chegando a uma carteira por dia, dependendo do dia. Como eu não tinha dinheiro e muito menos paciência pra cozinhar, já que lá não tinha armários pra guardar as coisas, panos de prato, alguns tipos de prato, escorredor, tupperwares, temperos, etc. e isso simplesmente dificultava tudo e me deixava com uma preguiça imensa. Então eu larguei minha alimentação predominantemente saudável pra viver de sanduíche cheio de molho, que o pai de Vanny dava de graça porque era dono de uma lanchonete lá perto. Além disso, passei por muito estresse nesse tempo, tanto com a minha família, como de aceitar muitas coisas que Vanny fazia que me incomodavam mas que eu sentia que não tinha direito de dizer nada sobre aquilo, fora a parte de não ter dinheiro, ficar ilhada lá no centro por falta de carona e o perigo de ir e vir de noite por lá, Yuri longe e em outro fuso horário, enfim...
O estresse que passei nesse tempo, somando ao de voltar pra casa e dar conta da pesquisa foi tão forte que atrasou minha menstruação, jogou meu ciclo pra quase 50 dias, e quando menstruei foram míseros 3 dias com uma cólica do demônio, o que é completamente atípico pra mim que menstruo geralmente quase 7 dias completos e com pouca dor.

Depois desse estresse físico e psicológico que infligi no meu corpo, voltei pra casa e finalmente pude voltar a comer basicamente plantas na maior parte do tempo. Aí veio a parte II, semana passada: começaram as coletas, e o meu co-orientador começou a "exigir" um monte de coisas que me tiravam da zona de conforto: que eu estivesse no CB todos os dias desde as 8 e cumprisse certinho a jornada de trabalho (8h/dia), passasse nas turmas pra chamar os sujeitos, abordasse um número enorme de pessoas sozinha pela universidade, mandasse e-mails pra base chamando o povo pra participar, além de que eu não tinha exatamente um horário de almoço, o meu almoço consistia em comprar algo na cantina correndo e comer enquanto subia as escadas. Durante a semana eu dormi no máximo 4 horas de um dia pro outro, porque todos os dias antes de dormir ficava pensando em como dia seguinte ia ser difícil e que eu não queria que ele chegasse logo. Também fiquei com muita raiva/ressentimento do meu orientador por ficar o tempo todo bossing me around pra fazer coisas que eu não me sentia pronta pra fazer, mesmo com a minha voz da razão dentro da cabeça repetindo que ele estava certo e eu é que estava errada. Mesmo me sacrificando passando fome notei que fui ficando cada vez mais inchada e ganhando peso. E então cheguei no vídeo de hoje e na conclusão que eu quero tirar aqui.

O que é que falta na minha vida? O que é que sempre me faltou? 
Duas coisas: paciência e fé.

Paciência... a essência da sabedoria. Já parou pra pensar nisso, leitor? Repare nos contos e histórias onde tem alguém denominado "sábio" e observe se a característica chave dessa pessoa é a paciência. 
Sempre que eu começo a fazer algo, quero ver o resultado imediatamente. E aí entro em ciclos. Primeiro eu faço um esforço... por exemplo. Passo um dia comendo só comida natural, abrindo mão dos vícios. Se no dia seguinte não vejo resultado na balança, imediatamente fico frustrada e com raiva e concluo logo que se é pra dar no mesmo, não vale a pena fazer o esforço, e aí volto a comer o que não devia. Ou então vou na academia e preciso ver imediatamente o músculo crescer, ou não quero mais fazer o exercício. Ou nas coletas, eu idealizo que a cada dia DEVE ficar mais fácil, e se não fica mais fácil de um dia pro outro, eu sou um fracasso absoluto e me odeio e nunca vou conseguir exercer essa profissão. Se eu tento dormir mais cedo e não consigo, de primeira, já fico absurdamente ansiosa e antecipando que nunca vai dar certo, que nunca vou poder viver como uma "pessoa normal" etc. Isso vale pra absolutamente tudo que eu tenha tentado mudar. A minha vida é um misto de compulsão e impulsividade. As coisas dão errado em cadeia, num efeito dominó. Só que agora entendi que tudo isso acontece simplesmente porque não tenho paciência.

Quando eu era criança, eu não comia. Nada. Não bebia água também. Vivia com infecção urinária e beirando a inanição segundo os pediatras. Depois, na adolescência, comecei a comer um monte de porcaria e o metabolismo segurou por um tempo, até que comecei a engordar. Durante quase 22 anos da minha vida, eu comi mal, tive taxas horríveis nos exames de sangue, envenenei meu corpo. É claro que só em 2 anos ele não vai se recuperar, depois de duas décadas de maus tratos. Pensando numa linha do tempo, comecei a comer bem ontem! Pensando numa linha do tempo, comecei a cuidar de mim mesma ontem. É claro que leva tempo pra que tudo fique bem. E cuidado. E fé que realmente um dia as coisas podem ficar bem. Fé que certas coisas são sequer possíveis! Paciência pra mudar lentamente e valorizar as pequenas vitórias. Eu não tenho muito mais tempo pra desenvolver e isso é o que tem pra hoje (infelizmente :\). Espero encontrar espaço pra voltar mais por aqui, enquanto conseguir ir fazendo as coisas certas e com calma. Apesar de tudo eu tenho estado bem na maior parte do tempo. Sem tempo, ocupada, cansada, dormindo muito (no tempo livre), mas bem, cumprindo deveres, crescendo, aprendendo... espero ter tempo pra falar sobre isso logo logo. =)












sexta-feira, 21 de julho de 2017

Rainy day.

Hoje aconteceram várias coisas. Mostly bad things. 
Tô morando com Vanessa faz 2 dias.
Hoje minha irmã mandou um whats dizendo pra ir pra casa, porque minha tia Leda morreu.
Primeiro o tio Roberto, irmão de vovó. Uns 2 anos depois (ou menos), minha avó paterna também morreu. Um ou dois anos depois, o filho mais velho dela, tio Wellington. Dois anos depois (ou menos?) meu pai. Hoje faz 1 ano e 10 dias que meu pai morreu, e agora morreu a minha tia. Minha avó teve 13 filhos. Todos "criados" como se diz no interior. Morreram depois dos 60. Agora são 10. 
Eu lembro de me dar conta que eles estavam perto de morrer, uns 5 natais atrás. Lembro de olhar em volta e observar como todos já estavam tão velhos e completamente diferentes das memórias da minha infância.
Eu não vi meu pai envelhecendo. Num dia ele tinha cabelo e bigode preto, no outro dia era cinza e ele não tinha mais 1,80m, ele não parecia mais tão maior que eu. Do lado dele eu já estava quase da mesma altura, e eu não cresci. Ele se curvou. Na verdade, o tempo curvou ele.
Voltei pra casa pra ir pro velório. Ninguém me disse nada, do que ela morreu, o horário, nada. Cheguei e minha irmã estava sozinha (com meu sobrinho). Começou a gritar sobre como eu vou matar minha mãe porque saí de casa (pff....), a discussão foi escalating quickly, não levei desaforo pra casa, gritei de volta. Um show de berros. Ela começou a gritar que eu sou louca. Larguei meu notebook e voei em cima dela, puxei o cabelo dela, agarrei o pescoço dela. Coitado do meu sobrinho, nunca tinha visto essas coisas... tudo bem. Eu vi tanto e sobrevivi. Ela disse que ia me internar no hospício, que ia chamar isso, aquilo, ia chamar "o meu irmão pra ele me controlar". Eu disse chame mesmo, pode chamar. O meu sobrinho gritou NÃO!!!!! kkkkkkk. Não entende que adultos blefam.
Fui tomar banho chorando, pensando em escrever pra minha mãe. Sobre tudo. Os pensamentos suicidas, a depressão, a ansiedade, e o que pensei sobre ser parecida com meu pai que era extremamente depressivo. Meu irmão chegou em casa, eu soluçando no quarto escrevendo, minha irmã no telefone rindo. Ele veio me abraçar e disse que não ligue pra ela, você não sabe que sua irmã é assim? ... etc. Cansei de aceitar isso, cansei de "você não sabe que fulano é assim?". Lembrei do texto que Vitória postou dizendo que pregar que a pessoa deve "oferecer a outra face" é interesse de quem tem o poder. Eu não me senti em casa lá. Engraçado. Em Petrópolis tenho tido problema com a bagunça e o gato de Vanny que mia a noite inteira quando ela sai, mija tudo etc. Mas assim que eu cheguei na casa da minha mãe, eu quis voltar pra lá. Minha mãe veio conversar. Disse que "eu estou exagerando" por reagir assim (ir embora) aos desaforos dela. Que ela reclama e enche o saco e pasme,.... eu não sei que ela é assim mesmo? Assim mesmo. ... E tem alguém pra passar a mão na minha cabeça e dizer que eu sou "assim mesmo"? Not really
Eu cortei a mão no aparelho da minha irmã e machuquei forte a lateral da mão e uma parte dos tendões do dedo mindinho e anelar. Mal consigo digitar. Maldita seja. Eu nunca fui muito família. Nunca fui, que família? Nós sempre fomos uma república. Pra que fingir, diria Cazuza.
Não queria ir pra missa amanhã. O enterro. Pobre tia Leda e primo Marcelo. Ela morreu do nada... como todo mundo na família do meu pai. Ela era uma boa pessoa. Doce como o primeiro nome dela (Dulce) sugeria. Carinhosa, gentil, tranquila, crafty. Me ensinou a fazer biscuit e ponto cruz. Ela sabia que eu adorava natal e sempre me dava muitos enfeites que ela mesma fazia pra colocar lá em casa, e eram perfeitamente lindos, como os de editorial de revista mesmo. Ela nunca foi má ou escrota como a tia Neide, hehe. Bem... eu sei que se eu for amanhã vou chorar e ficar triste. É triste, um clima triste. Essa chuva, mais um enterro... eu me sinto sem tempo pra luto e tristeza. Time is running out... eu preciso trabalhar, estudar, arrumar um emprego, me sustentar, fazer o cartão do RU, passar o pano na casa... começar a coleta, responder o cara lá de NY...fico listando mentalmente. Olhar tela de proteção. Quanto é a internet a Cabo? (dica: é caro...) 
Minha irmã disse que já saiu de casa com 4 mil reais e quando viu as contas blá blá. Estou te dando um conselho de irmã mais velha (dizia ela, segurando os meus dois pulsos, sem eu ter tocado nela, depois que saí do banho.. a toalha caindo, meu sobrinho olhando) você não tem onde cair morta, etc.. quis vomitar na cara dela. A mãe de Yuri não poderia nem sonhar em ganhar 4 mil reais por mês. Tanta gente se sustentando com poucos salários mínimos, criando filho, dando nó em pingo d'água igual Marié. Ela gritou que sou rica, mimada, rica... eu não diria uma coisa tão nojenta quanto "4 mil reais por mês não dá pra pagar as contas". Isso é ridículo. Piranha riquinha dondoca. Só sabe se olhar no espelho e procurar ruga e tratamento de botox, plástica, peeling, esperar o macho da vez pedir em casamento, fofocar no telefone com as amigas, a minha mãe diz "quando sua irmã vai cair na real e deixar de ser adolescente? ela tem 34 anos e um filho que teoricamente ela deveria criar". Mãe, meu palpite é que nunca. 
Quando eu cheguei em Vanny eu limpei minha privada do meu banheiro. Nunca limpei uma privada. Eu tenho 24 anos... Yuri ficou indignado quando eu disse que nunca passei uma roupa. Odeio isso, odeio ser assim, odeio viver numa bolha, odeio não ter autonomia e responsabilidade, odeio como minha mãe não deixa meus irmãos aprenderem a se virar pra usar a dependência deles pra nunca ficar sozinha. 

