sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Indiana, let it go

I, i do declare i was surprise to see you stay
only to be betrayed by the one you gave all your love and trust to...



Eu adoro essa frase. Nunca assisti o filme, mas sei relativamente o contexto da cena. Em Indiana Jones e a Última Cruzada, ele passa por poucas e boas junto com o pai pra tentar recuperar o Santo Graal. Num dado momento o chão se abre e o pai segura ele, e ele segura o cálice na outra mão. Então o pai dele diz "Indiana, let it go." Eu sempre penso nessa frase quando me apego demais a qualquer coisa, ou quando vejo alguém apegado demais a qualquer coisa. Indiana, let it go.

[cheguei em casa strunk (stoned+drunk) e vou tentar continuar esse texto que comecei hoje a tarde antes de cochilar]

Tinha um roteirinho. Eu até me greei no ônibus pensando no que ia escrever hoje. Ontem eu fui estudar o conteúdo da aula que vou dar (estratégias reprodutivas de longo prazo femininas), e a cada página de preferência feminina que eu lia era "vixi, exatamente o oposto que Nathan fazia" haha. Compromentimento, confiabilidade, segurança... ahhahaahha. E o pior é eu estudar e ficar pensando nisso. Que patética... é como na música do Led "said you've messed up my happy home... made me mistreat my only child... my child sendo a evolução, meus estudos, o mestrado...
Tem sido como ficar deitada na cama. Meu relacionamento com ele. É como quando você coloca o despertador pra acordar, mas você foi dormir tão tarde ontem. Você tem tão poucas horas, e vai acordar cansado. Aí você quer continuar na cama mais um pouco. Porque a cama é quentinha, macia, confortável e você se sente bem nela. A minha cama com edredom debaixo do ar condicionado em 17ºC e numa conchinha confortável. E você tá cansado pra caralho. É isso que esse relacionamento era pra mim. Por isso é difícil sair, deixar, parar de dormir cheirando a camisa. Que inclusive eu já cheirei quando cheguei em casa; que faço sempre. É como um oi, cheguei de novo. Oi, hoje eu beijei outro cara, você me perdoa? Eu tomei banho pra não estragar o cheirinho. Me perdoa e não perde o cheirinho, por favor. 
Dwelling, dwelling on the past
Eu até sonhei que você morria. Foi horrível. Cada músculo do corpo deixando de funcionar... como eu assisti Lulu deixando de funcionar também. E eu pensava que não, que era impossível, era impossível você morrer...
A gente jogou sinuca hoje e eu pensei que você ia gostar de estar lá. Sempre tem uns momentos em que eu penso assim "se ele estivesse aqui ele estaria gostando disso"... Indiana, let it go. 
Às vezes eu acho que consegui gostar mais de você do que você gosta de si
Talvez eu devesse ficar em casa e admitir a minha tristeza ao invés de ficar por aí fingindo que tá tudo bem. Ou tá tudo bem e eu tô fingindo que tá tudo mal? Me perdi. Perdi. The art of losing isn't hard to master... era uma boa lição pra você, talvez. Eu devia ter desconfiado desde essa história de jogar o jogo de perder. Que você não gosta nem um pouco disso...
40% do tempo brigando. Quem calcula essa porcentagem, e nem esse tanto anyway
Me disseram que a palavra pra te descrever era "arrogante"
"Quem já sabe de tudo não aprende nada novo"... dizia o Blind dog Fulton no filme de Blues
Indiana,

terça-feira, 27 de setembro de 2016

The future is uncertain and the end is always near

Don't you love her madly?
Don't you need her badly?
Don't you love her ways?
Tell me what you say
Don't you love her as she's walking out the door
Like she did one thousand times before?