Hoje o bb chegou depois de 3 semanas fora. Eu não sabia muito bem o que esperar, porque comigo é out of sight, out of mind. Cheguei num ponto em que pensei que ele poderia ficar lá e eu estaria bem. Me virando, cheia de problemas, mas bem, normal... talvez indiferente. Eu me tornei uma pessoa fria, do ano passado pra cá... mas também me arranjei um monte de problemas e passei todo o tempo que pude com minhas amigas e acho que isso ajudou a me deixar assim tão tranquila em relação a isso. Ele tá dormindo aqui, na cama dele. Agora eu gosto mais daqui (da casa dele). Yuri voltou muito carinhoso e carente. Acordou e disse que sonhou comigo, e voltou a dormir. Eu achei que iria sofrer mais que ele, porque ele estaria na Europa se divertindo e eu aqui na mesmice, obrigações, problemas. Mas ele sentiu mais, sofreu mais... I have grown colder. A vida não me choca nem surpreende. Quando lembro de Gui dizendo que na maior parte do tempo não sente nada, cada vez me identifico mais...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu sei que você não lê aqui, mesmo daí, mesmo de longe, ou mesmo quando você voltar. Mas o que se repete muito na cabeça pede pra sair da abstração, de onde não se sabe onde fica, pra se tornar material, existir no mundo de forma concreta, física. 

Hey bb,
How you doing? São 5:49 da manhã e eu perdi o controle da minha vida de novo, como sempre.
Logan tá dormindo aqui na cama e quando passo a mão na cabecinha dele, ele me responde apropriadamente com um prrrr prr. Será que você vai chegar aqui e dizer "que gato é esse?", como costuma fazer, porque ele cresceu? Eu nem percebo mais que ele tá ficando maior. Só reparo que agora as patinhas dele são enormes e a "luvinha" branca tá aumentando.

Sabe, lindo. Escrevi pra você ontem, mas não publiquei aqui. Lembra daquele dia que eu voltei do banho e comecei a escrever, mas aí parei e disse "eu nunca mais vou continuar esse texto", e você me perguntou por que e respondi que simplesmente se eu parasse de escrever um texto no meio, nunca retomava. Aquele era sobre saudade. Nunca retomei. O blog é cheio de rascunhos, a parte secreta dele. Rascunhos em que escrevo o que eu não quero que seja lido, ou lembrado. Ou simplesmente que achei que não estava bom o suficiente pra publicar, ou parei na metade.
Outro dia Vitória tava me contando que uma pedra (gema) era mais cara o quanto mais sua cor no meio fosse uniforme. Significava que ela foi muito lapidada. Uma pedra mais "suja" e com mais cores e desenhos é menos nobre. Os textos não publicados são a gema impura, que não foi muito lapidada, ou que simplesmente era de um pedaço mais  externo da pedra. 
Olha que interessante, o texto de ontem também era um pouco sobre saudade. Vou reproduzir umas partes dele aqui, e outras não. Tentar seguir com o processo de lapidação.

Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave, but don't leave me
Look around, choose your own ground
For long you live and high you fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
It's all your life will ever be

É um pouco mais de 1h do dia 13/07, aqui em Natal. Aí onde você tá são 6h, segundo o Google. O país com o nome que pra mim é a palavra mais bonita em alemão: Österreich (se lê 'êsterraish', Áustria em português). Todos os dias você me pergunta se estou com saudades. Sabe, pra falar a verdade eu ainda não tinha sentido tanto assim, até ontem de noite. Quando parei pra pensar.

Um dia você tava dirigindo no caminho pra sua casa, e você comentou sobre Time, do Pink Floyd. Eu falei que nunca ouvia essa música, porque a única que ouvia do Dark Side of the Moon era Money. Você ficou indignado e disse que a gente iria escutar assim que chegasse. Quando você colocou ela, reconheci um trecho que já havia visto escrito em algum lugar, mas não sabia de qual música era:

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire

Gostei da melodia dela, apesar que não dei muita importância. Ela ficou na minha cabeça. Semana passada eu tava lavando louça e ouvindo música e começou a melodia de Time, mas a introdução da música era diferente. Então o Waters começou a dizer breathe, breathe in the air... era outra música. E ouvindo ela entendi como Time era linda. Era uma continuação de Breathe, e elas eram uma coisa só junto com The Great Gig in the Sky. E olha só a letra dela... eu diria que algumas coisas parecem vir no momento certo nas nossas vidas. Você responderia que estou sendo incoerente, haha.
Faz uma semana que você foi embora. Left, but didn't left me. Você me diz que quando voltar vamos direto pro cinema assistir Planeta dos Macacos. Você diz "um estranho, veio de fora..." pra me dar a dica que comprou um alienzinho do Toy Story pra mim. Você tem razão, lindo, eu reclamo demais. Você tem razão, lindo, eu sou como sua vó que não acredita no que você diz! kkkk. Eu deveria confiar mais no seu julgamento. Confiar mais em você, seguir mais o que você diz, levar você mais a sério. Você tem razão quando diz que não dou valor ao que você faz por mim. E agora de longe eu consigo ver melhor, entender melhor. De alguma forma entrou na minha cabeça, eu me fiz ou fui feita acreditar que amar era expressar com palavras. Era criar situações românticas com silêncios, momentos memoráveis, misteriosos, era saber fazer o uso adequado e certeiro da linguagem. Lembro de um dia ter dito pra você que você não é romântico! Você poderia elegantemente ter me respondido

"Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain, so does the pain
Words are meaningless, and forgettable"
Amar não é dizer que ama. Não é criar situações de caso pensado, usar estratégias e fórmulas genéricas que funcionariam com qualquer pessoa. Amar é ver o alien de Toy Story na loja de brinquedo em Londres e lembrar que sua namorada sabe todas as falas dele no filme. Amar é prometer uma ida ao cinema quando chegar, o que deixa implícito: está tudo bem entre nós, não me apaixonei por nenhuma europeia! Quando voltar, veremos nossa sequência de filmes preferida no cinema. Amar é dizer que ama pela primeira vez no meio de uma briga, ou no meio de outra, com voz relutante e envergonhada "não vá embora, agora eu sei que é com você que quero passar o resto da minha vida!". Amar é caótico, é bagunçado, cru, não é perfeito, limpo, organizado, não segue roteiro, não é como no cinema (apesar de que tem trilha sonora!), não tem uma fórmula, não existe critérios a serem cumpridos, como no manual dos transtornos mentais, em que pra poder rotular alguém com um determinado transtorno basta que a pessoa tenha apresentado cinco dos dez critérios nos últimos seis meses. Eu sempre pensei que os relacionamentos começavam como vasos muito bonitos e intactos e que com a medida do tempo iam caindo e criando cicatrizes irreparáveis, e que na primeira cicatriz já valia a pena desistir, porque não era mais perfeito. Que ideia!

Agora que você tá aí e eu aqui, estou finalmente tendo a experiência de ficar sozinha. Eu sempre busquei a todo custo nunca ter que suportar a minha própria companhia. Sempre tive alguém em quem pensar, ou com quem contar. E agora eu tô vivendo sem te consultar, tomando minhas próprias decisões. Outro dia minhas músicas no celular simplesmente sumiram! Quase te contei, mas aí pensei "posso resolver isso". Apareceram problemas, dilemas, tomei decisões, descobri meu caminho sem perguntar pra ninguém! Muitas vezes eu comecei a te escrever no whats e apaguei ao invés de enviar. Estou aprendendo a não te contar cada passo, cada pensamento, cada emoção. Aprendendo a não descarregar tudo em cima de você. Aprendendo a dormir sozinha (com Logan hehe). Eu percebi, por exemplo, que muitas vezes fico triste e você não dá importância e isso me chateia. Mas que minhas tristezas vão embora tão rápido quanto chegam. Talvez seja por isso que você não se preocupa muito. Agora eu penso "tudo bem, vai passar!" e percebo o quanto minhas emoções variam rápido. Eu não preciso falar o tempo todo sobre elas. Se você visse o quanto cresci, o quanto cresci do ano passado pra cá... e muita coisa foi por sua causa, sabia? 

Ano passado eu e Vitória conversamos algumas vezes sobre a definição de amor, se o amor real é o que faz sofrer, ou o que só faz bem. Eu não posso definir o que é amor e o que não, mas posso definir uma coisa. Um amor bom é aquele que nos permite amar a nós mesmos, enquanto amamos o outro. E você não é egoísta, você me dá espaço pra que eu também me ame, você não monopoliza o meu amor todo pra si. Pra te amar não precisa estar de joelhos. É por isso que eu cresço perto de você. 
Eu sempre acreditei no jeito de saber pelo caminho letrado, culto, filosófico, reflexivo, complexo. A sua sabedoria não vem de livro, é simples, é experiência. Você é meu simple kind of man. Você é something you love and understand. Você é sábio de um jeito poético, amoroso, musical, doce. Racional, mas não ensaiado, espontâneo, kind hearted. Eu amo você. Que bom que te encontrei. You're all I need... 

sim estou com sdds principalmente de:



sexta-feira, 7 de julho de 2017

They live e problematizações chiques

They Live é um filme de 1988 do John Carpenter, um diretor que fez vários filmes de terror fodas, inclusive várias adaptações dos livros do Stephen King. Esse filme é sobre um cara que encontra um óculos escuro que permite que ele enxergue algumas pessoas como elas realmente são: aliens que estão entre nós disfarçados e que controlam o mundo através de mensagens subliminares por toda parte, mandando que as pessoas obedeçam, se conformem, não pensem, durmam, assistam tv, casem e reproduzam, não questionem autoridade, etc.



Ontem eu tava voltando da casa de Vanny e passei pela Hermes, uma rua cheia de lojas fancy e de fancyness especialmente para os ricos moradores de Tirol e Petrópolis (mas sem fazer distinção com os de outros lugares, é claro!). Do lado do ônibus que sentei estavam as lojas de móveis e elas enchiam os olhos: a maioria de dois andares, cheias de coisas dentro: muitas plantas, flores, móveis de madeira maçiça de cores naturais, iluminação fraca e amarelada dando uma sensação de aconchego, lustres enormes cheios de cristais brilhantes criando efeitos belíssimos, castiçais de metal (provavelmente prata), outros itens de metal, todas as cores em harmonia, "ambientes" montados para demonstrar o resultado final. O tipo de loja que eu tenho até vergonha de entrar, muito diferente das que passei o dia visitando: essas tinham móveis quase todos iguais, padronizados, nada exclusivo, o que mudava de loja pra loja era o preço, modelos majoritariamente iguais. Feitos de mdf, com cores artificiais, brancos, pretos, detalhes de plástico vagabundos, tempo de vida curto, que não aguentam uma mudança direito. Luz branca e vendedores comuns, tudo amontoadinho sem criar sensação de aconchego, elegância ou luxo. Móveis mais voltados pra necessidade imediata de organização e melhor sobrevivência em algum lugar, do que pra enfeitar e encher os olhos, ou serem transmitidos ao longo de gerações. Na Hermes, um pensamento veio à minha cabeça: "um dia eu vou ter dinheiro e poder montar uma casa bonita como essas lojas mostram". Imediatamente veio à minha cabeça outro pensamento, questionando o primeiro: "mas por que eu quero isso?"

Outro dia eu assisti um vídeo da Jout Jout indicando um filme e resolvi chamar Yuri pra assistir, na certeza de que ele iria gostar. "Capitão Fantástico" é realmente fantástico (kkk), uma mistura de They live com Into the wild. Nele, o Aragorn de Senhor dos Anéis cria seus seis filhos no meio da floresta em Washington, sob um regime democrático-socialista, com uma visão extremamente crítica do sistema capitalista, ensinando-os a se virar na natureza, a serem companheiros e solidários uns com os outros e a compreenderem o que é realmente importante na vida e o que é só um valor falso e vazio, fruto de propaganda pra alimentar e manter um sistema que é insustentável a longo prazo.

Uma filhotinha dessa até eu ia querer
Muitas pessoas assistem vídeos do Pepe Mujica (ex-presidente do Uruguai), compartilham, falam sobre ele ser um exemplo de pessoa e de governante, etc. Tudo isso porque ele buscou estabelecer políticas acolhedoras (legalização da maconha, aborto...), além de ser um homem simples, que andava de fusca, não tinha grandes propriedades, não usava fancy clothes e fancy nada. Mas quantas dessas pessoas que o glorificam estão dispostas a seguir o exemplo? Eu chuto que poucas, e o pior é que às vezes nem é culpa delas. Como se libertar do sistema e continuar inserido nele?

O capitalismo atual não é mais um sistema de produção, mas de consumo

Na faculdade, me apaixonei por três textos que a tia de Mari (que era minha prof) passou na disciplina dela, que era pautada em crítica social. O relato de um índio sobre o mundo do homem branco (papalagui, na língua deles) e outros dois sobre identidade e capitalismo. Esses textos defendiam que o capitalismo atual vende identidades e se pauta em consumo, e não mais em produção, pra se sustentar. Afirmava também que a preocupação em buscar meios de prolongar o lifespan dos indivíduos era uma forma de mantê-los consumindo, uma vez que quem morre não consume mais, e assim o sistema perde uma engrenagenzinha. Eu lembro nebulosamente sobre os exemplos de venda de identidade, mas era algo do tipo: vende-se por exemplo a identidade "estilo de vida saudável" e dentro dela vem o pacote de consumo: matrículas em academia, suplementos alimentares, whey, roupas apropriadas pra esporte e acessórios, consumo de alimentos naturais - e aqui acrescento que esses vem em ondas de "tendências" e modismos baseados em "dados científicos" e oferecendo alimentos overpriced e muitas vezes não-endêmicos, acarretando alto impacto ambiental e social. Exemplos dessas tendências de saúde e emagrecimento são a chia, linhaça, óleo de coco, chá verde, chá de hibisco, couve, sal do himalaia, etc... Então, a pessoa que deseja demonstrar a identidade "vida saudável" irá seguir um conjunto de comportamentos e padrões de consumo. Pra cada tipo de identidade que desejamos exibir socialmente, há um conjunto de rituais que precisamos cumprir afim de nos adequar àquela forma, e eles vem especialmente através do consumo. Esse era o ponto dos textos.

Display e reconhecimento social

Yuri não gosta de tirar fotos porque não se sente fotogênico. Ele também não gosta de demonstrações públicas de amor em redes sociais, do estilo textões de aniversário se declarando e esse tipo de coisa. Isso me faz sentir desobrigada. Quer dizer, quando reclamo dele, ou passo uma raiva e penso em terminar, não fico constrangida com o que os outros vão pensar. Afinal, eles não sabem nada sobre nosso relacionamento, e não é como se eu tivesse voltando atrás em algo que eu disse, tipo promessas de amor eterno que as pessoas costumam fazer no Facebook e se arrepender poucos meses depois. Mesmo esse sendo o meu melhor relacionamento com alguém, só quem sabe disso são as pessoas que realmente nos conhecem, porque nós somos discretos e eu acho isso o máximo. Uma vez Yuri disse algo como "nosso relacionamento é pra mostrar pros outros, ou é pra nós dois?". Isso diz tudo pra mim, e muito sobre a maturidade dele. 
Quando Lauro terminou comigo, eu não queria tirar o nome dele do status no Orkut. Ele disse "mas a gente não já acabou mesmo? que diferença isso vai fazer?". Ele não entendia mesmo. O que estava em jogo não era a gente estar junto ou não, mas o meu status social. Era uma questão simbólica, e não prática.
Percebi que ficar usando o Instastories me pressiona a ser perfeita. Me pego frequentemente me preocupando em tirar fotos dos melhores ângulos e tentar mostrar pras pessoas, ou quase provar/esfregar na cara delas o melhor lado da minha vida. Meus bens materiais, meu namorado bonito, as safadezas do meu gatinho, minha alimentação respeitosa com a natureza, mostrar que tenho vida social e amigos, ou que estudo em inglês, que leio, faço academia, ouço metal progressivo, etc. Mas por que eu sinto essa necessidade, que dois meses atrás não sentia? Sempre fugi do snapchat, nunca instalei no meu celular, não tenho nem ideia de como funciona. Mas ele deu seu jeito de me alcançar. Meus amigos me diziam que ele fazia as pessoas "se conectarem mais" porque você podia "acompanhar o cotidiano de alguém". Bem, tudo que eu ganhei com o stories foi pressão pra ser bonita/organizada/exibir desejabilidade social, chateação quando via meus amigos me excluindo de algo e um consumo muito maior do meu pacote de dados. Hahua. Eu me pergunto se Bauman antes de morrer ficou sabendo dessa história de Snapstorie, que pra mim é o líquido do líquido da modernidade líquida. Os móveis entram nessa questão. Quantas vezes eu imaginei meu quarto de um jeito que as pessoas fossem achar ele legal, e não considerando que ele fosse funcionalmente bom pra mim? Que coubesse minhas coisas, que mantivesse uma organização e coerência. Eu queria impressionar os outros, mesmo que numa fotografia que se esmaece em 24 horas. 