Tudo bem, devo admitir que há beleza na dor. E não ter ansiedade pra pular fases. E suportar, suportar. Devo admitir que há algo de interessante em ficar ouvindo Don't look back in anger, Hell is living without you, November rain, Since I've been loving you, ou o Soft Parade inteiro pra me embalar. Em ficar procurando algo de diferente pra fazer, preencher o vazio que sobrou no lugar do tempo que era spent with you. Outro dia eu baixei um filme sobre Blues. Esse filme me fez querer saber mais sobre blues e adivinha... a maior parte das músicas do Led Zeppelin I é regravação de músicas de Willie Dixon, um dos maiores nomes do Blues. O cd que você me deu, lindo no encarte da Atlantic Records, que decora meu quarto na minha parte preferida dele, onde ficam meus livros. Peguei ele pra ouvir, nunca tinha ouvido, e quando abro "parabéns Catiora. Assinado Catioro". Quando você me deu esse cd eu fiquei tão feliz porque pensei "ele prestou atenção no que eu disse. Que eu me desfiz de algo importante pra mim por uma besteira e agora ele tá me dando de volta, ainda melhor do que aquilo que eu tinha". Foi bonito... será que você sentiu algo parecido algum dia, por alguma coisa que eu fiz?
O namorado de Sarinha morreu. Lembro quando a gente conheceu ele. Ele tava vendendo cerveja e a gente tinha acabado de ser assaltado na Ribeira. Ele te vendeu umas gelas... teve um ataque cardíaco de repente, e ele tinha só trinta e tantos anos. Lembra quando a gente tava conversando aquela vez, que eu te disse que gostava de saber que tava aproveitando o máximo que podia porque a gente poderia morrer de uma hora pra outra e eu não queria me arrepender? E você me perguntou se eu achava que tava aproveitando, coisa assim. Eu achava sim, mas como uma frase dita por um demônio no filme "Ain't nothing ever as good as we want it to be". Porque quando olho pra trás eu sempre sinto que queria mais. E antes de dormir eu costumava pensava em você. E quando eu sentia medo de morrer, de deixar de existir, quando eu achava que a vida não fazia sentido eu lembrava de como era bom estar com você e isso já era motivo suficiente pra fazer valer a pena o fato de eu estar aqui e passar por todo esse sofrimento de enfrentar uma vida com um relógio em contagem regressiva. E por isso eu sempre pensava que no dia seguinte eu ia fazer melhor ainda e te olhar mais e te tratar melhor e não me estressar com coisas pequenas... e você sempre me deu uma sensação de "love me two times, i'm going away". Não podia take it for granted, take you for granted. Eu fico me perguntando se ela se arrependeu de algo que não fez por ele, algo que não disse. Se ela se arrependeu por não aproveitar. E pensando se você teria algo pra me dizer se soubesse que eu ou você iríamos dormir e no outro dia não acordar mais. Eu teria muitas coisas pra dizer... mas a gente sempre acaba esquecendo que isso é possível, não é? E o Roadhouse Blues diz the future is uncertain and the end is always near...
No filme tem uma cena em que o personagem principal é largado por uma mulher. E o Willie Brown diz pra ele "Blues ain't nothing but a good man feeling bad thinking about the woman he once had". Aí eu percebi que deveria voltar a tocar guitarra. Eu nunca toquei nada pra você... e enquanto tocava lembrei da vez que a gente tava sentado na cama e você puxou seu violão/guitarra (a memória já começa a falhar...) e ficou tocando uma música bonita que eu conhecia. Eu fiquei olhando pra você sorrindo e você me perguntou o que foi e eu só disse "nada, só tô achando bonito você tocando". Só... e eu quero te transformar em blues também.