Flexibilidade

Quando eu tava comprando o guarda roupas, pedi a opinião de Yuri e ele disse "você tem coisa demais. Agora quer comprar um guarda roupa maior pra caber tudo, mas não precisa. Era melhor vender as coisas que você tem!".
Gui é uma pessoa que tem poucas coisas. Ele tem poucas roupas, poucos livros, poucos sapatos, poucas mochilas, etc. Já ter ido na casa dele ajuda, mas eu também posso reparar isso quando saio com ele e ele tá sempre com as mesmas coisas. Que importa isso? Ele é flexível. Pra ele é fácil ir de um canto pra outro: não tem um monte de coisa pra carregar.
Quando meu pai morreu, a gente se viu com um arsenal gigante de coisas sem valor. Muitos cds e dvds, entre os que ele comprava e os que ele fazia (hobby dele). Livros e pôsteres caríssimos dos Beatles, revistas de esporte antigas, LPs (alguns valem uma baba), coleções de carrinhos. Pra que tudo isso? Ele dormia vendo os filmes. Vou arriscar dizer que só os livros mesmo que ele leu. Ele nunca sequer pendurou os pôsteres nem nada disso. Pra que consumir sem usar? Pra que tanta coisa? E agora o que a gente faz com tanta matéria parada e inútil? Pra que tudo isso?
Agora que vou me mudar, eu fico constantemente olhando e volta e pensando em como vou empacotar tudo isso. Como vou levar tudo isso? Eu nem sequer tenho uma mala. Toda vez que tenho um tempinho em casa eu sento e doo mais coisas, jogo fora, me livro. Pra que tanta matéria acumulada? Deixa tão difícil de carregar. Me deixa presa porque é muita carga pra levar. E eu quero poder ser também itinerante. Livre. Mudar de ideia. Sair de um lugar pro outro.
Ontem eu perguntei pra Vanny se o ap dela era comprado. Ela disse "não. Mas eu não queria que fosse. Não quero sentir que algo é permanente. Quero pensar que daqui a um ano posso ir pra outro lugar". Conversei com Gui e ele me disse "as pessoas querem muitas coisas, e fazem de tudo pra ter aquilo. Eu me pergunto por que eu quero isso? Eu quero viajar. Podia me endividar agora, fazer empréstimos e ir. Ou posso juntar dinheiro e só fazer algo se realmente tiver condições de fazer.". A gente não precisa de muitas coisas. Da maioria das coisas. 
Yuri foi viajar pra Europa, eu disse pra Vanny. E ela me disse "espero que ele traga um monte de coisa pra você! Você pediu maquiagem pra ele?? Não acredito que não!". Antes de ir, ele me perguntou
- O que você vai querer de lá, linda?
- Imãs e globos de neve dos países que você for! =)
- Só isso??
- Sim, sempre quis ter globos de neve de cidadezinhas!
Aí ele fez uma cara de "ô meu amor..." e me deu um abraço. Aparentemente gostar de decorar a casa é fofo pra uns, coisa de trouxa pra outros. 
Eu sou daquelas pessoas que acreditam que sair da zona de conforto sempre vai gerar algum tipo de sofrimento. Sempre comento com Yuri e Gui em como fico admirada com Vitória por ela sempre se jogar em fazer coisas novas: se alguém oferece a ela uma comida que ela nunca comeu, ela não pensa duas vezes antes de provar e ainda acaba gostando. Se alguém chama ela pra fazer algo que nunca fez, ir em algum lugar que ela nunca foi... ela na verdade parece estar constantemente buscando se colocar em situações assim. Outro dia eu tava no Pedrão com Marié e Deca e ela reclamou justamente do oposto: Deca sempre quer fazer o que já fez, o que já conhece, o que já gosta... ele adota uma estratégia mais segura, o que também é o meu caso. Já reclamaram de mim porque quando eu saía sempre comia as mesmas coisas e eu dizia "vou arriscar meu dinheiro comprando algo que talvez não goste, sendo que já sei exatamente o que gosto?" e foi algo desse tipo que Deca respondeu pra Marié naquele dia. O meu pai detestava fazer coisas novas. Todos os dias ele ia pra UFRN pelo mesmo caminho, sempre comprava no mesmo supermercado, fazia as mesmas rotas, entrava em contato com as mesmas pessoas. Uma das coisas que mais estressava meu pai era que eu pedisse pra ele me levar em algum lugar em que ele não conhecia, como da vez que eu levei príncipe Lulu no dentista canino da São José e tive que aprender o caminho bem direitinho pra explicar pra ele, mas mesmo assim ele ainda olhou umas mil vezes no google maps. O máximo de manjar dos paranauês dele era ali pela Campos Sales, porque ele morava lá quando era jovem (coincidentemente, é a rua paralela a Prudente, a rua que vou morar). Eu fiquei muito parecida com ele nesse quesito, e talvez todos aqui de casa. Mesmo minha mãe, que fugiu de casa com 14 anos e nunca mais voltou, convivendo com ele começou a se aterrorizar com mudanças. É difícil medir o quanto algumas coisas são genéticas quando você não tem, de jeito nenhum, como separar do ambiente.

Hoje foi um dia foda. Fiz um milhão de coisas. No final do dia minha cabeça parecia que ia explodir não importava o que eu fizesse. Acabei tomando remédio depois de dormir algumas horas e acordar do mesmo jeito. Ontem fui dormir na casa de Yuri e como ele ia-se embora pra Europa hoje, foi extremely hard colocar ele pra dormir, o que só aconteceu lá pelas 4h. Ele ficou o tempo todo balançando os pezinhos e me acordando puxando assunto e querendo dar scroll no maldito 9gag, até que perguntou se eu queria ver um ep de Cowboy Bebop e mesmo já tendo visto tudo resolvi assisti de novo (de olhos fechados, claro) com ele pra ver se ele se acalmava, aí ele dormiu como uma criança pequena dorme no carro balançando ou assistindo Peppa pig enquanto toma mamadeira. Hoje a vó dele tava de um lado pro outro falando no telefone e querendo arrumar as últimas coisas da viagem e a gente teve que acordar umas 10h e ele não tinha nem feito a mala, é claro. Senti um pouco de compaixão por ela por saber o quanto a mania de deixar tudo pra última hora dele é irritante, mas um pouco de prazer também por saber que ela podia dar uma oprimida nele pra ele deixar de ser relaxado hehe. Acabei vazando logo cedo pra não atrapalhar levando meu kunk e meu pedal e fui lá pro centro resolver as coisas da casa nova. Quando ele voltar, tudo vai estar completamente diferente e acho isso 100% bem loco.

Eu e Vanny fomos na Rio Branco procurar meus móveis e acabei achando um guarda roupa legal e uma cama com um preço bom (de casal.. <3). Uma das primeiras primeiras (!!) coisas que percebi foi que

MEU DEUS DO CÉU VANNY É A EPÍTOME DA BAGUNÇA 

Eu cheguei naquele apartamentinho lindo e recém construído, cheio de frescura e frufru, senha elevador vaga na garagem varanda piscina vários ambiente etc mas Vanny faz parecer que é um lixão a céu fechado (porque ela não abre nenhuma janela pro gato dela não pular aaaa). Quando eu desci do elevador, no começo do corredor, eu já senti o fedor da caixa de areia do gato. Ahuaha é impressionante em como ela consegue deixar tudo o mais sujo e bagunçado possível e imaginável (na verdade de um jeito que eu não era capaz de imaginar, até ver hoje), a gente entrou no meu futuro quarto e ele tava vazio? Não. Cheio de tralha espalhada, e ela ainda disse "se você tiver sentindo um cheiro ruim, é porque Billy mijou aqui mas eu não sei aonde" e eu pensei "berro" aí ela achou que foi em cima de um plástico no chão e falou ah sim, foi ali. Aí virou as costas e foi embora e nem fez menção de que um dia iria catar e botar no lixo AAAA!!!! Eu tive vários ataques cardíacos com a minha mania de limpeza absurda herdada-ensinada pela minha mãe (que por um acaso é virginiana, e tem essa parada de que é o signo da limpeza, por um acaso hehe). A ração do gato tava espalhada no chão no corredor, o banheiro dela eu não soube o que dizer só sentir, a cama dela no chão sem lençol até hoje (outro berro), tudo espalhado pelo chão, tanto o lixo quanto as coisas que ela vai usar, sem a menor distinção, como um socialismo utópico dos bens materiais (socoro). Quem chega lá deduz imediatamente que ela se mudou ontem, sendo que faz tipo 4 meses ahuah. 

Eu, como sempre, fui um jegue e comprei um guarda roupa grande demais pra colocar na parede que eu queria assim como fiz nesse quarto aqui de casa e agora NÃO VAI FICAR TUDO PERFEITO DO JEITO QUE EU QUERO! eu pensei. Sendo que depois pensei "por que me importo tanto com a aparência quando o que importa é a função?" E aí viajei muito nisso, vou tratar mais lá na frente. 

Quero aproveitar esse momento pra resumir os pontos principais já que tenho que dormir e só quero lembrar algum dia mesmo então
Pontos positivos felizes:
1) No centro tem vários pontos com pessoas vendendo frutas da estação/regionais! Vi um monte de caju, acerola, pinha e feijão verde pelas ruas e isso iluminou meu coração vegan
2) No centro o sacolão as coisas costumam ser mais baratas e o Alecrim fica a um pulo! Isso vai ser ótimo porque eu decidi ser uma pessoa crafty DIY handworker e vou passear bastante por lá e aprender as manhas de viver uma vida barata
3) O pai de Vanny tem uma lanchonete e ninguém vai morrer de fome comendo várias torrada e sanduíche sem carne
4) Nordestão a um passo também. Não vou precisar de carro not ever. Todos os médicos/dentistas/vet mais perto
5) Vanny me trata com um respeito que minha família talvez não saiba que existe.
6) Pela primeira vez na existência, eu vou ter um banheiro só meu... aqui em casa divido com 4 pessoas e é realmente terrível especialmente quando minha mãe tranca o dela pra ninguém usar
7) No prédio tem elevador, treino funcional e coisas fancy
8) Nunca mais vou acordar com grito, ouvir grito, ser tratada feito bosta, me estressar, não ter silêncio paz respeito e esse tipo de coisa que é o segredo da vida bem sucedida
9) Vou aprender a dançar funk e fazer twerk KKKKK
10) As paradas de ônibus são bem pertinho, festas na Ribeira de Uber por apenas 10 conto
11) Cama de casal. Finalmente vou poder dormir com Yuri no meu canto (já que ele tem cama de casal, mas não é a minha casa) sem ter que ficar me equilibrando na ponta da cama aleluia saravá axé namastê amém
12) Se tiver algo pra fazer na UF logo cedo ou imediatamente posso ficar na casa do bb
Pontos negativos horríveis:
1) Ficar longe da UF, não poder mais pegar o 54a, obrigatoriamente ter que pegar o circular :(
2) Sair de Ponta Negra, bairro do meu >core< e único lugar que eu realmente conheço na cidade KKKK
3) Na hora do rush tô lascada, ter que acordar muito mais cedo pra poder chegar nos lugares pontualmente
4) Ter que passar o pano no chão. Passar o pano eu te odeio. 
5) Ter que gastar com coisas tipo tupperware, lixo, cesto de roupa suja, lençóis :\
6) Não poder mais ver Yuri todo dia porque não seremos mais vizinhos de bairro
7) Ter que ficar trancada num espaço minúsculo com a caixinha de areia de Logan. Vai ser osso porque aqui eu boto ela lá fora e não gosto de jeito nenhum de deixar dentro de casa, é horrível 
8) Se os gatos não se derem bem
9) Adeus minha academia maravilhosa de rico Top Gym fitness. Era um saco mas ao mesmo tempo eu amava porque era muito chique. Pelo menos eles devolvem uma parte do dinheiro hehe
10) Vanny muito bagunceira até quando vou aguentar? Só o tempo dirá
11) Não ser mais rica esbanjadora, sem ar condicionado e edredom, coisas free, sem mãe arrumando a casa, ter dinheiro de sobra (agora vou ter que ter juntar grana pra emergência)

Fiquei cansada agora mas amanhã tem mais porque estou obcecada por esse assunto.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Time to go

Tenho tido uma dificuldade imensa de escrever ultimamente, mas dessa vez por um motivo diferente. Eu sinto que tem tanta coisa que quero dizer aqui, que toda vez que vou escrever um texto eu paro quando tô cansada de digitar ou de manter a coerência naquela linha de pensamento. Também tenho me preocupado com o fato de que meu blog deixou de ser um espaço filosófico e analítico pra ser um "meu querido diário" como diria a galera de um grupo que tenho no facebook. Sinto que as coisas acabam saindo tortas por causa disso e me preocupo com meu nível de desejabilidade social. Por isso vou tentar escrever um pouco mais pra mim hoje. Aos que gostam de ler, esse definitivamente não será o texto mais edificante do blog.

Umas duas semanas atrás, minha mãe veio com uma conversa de que queria voltar pra Minas. Ela é mineira e até onde sei sempre teve planos de ir pra lá, porque ela sempre juntou muito dinheiro e que se não é pra tirar do banco e fazer uma piroca gigante pra sentar em cima, só pode ter algum objetivo. Ela sempre disse que queria comprar uma casa lá, ser enterrada lá junto com a família dela, etc. Ela falou que sente saudade da família dela, mas que eu e meu irmão não poderíamos ir (ele é concursado; eu faço mestrado. A minha irmã iria de ótimo grado afinal o namorado dela é mineiro e mora lá) e que teria que esperar ele fazer uma transferência e eu terminar o mestrado e arrumar algo por lá. Ela também falou sobre como aqui é violento e que quando veio pra cá com meu pai essa cidade era uma das mais tranquilas do país. Falou que sente saudade da família mas que se eu e meu irmão ficássemos aqui iria sentir saudade da gente e ficaria na mesma situação.
Ok.
Não é a primeira vez que a minha mãe coloca a culpa na gente por não fazer alguma coisa que ela "quer" fazer. É impressionante esse nível de cara de pau. Pra quem não conhece a gente, ouvindo isso pensaria "oh que mãezinha carinhosa" e não entenderia nada.
Quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia que não ia embora pra MG porque eu era pequena e não podia me deixar aqui pro meu pai criar e nem levar junto com ela porque não teria condiçõe$ de me criar lá como ele tinha de me criar aqui. Ela me fez acreditar por muito tempo que eu era culpada por ela passar o que passava com meu pai, afinal eu nasci 10 anos depois dos meus irmãos e atrapalhei o grande plano dela de ir embora quando eles tivessem grandes, então o problema não era nem ter filhos, mas especificamente eu.
Eu sempre tive muita compaixão pela minha mãe e o abuso emocional-físico-psicológico que ele infligia nela arrasava meu coração infantil. Sempre quis que ela se divorciasse e sempre incentivei isso, mas ela tinha essa desculpa sempre na manga. Se não fosse por mim ela já teria ido, era o que ela gostava de dizer.
O tempo passou, eu cresci. Sob ameaças de divórcio, a primeira quando tinha 7 anos. Eu estava sentada em cima da mesa da sala, que era oval e toda de madeira maciça, e não de mdf como se faz tudo hoje em dia. Era forte e eu subia nela pra brincar de pular lá de cima. Era de noite. Meus pais juntaram eu e meus irmãos na sala, pra anunciar a separação. Fiquei com medo da mudança, lembro disso. Desde então, as ameaças eram frequentes; cada um que dizia que ia embora na sua vez. O meu pai dizia no estilo dele "vou embora dessa casa, quero ver o que vocês parasitas vão fazer sem mim" e minha mãe no estilo dela "vou voltar pra MG, não tenho onde ficar aqui, vocês vão ter que ficar com seu pai", o que não era lá uma grande coisa, ficar com o meu pai que bebia de quinta a domingo, o que fazia com que a maioria da semana fosse um pesadelo, e talvez pior que um pesadelo: o pesadelo acaba quando você acorda. A realidade desgraçada dura todas as horas que um dia pode durar, e quando chega no domingo e você suspira de alívio pelo seu pai passar o dia desmaiado na rede, você logo prende a respiração de novo quando se dá conta de que quinta-feira que vem tem mais.

Nesse ambiente de instabilidade, eu peguei o meu desamparo aprendido e sonhei a vida inteira com a segurança. A minha psicóloga costumava dizer que a segurança era meu valor supremo, que eu colocava acima de todas as outras coisas que desejava. E não adianta eu negar que tudo que procurei na vida inteira foi um lugar onde jogar a âncora e pensar "tá tudo bem agora". Mas, é claro, nada no universo é simples desse jeito.
Continuando a história de voltar pra onde veio, eu falei pra minha mãe que ela não sentiria saudade de mim e do meu irmão porque quase não nos vê, não conversa com a gente e que só fala com a gente se tiver algo a reclamar. Considerando a obsessão dela por trancas e fechaduras depois da morte do meu pai, disse que acreditava mesmo que era a melhor coisa pra ela fazer, porém que eu e meu irmão certamente ficaríamos aqui e que a gente poderia ficar com essa casa. Não era o que ela esperava ouvir.Na vida muitas coisas importantes acontecem tarde demais. A minha vida inteira eu fui Team Mom, e nunca quis entender o meu pai. A minha psicóloga também me criticava por isso, e eu simplesmente achava que ela não entendia realmente a situação da minha casa e fazia suposições ingênuas. Depois que ele morreu e eu e meus irmãos tivemos que assumir o seu lugar, finalmente eu entendo a tormenta que era a vida do meu pai, convivendo com a minha mãe. Ele não era nenhum santo, nenhum anjo, sequer uma pessoa fácil de lidar. Ele era machista e conservador e daí derivava TODA a prática dele enquanto parente, então acho que mencionando só isso dá pra explicar bem.

É até difícil falar disso por causa da sacralização social da figura da mãe como um anjo que só faz bem. Algumas mães podem ser tóxicas e fazer mal pros seus próprios filhos, como é o caso da minha. Alguém com uma imaturidade emocional fora do comum, pelo menos fora do espectro de todas as pessoas que já conheci. E se por um lado eu sinto pena, sinto também vontade de sair correndo, de ficar bem longe. Se eu antes sentia medo do meu pai, agora eu sinto um cansaço imenso por saber que quando chegar em casa da rua depois de horas de aula ou acabada da academia, sei que vou ouvir reclamações a partir do momento que passar pela porta, até a hora que ela for dormir. Pelo que quer que seja que eu faça, pelo que quer que seja que meu gato faça. A primeira coisa que ela faz quando chego é ameaçar que vai se livrar dele quando eu não estiver aqui. Algumas vezes ela não espera nem eu abrir os olhos pra começar a rodada de reclamação e infernização do dia. Não basta se lamentar e reclamar, é sempre gritando, ou em tom de voz elevado, sempre querendo calar e ter a última palavra (ao pé da letra). Me lembra a frase de Paulo Freire "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor". Ela me deixa doente e esgota toda a minha paciência e humildade (em ouvir calada), faz com que não sobre energia pra lidar com ninguém. Faz com que eu desconte a raiva em Yuri e ao perceber isso queira ficar longe de todo mundo, com receio de que sintam em mim aquela energia rasteira negativa, a raiva que sinto, com medo que saibam do que passo e olhem pra mim com desprezo por eu não ser normal numa família normal e feliz como o esperado...

Por causa disso eu tenho pensado há muito tempo sobre o preço de ficar aqui. A minha sanidade. Em troca de poder comprar prata, roupas, comer comida cara e gordurosa e usar perfume francês. Eu digo que não saio de casa pra juntar dinheiro pra viajar e pros meus objetivos. Nunca guardei um centavo, mas já tentei bastante. Nunca consegui chegar em lugar nenhum e me sinto afundando profundamente. Me sinto infeliz e de saco cheio e ansiosa e com uma vontade desgraçada de fugir, de desaparecer. Conversei com Vanny sobre a possibilidade de morar com ela (já que ela mora só num apartamento de dois quartos) e depois de muito receio, finalmente entendi que não posso mais. Hoje quando cheguei aqui e tentei responder calmamente à loucura da minha mãe sobre um xixizinho de Logan no canto da cozinha, percebi que abrir mão de qualquer luxo que seja é um preço barato a pagar perto da recompensa que é a PAZ. Então eu falei calmamente que já que incomodo tanto posso ir embora assim que meu dinheiro chegar e algumas frases que ela me respondeu foram "Você acha que vou chorar?"; "Não volte quando embuchar pra jogar o filho aqui que eu não vou criar"; "Já vai tarde" e "Assim que eu receber te dou seu dinheiro (minha mesada) pra você ir logo!"; "Leva esse gato pra bem longe daqui", etc. Bem, não parece algo que alguém que sentiria saudade dos filhos por se mudar pra outro estado diria, certo?