Tenho sonhado com você todos os dias, como da outra vez que terminamos. Daquela vez, o conteúdo dos sonhos era de ciúmes, perseguição e decepções, mas agora são sempre coisas boas: um dia sonhei que você sentava no meu colo e encostava a cabeça no meu ombro e me pedia desculpas pelas coisas que fez; no outro dia sonhei que eu mostrava pra minha mãe que conseguia te segurar nos braços e depois a gente ia ver a chuva cair no meu jardim, e até de ontem pra hoje, que você disse várias coisas pra me ferir, eu ainda sonhei com a gente combinando de ir pra uma casa de praia. 
Eu achava que vinha sonhando com você por dormir abraçada com a camisa que você me deu, que ainda tem cheirinho. Outro dia cheguei em casa bêbada e fiquei um tempão pensando se eu cheirasse a camisa demais ela ia perder o cheirinho, ou talvez no contato com meu corpo ou se eu guardasse na gaveta, ou se minha mãe colocasse pra lavar enquanto eu não tava em casa... ou se eu ia deixar de gostar de você antes de perder o cheirinho e aí não teria mais com o que me preocupar. Mas ontem eu não quis dormir com ela e mesmo assim... talvez meu cérebro goste de simular memórias felizes pra me dar de presente por entender que nenhuma dessas memórias poderá mais ser criada no mundo real.
Tô com tanta pena de te esquecer. Queria que tivesse como guardar um pedacinho daquela pessoa que conheci no começo do ano. Já pensou se a gente pudesse colocar numa caixinha, num dispositivo, e pudesse revisitar aquela memória sempre que quisesse? Sentir todos os detalhes, os mesmos sentimentos... eu ficaria com um dos dias logo no começo, você era tão inocente e doce. O homem mais meigo que  já conheci, um gatinho manhoso de olhares demorados... você era tão especial pra mim e era tão fácil escrever sobre você, porque você era como um anjo, um muso... você atravessou toda a minha frieza and reached me. Derreteu meu coração com o seu jeito de ser. E eu vivi por isso por muito tempo... você ainda tinha isso dentro de si antes de me dar as costas. Sinto muita saudade desse seu lado... mas o tempo se encarregará de transformar o meu apego numa lembrança vaga. Eu só quero poder escrever, escrever e lembrar. Porque se eu não transformar isso em material, tudo vai se perder. Eu passei 3 anos namorando com um cara, me peça pra citar 3 dias que passei com ele. Eu simplesmente não lembro. Que triste perder você e tudo que eu criei e construí. Todo o amor e o carinho, o tormento, a intensidade, as tristezas, o encantamento, a alegria, as decepções... it was a nice ride mas eu espero que isso sirva de lição pra eu não me apaixonar nunca mais, por ninguém. 

domingo, 18 de setembro de 2016

"Sometimes you can't sleep because your brain and heart feel so full and overwhelmed with the goodness and blessings of life. How fragile it is and how precious. I want to spend every day appreciating every moment to the fullest and serving God, my family and the people of the world who I effect, in a positive way. If I can't do that, I am nothing. The beauty you create and the sweetness you share changes the world in ways you may not even see...never stop trying to be broken, be vulnerable, be a mess, that's how we grow and become the best version of ourselves."

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Saldo

Um dia Vitória me mandou um vídeo da Viviane Mosé sobre sofrimento. Resumidamente, ela dizia que "o sofrimento é o rompimento da alma pra que ela possa se tornar maior". Pensando em alguma relação com a natureza, só me vem à cabeça o exoesqueleto. Eu não sou bióloga, mas a pouca noção que tenho é a de que os animais que tem esqueleto externo precisam se soltar de dentro dele de tempos em tempos, pra poder criar outro maior. Outro no qual eles caibam, com seus novos tamanhinhos. E durante um período de tempo, eles ficam expostos e frágeis. Até que sua nova carcaça cresça e volte a os proteger. 

Esse foi um ano em que meu exoesqueleto foi rasgado à força várias vezes. E todas as vezes que isso aconteceu, eu construí outro com um tamanhinho maior do que o anterior. A força vem da dor e da fraqueza. A adaptação só pode vir da variação. E o verdadeiro conceito de evolução (biológico) é adaptação. Evoluir é adaptar. Porque cada vez que me tiraram um exoesqueleto eu fiquei maior e não tinha mais como voltar pra aquele de antes. Precisava de um novo, e outro, e outro.

Por que os animais não nascem com todos os comportamentos pré-programados geneticamente? Por que existe aprendizagem, se o aprendizado tem custos? Se o aprendizado demora? Se existem comportamentos inatos, se existem padrões fixos de ação, por que TODOS os comportamentos não são logo assim? A primeira vez que me fizeram essa pergunta eu fiquei intrigada, mas a resposta é simples demais. A aprendizagem permite que o animal se adapte ao ambiente muito mais do que o comportamento inato. Ele pode custar mais tentativas e erros, mas num ambiente que varia, o aprendizado é extremamente vantajoso. Porque se você nasce pra agir de forma x, e o ambiente oferece y que não condiz com x, se fudeu, você vai ser extinto. Mas se você tem a chance de aprender, você saberá lidar com x e y. Talvez aprender seja a coisa mais bonita que existe na vida. Pelo menos enquanto seres humanos. Mesmo os animais que possuem comportamentos inatos são capazes de melhorar alguns deles com o tempo. Ou seja, podem aprender a fazer melhor mesmo aquilo que já nasceram programados pra fazer.

Eu sinto que foi isso que fiz nesse ano. Aprendi, aprendi tantas coisas. A vida se encarregou de criar caminhos espinhosos pra que eu pudesse ferir meus pés descalços neles. Pra que eu pudesse ser outra. Eu cresci muitos anos em poucos meses. E ainda tenho muito mais pela frente. Se eu fosse explicar a minha situação atual, eu me colocaria num meio termo entre Learning to Live e Simple Man. Tenho aprendido a perder, a ser simples. A procurar a simplicidade, a beleza, a verdade e o que é singelo. Venho encontrando quem sou e quem quero ser, me espelhando em exemplos, buscando dentro de mim o que verdadeiramente sinto. Eu tenho encontrado humildade, serenidade, paciência, gentileza, bondade, solicitude, carinho, amor, generosidade, determinação. A dor me torna mais próxima de ser quem eu sou toda vez que aparece. Tenho viajado pra dentro, a fundo. Me conhecido. E sentido mais carinho por essa pessoa que observo no espelho. Outro dia eu até saí de cabelo cacheado e me senti bem, me senti bonita. Agora eu costumo admirar meu corpo, que vai tomando a forma que eu desejo conforme minha dedicação. Estou escutando tão bem a voz que conversa comigo de dentro que percebo a cada dia o que sinto e porque sinto. Contemplo.

Hoje Marié me disse assim "sabe quando você vê uma mulher e queria trocar de corpo com ela? E queria ser ela? Você seria quem?" e eu mandei um "Megan Fox" bem genérico. Mas eu não queria ser a Megan Fox, porque a Megan Fox obrigatoriamente teria outra vida, e eu não quero. Eu quero essa que ganhei do acaso, do jeito que ela é. Um dia eu publiquei no meu antigo blog ~horrorrshow~ um trecho que dizia "e não há mendigo que eu não inveje, só por não ser eu". E quando eu revi essa frase eu senti que hoje já era tão fortemente o contrário. É mais comum eu me preocupar que os outros não estejam vivenciando emoções tão boas de sentir quanto as que sinto. Quando encontrei Mari ontem, eu estava bem mais tranquila do que no dia anterior, quando a encontrei também, em que eu estava totalmente inquieta, gaguejando, estranha... e eu refleti sobre o quanto eu estava bem: estudando o que amo, na área onde me encontrei, cercada de pessoas que gosto, apreciando os momentos enquanto eles acontecem. Eu não escolhi nada, mas Epicuro me ensinou a me alegrar com as coisas simples. Com o que tenho. Com o calor do sol da minha cidade, com o cinza da chuva ocasional. Com o amarelo forte dos ipês floridos, com os olhos de piscina de Marié, as covinhas do sorriso de Nathan e os abraços apertados de Vitória. É tanto amor que eu só posso dizer que o meu saldo é sempre positivo. Mesmo depois de tudo. E eu não troco de lugar com ninguém. 

sábado, 10 de setembro de 2016

"Volte trinta mil anos no tempo em uma máquina do tempo. Conheça alguns espertos Cro-Magnons na França pré-histórica. Explique nosso moderno sistema de capitalismo consumista para eles. Será que a expectativa de prosperidade, lazer e conhecimento crescente os motivará a inventar a agricultura, a criação animal, cidades muradas, dinheiro, classes sociais e o consumo conspícuo? Ou eles iriam preferir estagnar em seu nível de cultura Aurignaciano, partindo carvão e pintando cavernas? (...)

Você encontra alguns Cro-Magnons numa tarde, e explica que nossa cultura oferece uma vasta cornucópia de bens e serviços para demonstrar as qualidades pessoais de alguém de dez mil novas maneiras para milhões de estranhos. Alguém pode adquirir esses displays de mérito pessoal "comprando-os" com "dinheiro" ganhado através de "trabalho qualificado". Você promete que se eles persistirem em sua obssessão de quebrar carvão, então em apenas alguns milênios seus descendentes serão capazes de aproveitar inovações culturais como a irrigação do cólon e o YouTube. (...) Você abre espaço para algumas perguntas da audiência. Um dos machos adultos dominantes, Gérard, tem escutado com entusiasmo, e parece ter compreendido a ideia. Mas Gérard tem certas preocupações - algumas delas podem soar extremamente sexistas para seus ouvidos modernos, mas no espírito da objetividade científica você se sente na obrigação de respondê-las com honestidade. Gérard pergunta:

Então, Homem-do-Futuro, com esse negócio de dinheiro, eu posso comprar vinte mulheres jovens dispostas a ter meus filhos?