Welly well. Que se foda a estabilidade e segurança. Eu vou é embora.

domingo, 25 de junho de 2017

"- Como? Há um meio especial de se evitar o sofrimento?
- Sim, há um meio.
- É uma fórmula, um processo, ou o quê?
- É um modo de se agarrar as coisas. Por exemplo, quando eu estava aprendendo a respeito da erva-do-diabo, era por demais ansioso. Agarrava as coisas assim como as crianças agarram bala. A erva-do-diabo é apenas um entre um milhão de caminhos. Tudo é um entre um milhão de caminhos (un camino entre cantidades de caminos). Portanto, você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve segui-lo, não deve permanecer nele, sob nenhuma circunstância. Para ter uma clareza dessas, é preciso levar uma vida disciplinada. Só então você saberá que qualquer caminho não passa de um caminho, e não há afronta, para si nem para os outros, em largá-lo se é isso o que seu coração lhe manda fazer. Mas sua decisão de continuar no caminho ou largá-lo deve ser isenta de medo e de ambição. Eu lhe aviso. Olhe bem para cada caminho, e com propósito. Experimente-o tantas vezes quanto achar necessário. Depois, pergunte-se, e só a si, uma coisa. Essa pergunta é uma que só os muito velhos fazem. Meu benfeitor certa vez me contou a respeito, quando eu era jovem, e meu sangue era forte demais para poder entendê-la. Agora eu a entendo. Dir-lhe-ei qual é: esse caminho tem coração? Todos os caminhos são os mesmos: não conduzem a lugar algum. São caminhos que atravessam o mato, ou que entram no mato. Em minha vida posso dizer que já passei por caminhos compridos, mas não estou em lugar algum. A pergunta de meu benfeitor agora tem um significado. Esse caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece."

"Em nossas conversas, Dom Juan sempre usava ou se referia à expressão "homem de conhecimento", mas nunca explicava o que queria dizer com isso. Perguntei-lhe a respeito.
- Um homem de conhecimento é aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem - disse ele. Um homem que, sem se precipitar nem hesitar, foi tão longe quanto pôde para desvendar os segredos do poder e da sabedoria.
- Qualquer pessoa pode ser um homem de conhecimento?
- Não; não qualquer pessoa.
- Então o que é preciso fazer para se tornar um homem de conhecimento?
- O homem tem de desafiar e vencer seus quatro inimigos naturais.
- Ele será um homem de conhecimento depois de vencer esses quatro inimigos?
- Sim. Um homem pode chamar-se um homem de conhecimento somente se for capaz de vencer os quatro.
- Então, qualquer pessoa que conseguir vencer esses inimigos pode ser um homem de conhecimento?
- Qualquer pessoa que os vencer torna-se um homem de conhecimento.
(...)
Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem voltar, e que seria uma boa idéia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois começou a falar:
- Quando um homem começa a, aprender, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu propósito é fumo; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem. Devagar, ele começa a aprender... a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus  pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito torna-se um campo de batalha. E assim ele se deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o Medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim à sua busca.
- O que acontece com o homem se ele fugir com medo?
- Nada lhe acontece, a não ser que nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto um fim a seus desejos.
- E o que pode ele fazer para vencer o medo?
- A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, mente, e, no entanto, não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte.
Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Nesse momento, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.
- Isso acontece de uma vez, Dom Juan, ou aos poucos?
- Acontece aos poucos e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.
- Mas o homem não terá medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?

- Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta."

quarta-feira, 21 de junho de 2017

"Consider this: You can see less than 1% of the electromagnetic spectrum and hear less than 1% of the acoustic spectrum. As you read this, you are traveling at 220 km/sec across the galaxy. 90% of the cells in your body carry their own microbial DNA and are not 'you.' The atoms in your body are 99.9999999999999999% empty space and none of them are the ones you were born with, but they all originated in the belly of a star. Human beings have 46 chromosomes, 2 less than the common potato. The existence of the rainbow depends on the conical photo-receptors in your eyes; to animals without cones, the rainbow does not exist. So you don’t just look at a rainbow, you create it."

NASA Lunar Science Institute, 2012

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Nightmares & Dreamscapes

Yuri passou os últimos dias aqui em casa. Foi embora domingo de tarde, mas "cedo". Umas 16h maybe. Fui pra academia logo depois. Meu quarto anda tão bagunçado e não gosto disso... então achei bom porque eu precisava organizar as coisas. Tenho me sentido angustiada com coisas estagnadas. Uma história interessante:
Muitas vezes eu sonho que o meu quarto é um quarto de depósito como antes, só que com a minha cama aqui. Antes dos meus pais reformarem a casa, esse quarto ficava praticamente do lado de fora. Vou tentar descrever. Minha cozinha agora é em "L" e em uma das pontas do L, perto da porta de trás que dá pro quintal, fica o meu quarto. Antes minha cozinha era um "I" e essa parte que agora também é cozinha a gente chamava de "área de serviço". Era onde a gente colocava algumas coisas que não usava e também nossos animais de estimação. Era uma área coberta, mas sem laje, só na telha. Ela começava na porta da cozinha e terminava numa grade de ferro bem fininha e enferrujada, formando desenho de losangos entre os metais. Eu morria de medo de vir nessa parte da casa quando era criança, porque essa grade dava pro breu do quintal, e tinha só um cadeado segurando um trinco tão velho que eu poderia quebrar com um sopro. Eu sempre tive medo de ver alguma coisa nessa grade (inclusive, um dia um cara pulou da casa do vizinho pro nosso quintal, através desse muro lateral do quintal que agora é fechado. Também dava pra ver a torre de cima da igreja e os sinos daqui da porta, por causa disso). Por esse mesmo motivo tinha medo das janelas da cozinha e dos banheiros, que eram enormes (passava uma pessoa tranquilamente) e davam pra área de serviço. Além disso, ali ficava o meu quarto. Antes era um quarto de depósito onde a gente colocava as coisas velhas, empoeiradas e sem uso. Era cheio de cocô de barata, baratas em si, lagartixas, traças e às vezes ratos. O chão era de tijolinho vermelho, muito antigo. Guardávamos móveis antigos pra comportar as tralhas de forma organizada. Às vezes eu passava horas aqui sentada no chão procurando algo pra ler ou lendo. Encontrava livros proibidos (de sexo hehe), paradidáticos, gibis, livros do Paulo Coelho e outros esotéricos, clássicos (Dom Casmurro, Brás Cubas, Primo Basílio...), coleções (Jorge Amado e outros escritores brasileiros). Tinha Clarice Lispector, Agatha Cristie, Stephen King. Naquela época meus preferidos eram sobre ocultismo, parapsicologia e coisas sobrenaturais, porque eu ainda acreditava nisso. Era um tradicional "quarto de empregada"- resquício da cultura escravista brasileira - e tinha até um banheirinho minúsculo e que não funcionava, só servia pros agentes de saúde virem vez ou outra ver se tinha foco de dengue. Também tinha uma linha de telefone e às vezes quando meus pais brigavam e começavam a se bater eu ligava pra casa de Vanny e ficava conversando com ela pra tentar ignorar o barulho que eles faziam. 
Quando meus pais reformaram esse quarto, me deixaram escolher quase tudo. Eu escolhi um teto de gesso, e por isso meu teto é bem baixinho, só um pouco maior que Yuri (porque o teto era inclinado, e o gesso precisa ser reto. Aí ele foi nivelado no ponto mais baixo). Antes de terminarem, eu vi como as placas de gesso ficam penduradas ao teto velho e sujo por cabos de metal, cobrindo ele todo. Eles trocaram o piso, tiraram o banheiro, trocaram a porta, tiraram a parede velha de azulejo, mandaram fazer uma janela do jeito que eu queria (que encontrei no weheartit). A única coisa que sobrou foi a luz e o "lustre" em volta dela, que nunca troquei porque nunca encontrei um que achasse legal. 

A expectativa x realidade da minha janela que fiz no dia que ela chegou. Na esquerda, a foto que levei pra Dumaresq de exemplo

Ringo e príncipe Lulu inspecionando se a minha porta do quarto ficou boa. Descansem em paz.
O interessante disso tudo é que quase toda noite eu escuto um estalinho metálico. Só de noite. Eu tinha uma bolsa com um pedaço gigante de metal e achava que era esse pedaço escorregando pelo guarda roupa. Joguei fora. Na outra noite, o barulho de novo. Não consigo detectar de onde vem. Minha mãe disse que é o encanamento. São 6 anos de barulhinho. Talvez seja o cabo atrás do gesso se contraindo de frio, pensei finalmente um dia desses. A segunda parte interessante é que tenho um pesadelo recorrente aqui.
Desde que eu cheguei aqui, muitas vezes eu sonho que esse quarto é o mesmo quarto de antes. Muito embora eu não lembre tão bem dele, porque eu esqueço coisas que aconteceram semana passada, quem dirá a imagem de um quarto que se desfez seis anos atrás. Mas nos sonhos eu lembro dele, eu vejo a janela, o guarda roupa que ficava aqui e prendia um pedaço da janela e não deixava ela abrir. Lembro da portinha (mal) pintada de branco, com várias camadas de tinta descascando e revelando a mais antiga e amarelada. Eu sonho que é o mesmo quarto só com a minha cama. O mesmo quarto cheio de sujeira, poeira, cheio de bichos. E sonho que eu durmo aqui, no meio da bagunça. Sonho que ele é assombrado, que existe um tipo de dark force aqui. E depois que meu pai morreu, às vezes sonho que encontro ele aqui, só que no quarto como era antes. Um dia desses contei isso pra Yuri e disse: eu acho que tenho esses sonhos porque falta trocar uma coisa. O lustre. Acho que isso fica no meu inconsciente. Ele analisou de outro jeito, disse: Eu acho que você sonha com isso porque tem pavor de sujeira e bagunça, e o que você menos quer é bagunça em cima de você. Achei uma boa leitura também. Quando acordei domingo e Yuri continuou dormindo (pra variar) foi de um outro pesadelo. Não contei o sonho pra ele porque sei que ele não daria importância/tentaria silenciar dando qualquer solução pra não ter que falar mais disso então não falei nada. Mas foi interessante também e quero guardar em algum lugar. Sonhei que estava na casa da minha avó, mãe do meu pai. Eu sei que era lá porque eu lembro vagamente dos cômodos dela, mas eles estavam diferentes, era uma casa de dois andares com um pé direito enorme. Lá tinha um quarto assombrado pelo espírito de uma menina, pelo que entendi. Eu entrava lá pra buscar alguma coisa e uma força me puxava e me sentava na cama, e eu tentava sair e era muito difícil chegar na porta. Depois eu ainda acabava voltando lá porque esqueci algo. Quando acordei me lembrei imediatamente de quando li 1408, e antes ainda, quando assisti o filme com o meu pai. Tinha algo de parecido nesse sonho. Não consigo lembrar de quase nada, só da sensação ruim, do medo que me contaminou a tal ponto de eu não querer voltar a dormir mais depois dele.
Bônus: primeira foto que tirei no meu quarto