Não, Gérard. Desde a abolição da escravidão, não podemos oferecer sucesso reprodutivo genuíno na forma de parceiros férteis a venda. Existem prostitutas, mas elas tendem a usar contracepção.

G: Bem, então eu terei que seduzir as mulheres para que elas queiram procriar comigo. Eu posso comprar mais inteligência e carisma, melhores habilidades de contar histórias e piadas, mais altura e musculosidade?

Não, mas você pode comprar alguns livros de auto-ajuda que tem algum efeito placebo, e alguns esteroides que aumentam ambas a massa muscular e a irritabilidade em 30%.

G: Ok, eu serei paciente e esperarei que os meus rivais sexuais morram. Eu posso comprar mais cem anos de vida?

Não, mas com a maravilhosa assistência médica moderna, sua expectativa de vida pode aumentar de 70 para 78 anos de idade.

G: Essas respostas negativas me enraivescem, me sinto agressivo. Posso comprar armas mais avançadas para matar meus rivais, especialmente aquele bastardo Serge, e os homens de outros grupos familiares e clãs, para que eu possa roubar as suas mulheres?

Sim. Uma escolha eficiente seria o rifle automático 12, que pode disparar cinco rodadas de fragmentos auto-explosivos anti-pessoas por segundo. Ah, mas eu acho que os seus rivais e membros de outros clãs e famílias provavelmente iriam comprá-lo também.

G: Então nós acabaríamos em outro nível de détente clã-versus-clã. E haveriam mais brigas letais entre jovens de cabeça quente dentro do nosso próprio clã. Então eu fico contente com minha parceira, Giselle - eu posso comprar sua devoção incondicional e orgasmos múltiplos para que ela nunca me traia?

Bem, na verdade, amantes ainda traem no capitalismo; a incerteza da paternidade persiste.

G: E quanto à mãe e a irmã de Giselle... será que eu posso lhes comprar personalidades mais gentis, para que não façam tantas críticas sobre meus pontos fracos?

Infelizmente, não.

Então Giselle, parceira de Gérard interrompe com algumas perguntas próprias, que você responde com cada vez menos ânimo:

Giselle: Homem do futuro, eu posso comprar um amante bonito, charmoso e de alto status que nunca irá me ignorar, me bater ou me deixar?

Não, Giselle, mas nós podemos oferecer novelas românticas que descrevam aventuras fictícias com tais amantes.

G: Posso comprar mais irmãs, que irão cuidar dos meus filhos pequenos como se fossem seus, enquanto eu estou longe colhendo groselhas?

Não, empregados que cuidam de crianças tendem a ser garotas mal pagas, sobrecarregadas e mal educadas que se importam mais em mandar mensagens para seus amigos do que cuidar dos filhos de estranhos.

G: E nossos filhos adolescentes – Justine e Philipe? Posso comprar seu respeito e obediência, e bom gosto para que escolham bons parceiros?

Não, marqueteiros irão fazer-lhes lavagem cerebral para que eles ignorem sua sabedoria social e para que façam sexo com qualquer um que use roupas da Hollister ou beba Mountain Dew AMP Energy Overdrive.

G: Zut, alors! Mange de la merde et meurs! Esse negócio de dinheiro parece inútil. Pelo menos eu posso comprar uma carcaça de mamute que nunca apodreça? (...)

O resto da audiência permanece cética. Você tenta reconquistar o interesse deles explicando todas as coisas para acampamento que o consumismo oferece para os móveis Cro-Magnons: óculos de sol, facas de aço, mochilas e tênis de trilha e corrida. Então a mãe de Giselle, Juliette pergunta “Então, o que precisamos fazer para ter essas facas e sapatos?” Você explica “Tudo o que você precisa fazer é sentar em salas de aula todos os dias por 16 anos para aprender habilidades contra-intuitivas, e então trabalhar e viajar diariamente 50 horas por semana por quarenta anos em empregos tediosos para corporações amorais, longe dos seus parentes e amigos, sem nenhum cuidado infantil decente, senso de comunidade, empoderamento político ou contato com a natureza. Ah, e você vai ter que tomar remédios especiais para evitar o desespero suicida, e para evitar ter mais do que dois filhos. Não é tão mau, sério.” (...)

É verdade, a vida moderna pode ser uma maravilhosa “Funky town” para o 0.01% mais rico da população do planeta. Entretanto, uma avaliação mais justa iria contrastar a forma de vida de um humano pré-histórico médio e o estilo de vida de um humano moderno médio.

Considere o Cro-Magnon comum de 30 mil anos atrás. Ela é uma mãe de três filhos saudável de 30 anos de idade, vivendo em um clã fechado de família e amigos. Ela trabalha apenas vinte horas por semana coletando frutas orgânicas e vegetais e flertando com homens que lhe darão carne criada ao ar livre. Ela passa a maior parte do dia fofocando com amigos, amamentando seu bebê mais jovem, e assistindo suas crianças brincarem com os primos. Ao entardecer ela desfruta de narração de histórias, catação, dança, tambores e canções com pessoas que ela conhece, gosta e confia. Apesar de que ela só é medianamente inteligente, atraente e interessante, a maioria dos seus companheiros de clã também o são, então eles convivem bem. Seu namorado também é somente mediano, mas eles frequentemente têm ótimo sexo, uma vez que os machos evoluíram maravilhosas novas formas de preliminares: conversação, humor, criatividade e gentileza (cerca de uma vez por mês, ela se encontra secretamente com seu enigmático amante, Serge, que tem 11 assassinatos de Neandertais confirmados, mas cujo toque é como chuva quente em flores alpinas). Toda manhã ela acorda gentilmente ao nascer do sol sobre os seis mil acres da costa verdejante da Riviera francesa que pertence ao seu clã. Dado que a taxa de mortalidade é muito baixa após a infância, ela pode esperar mais quarenta anos de vida, durante os quais ela vai crescer cada vez mais valorizada como uma mulher de sabedoria e status.

Agora considere o trabalhador americano médio no século XXI. Ela é uma caixa de 30 anos solteira, que dirige um Ford Focus e vive em Rochester. Ela é medianamente inteligente (QI 100), tendo tirado Cs em algumas cadeiras antes de abandonar a faculdade da sua comunidade local. Agora ela tem esse trabalho no varejo, trabalhando 40 horas por semana no Piercing Pagoda no shopping EastView, a 50 milhas dos seus pais e irmãos. Ela é só medianamente atraente e interessante, então ela tem alguns amigos, mas nenhum namorado estável. Ela tem que tomar as pílulas Ortho TriCyclen para evitar engravidar de seus encontros sexuais bêbados com estranhos que raramente retornam suas ligações. Sua estabilidade emocional é somente mediana, e porque Rochester é escura durante todo o inverno, ela toma Prozac para evitar o desespero suicida. Ao entardecer ela assiste TV sozinha. Toda noite ela fantasia ser amada pelo Johnny Depp e amiga da Gwen Stefani. Toda manhã ela acorda ao som do despertador próximo da sua planta falsa de borracha chinesa, em seu apartamento de 180m². Graças à medicina moderna, ela pode esperar mais 45 anos de vida, durante os quais ela irá se tornar cada vez menos valorizada como um obsoleto fardo para a assistência médica. Pelo menos ela tem um iPod..."

Darwin vai ás compras - Geoffrey Miller

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

The hazards of writing

21/08/2015

The hazards of writing
Aqui estou hoje repetindo um ritual praticado pela última vez muitos anos atrás, o qual consiste em apagar todas as luzes de madrugada, abrir um arquivo do word e escrever. Escrever é um processo difícil, lento e doloroso. Quando você fala de si, e do que sente... primeiro precisa agarrar seu coração com as unhas, e apertar até sair um pouco de sangue. Esse sangue é de onde vem as palavras, que vão a indicar as suas dores.