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Did you know...it was all going to go so wrong for you
And did you see it was all going to be so right for me
Why did we tell you then
You were always the golden boy then
And that you'd never lose that light in your eyes

Hey you...did you ever realize what you'd become?
And did you see that it wasn't only me you were running from
Did you know all the time but it never bothered you anyway
Leading the blind while I stared out the steel in your eyes

The rain fell slow, down on all the roofs of uncertainty
I thought of you and the years and all the sadness fell away from me
And did you know...
I never thought that you'd lose the light in your eyes

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Oi meu amor,

Eu sei que agora deveria estar escrevendo e-mails pra pesquisadores gringos, lendo artigos complicados em inglês e "produzindo", mas ao invés disso, estou deitada na cama abraçada com o travesseiro que você dormiu, pensando em você e chorando. Percebi então que o melhor que eu tinha pra fazer agora era vir aqui e dizer com todas as letras o que talvez eu tenha dito muitas vezes pessoalmente de forma indireta, mas que nunca conseguiria dizer de verdade com a clareza que tenho escrevendo.
Me perdoe por ter demorado tanto pra ter coragem de dizer tudo o que tenho pra dizer. É que ano passado aconteceram tantas coisas que me maltrataram o coração de um jeito que acho que ninguém merece sentir, de um jeito que ainda não consegui contabilizar o estrago, mas que a despeito de eu tentar esconder de todo mundo (inclusive de você) e a todo custo, sei que você pode ver the darkness leaking out of me, quando choro no escuro na hora de dormir, ou quando eu confesso pra você que estou triste e cansada de viver. Eu sei que você percebe o quanto sinto aquilo que te mandei ontem "I can see you're sad, even when you smile, even when you laugh, I can see it in your eyes, deep inside you want to cry"…

Sabe lindo, ontem Victor deu aula sobre a neurobiologia da afiliação (ou do amor, como alguns preferem chamar). No começo da aula, ele definiu o conceito de apego mais ou menos assim:

Apego é quando um animal procura proximidade física de outro numa situação de estresse, em busca de conforto e segurança.

Essa definição é tão simples e ao mesmo tempo linda!
Depois disso ele explicou como funciona a circuitaria cerebral nesse caso, quais áreas envolvidas, quais neurotransmissores, qual a importância evolutiva... e eu teria pensado nossa, é só isso... meros processos químicos, interações elétricas, respostas a estímulos. Tudo tão explicável, mundano, sem mistério. Mas eu andava tão triste, e te mandei uma mensagem: "tô me sentindo tão sozinha no mundo". E você respondeu "tá sozinha não, bebê, você tem eu. Quer que eu vá te visitar hoje?" e aí você sente que é mais do que isso, sabe lindo? É mais do que a gente pode explicar. Tem algo de sagrado, de divino. Algo além da pura neurobio, neuroendocrinologia. Mais do que seleção natural, mais do que filogenia. Tem algo de mágico, de espiritual, de extra-terrestre, de sublime, entende?

Eu poderia dar a isso o nome de amor. Eu amo você, lindo. E posso te dizer com convicção que você é a primeira pessoa que amei (romanticamente) de verdade. Lembra daquela conversa que a gente teve uma vez? Eu disse
- Você não sabe fazer as pessoas se apaixonarem por você! Você tem que me fazer um monte de promessas que não pode cumprir.
- Mas aí depois você vai passar o resto da vida jogando na minha cara que eu não cumpri o que prometi.
- Tá vendo como você é bobo? Você realmente não sabe fazer isso! Você tem que prometer, não cumprir e ainda por cima me fazer acreditar que foi por culpa minha. É assim que as pessoas fazem as outras se apaixonarem por elas.

Quando eu li aquele texto que te mostrei dos "14 passos pra manipular alguém", percebi que a minha vida inteira caí em armadilhas e jogos genéricos que funcionariam com qualquer um, prenderiam qualquer um. Não era nem sobre mim, sabe? Eram só pessoas que sabiam manejar minhas vulnerabilidades e me dar o que eu precisava, pra tomar o que queriam em troca, depois. E por muito tempo acreditei que isso era ter amado, me apaixonado. Até aquele dia. Eu estava só sendo vulnerável e me deixando usar. Abusar. Maltratar... porque acreditava que era isso que eu merecia, mesmo que meus amigos estivessem sempre lá gritando que não, mas eu achava que era só porque eles não sabiam o quão má eu era. Mas a minha família, os meus namorados... eles sabiam que por trás da maquiagem tinham olheiras enormes, sabiam dos defeitos do meu corpo, sabiam do meu temperamento agressivo, das coisas mal resolvidas dentro da minha cabeça... eles sabiam a verdade, sabiam o lixo que eu era e por isso só lhes restava me tratar assim, feito lixo. E foi preciso que você chegasse e visse tudo, visse mais além do que todos viram, e me conhecesse muito mais do que qualquer um já conheceu... e ainda continuasse me tratando feito gente. Pior ainda, como se eu fosse especial, como se eu fosse bonita, como se eu fosse digna, como se eu merecesse... ser amada. Como se eu merecesse respeito. E isso foi um choque pra mim e muitas vezes eu chorei pensando nisso (como agora). Eu nunca pensei que iria chorar um dia por alguém me fazer feliz, quase tanto quanto já chorei pelo mal que me fizeram. Porque você pensa que eu choro depois que gozo só porque é bom, mas eu choro de emoção. De amor. Eu choro porque não entendo porque mereço que alguém me trate tão bem, porque eu mereço ser tão feliz. Eu choro lembrando de todos os momentos que passei chorando de tristeza, de dor, de solidão, sem saber que um dia eu poderia esquecer todos aqueles pesadelos. Sem saber que um dia alguém poderia me salvar. Pode parecer uma idiotice de se dizer, mas é exatamente o que sinto.
Porque durante toda a minha vida eu me senti tão fraca, pequena, vulnerável, inofensiva. Mas quando eu seguro na sua mão eu tenho certeza que nada de ruim vai me acontecer. É como se você pudesse me proteger de tudo... é como o conceito de apego da aula! Eu te amo tanto...

Por tanto tempo eu tive medo de dizer isso. Medo de que eu fosse dizer e depois talvez tivesse que voltar atrás...? Depois descobrisse que fui enganada. Como se o fato de eu não dizer pudesse me proteger de alguma coisa. Me fazer menos ridícula por me sentir assim. You know what, bb? Quando eu era criança, sempre via nos filmes algo sobre ter um coração puro. "o anel só pode ser carregado por quem tem um coração puro..." etc. e eu não entendia como seriam essas pessoas, como elas seriam diferentes das outras. Quando te conheci, entendi perfeitamente bem o que isso significava. Você tem um coração puro, uma alma tão limpa, cristalina, ensolarada, inocente. Você é o meu Spike da vida real. Tão simples, honesto, humilde, gentil, generoso, doce, tranquilo e com mad skills haha. Eu te amo tanto. Obrigada por ter tocado in my time of dying pra mim de slide e tudo, logo quando a gente se conheceu. Por ter dito "eu te amo" primeiro. Por tudo que você fez por mim... por encher minha vida de música, sentido, amor, segurança, tranquilidade... não posso listar senão vai parecer que o que você fez por mim é algo que cabe numa lista. E nós sabemos que it simply doesn't. Então por todas as coisas... thank you.

"She was the part of me I've lost somewhere along the way
The part that was missing, that I've been longing for…"



terça-feira, 6 de junho de 2017

As you look around this room tonight
Settle in your seat and dim the lights
Do you want my blood, do you want my tears?
What do you want, what do you want from me?
Should I sing until I can't sing any more
Play these strings until my fingers are raw?
You're so hard to please
What do you want from me?

Do you think that I know something you don't know
What do you want from me?
If I don't promise you the answers would you go?
What do you want from me!?
Should I stand out in the rain
Do you want me to make a daisy chain for you?
I'm not the one you need
What do you want from me...

You can have anything you want
You can drift, you can dream, even walk on water
Anything you want

You can own everything you see
Sell your soul for complete control
Is that really what you need?

You can lose yourself this night
See inside there is nothing to hide
Turn and face the light

What do you want from me...

sábado, 3 de junho de 2017

the only person i can ever save is myself
the only person i can ever save is myself
the only person i can ever save is myself

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Filhos

O comportamento que quero estudar na minha pesquisa, a minha variável dependente são as decisões reprodutivas das pessoas. Em outras palavras, eu quero entender os fatores que levam as pessoas a escolher ter nenhum filho, mais ou menos filhos. 
Quando começamos o mestrado, Fívia fez uma reunião comigo e as outras 7 orientandas dela (descobri hoje que atualmente ela orienta 20 alunos... eis a raiz de toda a minha angústia... a maioria dos professores tem 3 ou 4) com um professor lá do Espírito Santo que deu sugestões sobre os nossos delineamentos experimentais, e quando eu falei sobre a minha pesquisa ele perguntou "e você quer ter filhos?" e eu prontamente disse "kero". As discussões que aconteceram hoje me fizeram pensar um pouco sobre isso.
Quando eu era criança eu tinha certeza que eu ia casar e ter filhos porque nos anos 90 aqui na minha família numa cidadezinha pequena do Nordeste do Brasil essa era a única possibilidade naquele tempo (muito embora quase todas as irmãs do meu pai não tenham se casado e nem tido filhos, elas eram jovens ainda quando eu era pequena). Ia ser assim e isso era tão inquestionável quanto a existência de Deus era pra mim naquela época, e lembro até da minha irmã falando uma vez sobre como o sobrenome da família do meu pai não ia ter continuidade porque eu e elas somos mulheres e o meu irmão é gay. Quando eu virei pré-adolescente e assistia Keeping up with the Kardashians eu queria ter 5 filhas igual a mãe Kardashian e achava o máximo ter uma família grande.
Lembrando disso, é impressionante o quanto a cultura influencia nossas necessidades, planos, sonhos... eu sempre gostei muito do natal (o feriado) e era a rainha de assistir os desenhos natalinos (sempre os mesmos todo ano) e de ler as revistinhas da Turma da Mônica especiais de natal, que inclusive uma das minhas preferidas era uma paródia do "A Christmas Carol" do Charles Dickens (posteriormente eu descobri que li MUITAS paródias do Charles Dickens em revistinhas da Mônica.. haha ler gibi também é cultura). Acontece que nos filmes dos anos 80/90 que são a minha grande referência de "vida boa" ou de como uma vida deve ser vivida (bom e velho american way of life teve uma influência gigante na minha formação) sempre tinha uma familinha feliz que montava a árvore, enfeitava a casa toda de pisca-pisca e se reunia em volta da lareira na manhã do dia 25 pras crianças abrirem o presente. Acontece que eu nunca ia ser aquelas crianças do filme. Não vou ser injusta, os meus pais sempre me deram na medida do possível as coisas que eu pedia, e também quando eu era muito novinha eles faziam uma encenação do papai Noel, em que ninguém se vestia de nada, mas lembro de uma vez que minha mãe tava penteando meu cabelo na cama e meu pai tocou o sininho do enfeite da árvore depois de deixar os presentes e saiu, aí minha mãe disse que ainda viu ele no céu, indo embora no trenó ahuahaua. Enfim os meus natais em geral foram muito mais ruins do que bons e eu sabia que a única possibilidade de ter a familinha que aparecia no filme era se eu saísse do meu lugarzinho de criança pra o lugarzinho de ser a mãe, a chefe da família. E por muito, muito tempo eu tive essa ideia na minha cabeça SÓ por causa disso, por mais absurdo que possa soar.