Aqui estou hoje repetindo um ritual praticado pela última vez muitos anos atrás, no tempo em que minha vida era como uma irresponsável e impulsiva direção embriagada. Nessa época eu não pensava em morrer, finitude, angústia, e muito menos em prazos a cumprir, contas a pagar e deveres a honrar.
O ritual consiste em me sentar diante da tela do computador e me despir dos pudores dos barulhentos e afiados julgamentos humanos. Aqui, no escuro silencioso da madrugada, eu posso ser quem sou, e confessar o que eu sinto, para que ninguém possa ouvir. Quando eu era criança, herdei uma coleção de livrinhos de contos de fadas (aqueles dos irmãos Grimm), e o meu preferido era o da Guardadora de Gansos. Os livrinhos vinham com fitas cassetes com as histórias narradas e momentos cantados. A minha parte preferida era quando o rei sugeria a guardadora de gansos contasse seus segredos pra uma sala vazia, e até hoje sou capaz de cantar essa parte da canção. Quando contamos nossos segredos pros outros, eles saem contaminados. Contaminados com o que gostaríamos que os outros pensassem de nós. Somente quando falamos sozinhos, é que podemos dizer a verdade. Então eu estou aqui, pra lapidar minhas dores nas mais belas palavras, pra que assim eu possa encontrar beleza na escuridão, e quando olhar pra trás, enxergar ela e nada mais. Escrever não é algo fácil. Precisamos agarrar o coração com as unhas, e deixar sangrar, suportando a dor. Quanto mais tempo você suporta, melhor é capaz de ouvir o que realmente está dentro de si.

Eu olho pra mim hoje e o que eu vejo... alguém entorpecido emocionalmente. Eu me tornei com o tempo, Comfortably numb. Eu esqueci a sensação de ser desejada, e de me desejar. Esqueci a sensação de me sentir no topo do mundo como antes. Esqueci a sensação de que eu tinha tudo em minhas mãos. E agora o que eu tenho são os monos... monotonia, monogamia, monólogos, monografia.

Eu preciso correr.
Eu cometi um erro.
Erro desses que consegui passar muito tempo longe de fazer.
Eu confessei meus sentimentos verdadeiros pra alguém.
Eu não suporto o impulso. O amor dói, queima, espanca, arde e faz tudo de mal.
Eu não posso sentar na janela como um cãozinho que espera pela volta do dono.
Eu não posso me deixar ajoelhar diante de ninguém.
Falling in love is the road to Awe

Ontem eu passei a noite acordada de madrugada depois que você falou comigo. Eu não conseguia dormir, o coração batendo num ritmo anormal, o espírito mergulhado numa alegria ingênua e completamente tola. No silêncio da madrugada em que eu só teria a minha disposição um par de horas pra dormir, meu cérebro não me deu descanso enquanto não sonhou com uma dezena de situações que poderiam seguir os nossos dias, adiante. Eu sou assim mesmo, eis a dimensão da minha estupidez. Eu sou a pessoa que perde o sono imaginando lindos momentos tão obviamente impossíveis de acontecer. Eu sou aquela pessoa que sonha em ouvir todos os álbuns do Pink Floyd com a outra. Que imagina como seria o toque das mãos, o encontro. Que sonha em sentar no bar com alguém e falar todas as verdades depois de um pouco de álcool pra dar impressão de que foi sem querer. Eu sou a pessoa que consulta o celular toda hora tal qual o cãozinho que espera o dono voltar do trabalho olhando pela janela. E você, o que é... eu não tenho nem coragem de saber. Não tenho coragem de admitir que os sonhos sejam mais que sonhos. De deixar que a coleira e correntes se quebrem. De permitir que a vida se torne tão imprevisível quanto uma cuspida no ventilador. De me tornar mais do que um estranho pra alguém. De aceitar que as letras das músicas passem a significar algo de novo. De sentir a mais profunda satisfação com a mera existência. De sorrir na rua perdida em devaneios. Me assusta a forma como a paixão nos deixa ao relento. Nos faz servos. Nos faz sedentos, viciados. Me assusta a forma como corremos vigorosamente só pra depois voltar pro mesmo lugar como se fóssemos atraídos por uma força magnética. Nos faz capazes de milhares de profundas reflexões em um minuto, sopra na vida comum o lirismo, às custas das dores de cabeça. 

Letter to mom

18/10/2010 - Esse texto foi escrito quando eu tinha 17 anos. Algumas coisas mudaram, mas o que sinto em grande parte é satisfação por ver que mesmo criança eu já pensava em tanta coisa. Porque o sofrimento ensina... eu vivi desprotegida e foi assim que pude trilhar o meu caminho até aqui. Eu já era niilista antes mesmo de começar a ler Nietzsche...

E os poucos momentos nos quais não senti culpa são os que classifico como os melhores dias da minha vida. Você se lembra daquela carta que eu te fiz aquele ano, pedindo pra ter mais liberdade? Meus amigos riam de mim e diziam que eu vivia em cárcere privado.
Então eu armei tudo, escrevi com todo o cuidado, digitei pra não correr risco de você não entender minha letra. Coloquei dentro de um livro que sabia que você lia e esperei. Pelo que me lembro tínhamos brigado nesse tempo. Até hoje você nunca fez menção à carta, acho que nunca vou saber se você leu ou não. Eu gosto de fazer as coisas detalhadamente, e bem feitas. Não sei se você reparou nisso... acredito que não repare em muita coisa. Eu sinto muito por você não me conhecer, sei que não é só culpa minha que as coisas sejam dessa forma. Ultimamente isso tem me deixado louca. Sabe, não poder planejar os detalhes. Não ter força pra planejar. Eu estou aqui, ouvindo minhas músicas velhas, relendo meus livros antigos, falando com meus velhos amigos. E por mais que consiga músicas novas não as ouço, os livros já comprei um atrás de outro e eles se empilham na minha mesa. Todos os dias coloco de novo na minha cabeça que tenho que viver um dia após o outro, e a cada dia está mais difícil aceitar isso. É como se eu não pudesse fazer alguma coisa sem saber no que vai dar, entende?

Como se eu quisesse uma solução duradoura, e não que me obrigasse a viver um dia após o outro assim, me esforçando. Eu queria engolir minhas palavras. Tenho sido muito sincera. Eu estou cansada, e nem sei de quê; eu já não faço nada mesmo, não consigo fazer. As coisas estão difíceis porque perderam o sentido com uma simplicidade inexplicável. Perderam o sentido, e só. Perderam o sentido há algum tempo. De tudo que faço nasce uma dúvida, que me impede de fazer. Eu já não sou capaz de criar situações grandiosas pra escrever, não tenho coragem. Eu já não me interesso por nenhuma matéria da escola. Não tenho mais ânimo de tocar. Vejo minha vida se enrolando feito cromatina em atividade e não consigo me levantar pra desenrolar ela. Eu queria ficar aqui deitada, a sensação de que tenho é que jamais fiquei deitada até me cansar de estar deitada. Eu poderia ficar doente e passar uma semana deitada. Desistir. Eu não aceito fazer as coisas puramente por prazer, porque isso não tem sentido. O que me dá prazer não tem sentido, e o que não dá tem menos ainda. Eu não posso fazer as coisas assim, simplesmente por fazer. Preciso ter um motivo. Ganhar minha vida não é motivo. Que importa minha vida? Eu não sou ninguém, e nunca vou ser. Sou medíocre, nada. É isso que eu penso. Eu sou só nada, e tudo é nada, pare pra pensar! Um monte de criaturinhas pequenas vivendo num ecossistema que chamamos de Terra dentro do espaço infinito que chamamos de Universo, e pra quê?

Se você enxergar as coisas macroscopicamente vai ver que não é ninguém, e nem eu. Se um meteoro quiser acabar com nossa raça agora ele o faz. Pena que meteoro não tem consciência. Ou tem e a gente não sabe. Quem somos nós pra dizer o que um meteoro é ou deixa de ser? Nós só estamos aqui, cheios de orgulho, matando uns aos outros, sentindo que o universo deve nos servir e muito focados em nossa própria vida sem valor nenhum. Nós caminhamos a passo de tartaruga descobrindo e acumulando nossos conhecimentos – nós, é claro, achamos que é um processo acelerado, pois mal somos capazes de respirar por um século inteiro -, e depois de tanto tempo, temos alguma coisa. Dizer que possuímos um por cento do conhecimento seria pretensioso ainda. Nós não somos nada, e não sabemos de nada. E isso é minha perturbação até a hora que meus neurônios estiverem cansados demais pra continuar. E então toda essa vidinha insignificante vai se tornar comida de verme, e adubo de árvore. Até que o Sol resolva explodir e nos dizimar. De qualquer forma, não há sentido. Você não vê o quanto eu não queria passar por isso, não queria existir? Não tenho coragem de ir embora, também, mas se pudesse escolher não teria vindo, pra ver as coisas serem desse jeito. Pra passar dia após dia calada, me controlando. Assistindo à tudo que acontece e tentando não me importar, me transformando em mais um humano adulto medíocre. De tanto não me importar nada importa, e ficou por isso mesmo. Mas são muitos pensamentos, muitas coisas a dizer. Pra que tantas conquistas! Estou assustada. Sozinha. Queria jogar toda a minha bagagem nas costas de alguém, que dissesse o que eu devo fazer.