crazy xmas lady
Quando eu tinha 19 até meus 22 anos, eu vivi um relacionamento extremamente abusivo que me consumiu completamente, um dos maiores arrependimentos da minha vida, mal posso numerar a quantidade de coisas que eu perdi por causa daquilo. E o motivo que a minha cabeça me dizia over and over again pra eu não sair dali era porque eu tinha um pensamento engessado na minha cabeça de que até os 30 eu deveria ter a minha própria família, e eu queria que o meu marido fosse alguém que eu conhecesse há muito tempo e que já tivesse vivido bastante junto, tipo uma década ou quase. The clock was ticking, em contagem regressiva. Hoje em dia isso parece uma maluquice pra mim, mas um dia já fez todo o sentido. Por muito tempo fez todo o sentido. A pressão de acreditar que a vida certa e boa é somente aquela dentro dos padrões sociais estabelecidos me fez sofrer igual uma condenada ao longo de vários relacionamentos. Porque tudo que eu precisa era de uma peça pra encaixar ali, sabe? Um homem pra figurar de marido na família ideal que eu criei na minha cabeça ASSISTINDO FILME! Não importa o quanto ele fosse babaca, me tratasse mal, pisasse, fosse um cretino canalha... bastava dizer que ia casar comigo e ter filhos que pra mim isso estava acima de tudo. E aí essa família que eu pleiteava formar com macho trash ia acabar parecendo com a de quem? Isso mesmo, a família que eu já tinha. Então eu ia ficar na mesma, no fim das contas. Eu ia ficar presa num ciclo... de sair desesperadamente de um lugar pra cair em outro igual. Tal qual eu acho que aconteceu com a minha mãe. Eu queria tão desesperadamente consertar tudo que eu passei, começando a minha própria família. Mas essa família que eu idealizei nunca vai ser posta em prática. Aprendi isso viajando pra SP com Yuri. Aprendi isso realmente fazendo o mestrado que sonhava. Nada é como a gente sonha, planeja, idealiza. Tudo é sempre um pouco pior do que o que a gente espera. E não adianta achar que isso vai preencher o vazio, vai consertar o que passei. Nada vai consertar, a experiência que eu não tive enquanto família, eu nunca vou ter. E qual o problema nisso?

Até hoje eu entro na Etna pra olhar a decoração xD

Agora eu namoro com Yuri, que se não for a pessoa mais paternal que eu conheço, eu cegue. Yuri daria um excelente pai, a vida dele (quando não tá jogando) é cuidar dos outros. Isso é algo de se enxergar muito claramente nele, por ele ser uma pessoa completamente generosa e dedicada, sempre pronto pra abrir mão de si pra beneficiar os outros. Yuri é empático, é "kind" em todas as traduções em português da palavra. He has what it takes. Mas e agora, e eu?

Hoje em dia eu tenho estado muito preocupada com o trabalho e fico pensando... onde isso caberia na minha vida? Porque:
1) Eu odeio criança. Acho criança um bicho insuportável, um trem ruim como diria minha mãe. Eu não gosto de como elas gritam, da necessidade delas de atenção, da falta de controle, da imaturidade... não gosto de adultos infantis, muito menos dos seres que tem justificativa pra agir infantilmente haha. E acho que a maior parte do tempo em que um filho passa com os pais é sendo criança. Tendo o meu sobrinho em casa eu sei quantas vezes negligenciei ou não quis dar atenção pra ele porque chego cansada da rua, ou porque ainda preciso trabalhar, porque quero ler e me distrair, e vou te contar, ele vem no meu quarto pelo menos umas 20x todos os dias e as vezes só pra dizer "tudo bem?" e isso me irrita (às vezes muito, outras só um pouco) e eu tenho certeza que eu teria dificuldade em desviar a atenção dos meus interesses pra satisfazer uma outra coisinha.
2) Bebês são nojentos. Eu sou a pessoa que quando um amigo tá vomitando de bêbado no rolé, largo ele pra ser cuidado pelo primeiro que aparecer. Eu sou fresca e cheia de nojinho, e definitivamente me faria totalmente infeliz limpar uma bunda que não fosse a minha. Quem dirá de 3 em 3 horas.
3) A pior coisa que alguém pode me fazer é me impedir de dormir. Eu ODEIO que me acorde quando tô cansada, ficar privada de sono me transforma num bicho selvagem muito distante de um ser humano. Imagine um troço me acordar de 2 em 2h pra mastigar minha teta sensível? Acordar o tempo todo pra ser torturada, durante alguns anos? How about no?
4) Gravidez. A gravidez é como ter um parasita no corpo. Até anticorpo contra o bebê a mulher cria. A gravidez é um conflito de interesses entre o metabolismo da mãe e da criança, um cabo de guerra pelos recursos. É por isso que existe eclâmpsia, pré-eclâmpsia. Fora a labilidade emocional (que a minha já é extrema) e o meu autocontrole emocional que é tão frágil. O meu corpo que já é difícil de cuidar, imagine depois de guardar uma melancia na barriga por 9 meses. Mamilos escurecidos, teta caída, estrias por toda parte e uma Suzy que nunca mais vai ser a mesma (afinal eu jamais faria uma cesárea). Cruzes
5) Egoísmo. Eu sempre achei que era uma pessoa generosa como Yuri. Por muito tempo eu fui uma pessoa muito "giving" mas agora eu sinto cada vez mais necessidade de defender meus interesses. Cada vez mais necessidade de olhar pra mim, de cuidar de mim. Quando eu tinha Lulu eu fazia tudo por ele. Acordava cedo só pra ele ir lá fora fazer o xixizinho dele as 6 da manhã, mesmo que eu tivesse ido dormir as 5. Esperava ele voltar. Dormia com o ar condicionado na temperatura mais quente, morrendo de calor, pra ele não sentir frio. Se precisasse eu tirava a comida da minha boca pra dar pra ele, fazia tudo por ele. Mas era hábito. E ele era um cachorro. Hoje Logan não me deixa dormir e eu não consigo mais lidar com isso da mesma forma que antes. Eu esqueci como é que se dedica aos outros totalmente e não se perturba com isso. E um filho exigiria muito mais do que Logan e Lulu juntos.
6) Eles não necessariamente viram o que você quer. Imagina meu filho cristão. De direita. Ou acreditando que tudo na vida é construção social? Precisa nem dizer mais nada.
7) Carreira. De que horas vai dar pra encaixar na carreira sofrida que é ser prof universitário, ter um filho? Depois do mestrado, sem emprego, sem bolsa? Pra minha mãe criar? Depois do doutorado, pras publicações ficarem obsoletas, eu sem dinheiro e sem ser professora? Ou sendo professora, tendo que deixar o filho em creche com poucos anos de idade, com terceiros que nunca vão fazer por ele o que eu faria... Simplesmente parece que não tem hora boa pra isso. Criando só Yuri já é difícil de estudar. Imagine Yuri + um ou dois mastigadores de tetas. Lattes pra atualizar, etc.
8) Eu nunca entendi porque os pais gastam dinheiro com filhos. Eu sempre pensava "Por que meu pai me dá tanto dinheiro que podia gastar com ele, se eu não dou retorno nenhum de nada pra ele?". Que tipo de investimento é esse em que você dá tudo pra não ter nada em troca. Só o fato de eu não entender a essência da relação pai-filho já torna uma extravagância eu ter filhos. Com todo o dinheiro que eu podia investir em um filho, eu poderia viajar, aprender tantas coisas, construir memórias pra mim, conhecer tantas possibilidades...
9) Mundo cruel. Infelizmente pra todo lado que eu olhe (como queria ver algo diferente!) só vejo pessoas alienadas se reproduzindo. Pessoas com ideias na cabeça incompatíveis com a criação de seres humanos decentes e saudáveis mentalmente. Não é com esse tipo de gente que eu quero que Ulysses/Ceres (sim os nomes imaginários dos meus filhos) convivam. Não é nesse mundo desgraçado pela destruição ambiental, de guerra iminente, de gente podre que eu quero que eles vivam. Então não tem lugar pra eles. Mal tem lugar pra mim na maior parte do tempo...

Hoje eu tava olhando o SIGAA de Yuri, a previsão de conclusão de curso dele é 2017.2. Mas faltam ainda quase mil horas. Significa: ele só se forma perto de 2020, porque C&T + engcomp, isso no melhor dos cenários. Quando eu tiver 27 anos e com sorte, no final do doutorado. E isso me fez ter o choque de realidade necessário pra escrever esse texto. Desculpem mãe e pai, mas eu não vou reproduzir.