quarta-feira, 31 de agosto de 2016

23/09/2011

Sentir-se mal no próprio corpo
O que é essa angústia que venho sentindo esses dias
E me deixando cada vez mais incapaz de ficar só comigo mesma
De não aguentar meus próprios pensamentos e sentimentos
Por que em alguns períodos de tempo o tratamento de uma pessoa específica rege o nosso humor
Ou como pode ser, por que comigo?
Minhas mãos estão frias e eu continuo à deriva
Nesse mar gelado e profundo, será que nunca vou me afogar?
Por que ninguém me joga uma corda, ou estende a mão?
Eu quero sentir o calor que o movimento dos músculos produz e logo toma conta de um lugar cheio
Ou quem sabe ainda o calor sentido num abraço de alguém no quarto vazio mesmo?
Só quero um lugar pra estender minhas roupas no sol junto com meus cabelos molhados
Cada vez mais parece que essa sensação de aquecimento se afasta
Minha pele constantemente arrepiada
E eu tenho dessa forma os sintomas somáticos da solidão
Posso me enrolar num cobertor, ainda estou congelando
Quem sabe o efeito que teria um olhar de compreensão direto nos meus olhos
Qualquer um que não trouxesse a frieza obrigatória do cotidiano
E eu que desejava afogar todas as lágrimas de uma vez no travesseiro
Não consigo nada além de um nó na garganta
Que me dá a impressão de me deixar cada vez mais sufocada

E aos poucos vou parando de falar... 

Jardim

13/06/2011

Quando eu era criança eu gostava de ler. Um dia eu sentei na biblioteca da minha escola e li um trecho de um livro (agora não sei se achei no meu livro de português ou se era livro de conto, de poesia...) que eu acho que é até conhecido, um que dizia alguma coisa como a gente deve cuidar do nosso jardim, das flores, e essa coisa toda. Sempre fui ruim de imaginação, então na hora não consegui me imaginar como um jardim, embora sempre tenha achado essa idéia bonita. Vamos pensar assim... o meu interior é um jardim. É um jardim sem limites, as plantas são todas afastadas umas das outras porque há muito espaço. Nele crescem árvores grandes como o carvalho (que é minha árvore preferida e também o meu nome), a aveleira, o pinheiro e quem sabe a cerejeira que quando recebe um vento ao florescer faz uma espécie de chuva de pétalas delicadas. O chão é todo coberto de grama mas em alguns pedaços ela é rala, e dá pra sentir o cheiro e ver a terra escura por entre os fiozinhos escassos de grama que quem sabe não recebem sol o suficiente pra crescer. O vento sopra gélido independente da hora do dia. Um rio que é também mar e que não tem começo nem fim corta o jardim em um dos pontos; nele vivem todas as criaturas da água: tubarões e baleias, focas e golfinhos, ostras e estrelas do mar, peixes grandes e pequenos, águas-vivas, polvos, lulas gigantes, cavalos-marinhos, arraias e tartarugas. Na beira do rio existem famílias de sapos dourados que cantam durante a noite enquanto os grilos fazem uma espécie de segunda voz. O meu pequeno cachorro mora aqui também, junto com todos os meus gatos que um dia moraram comigo mas já se foram, não sei se pra morte ou pra liberdade. Aqui florescem orquídeas, rosas, tulipas, lírios e a variedade de flores que já vi mas não aprendi o nome. Toda vez que escrevo brotam novos ramos de flores. A música cai dos céus na maior parte do tempo, a porta do céu são meus ouvidos. Quando ouço Stairway to Heaven eu pego o meu violão cor de madeira e toco a parte da guitarra pros meus animais.


Não sei porque ultimamente o sol não tem feito a mínima diferença por aqui esses dias. 

3/10/2011

Dos textos encontrados no hd...

Depois de mais um dia na multidão eu sinto cada vez mais vontade de ficar em paz. Quem sabe numa floresta? Eu gosto de uma banda que tem um álbum chamado “Spirit of the Forest”. Espírito da floresta, imagina só. Eu tenho um carinho muito grande pelo simbólico. Pelas palavras, imagens, sonoridades. E sempre gostei bastante dessa palavra, “floresta”. Mas independente de estar na floresta ou não, acho que só preferiria não estar no meio dos outros. Como me doem o tratamento diferenciado à aqueles que são tidos como mais importantes, as bajulações, o silêncio de respostas interrompidas pelo descaso. Me dói observar aqueles que falam e não são respondidos, ou até mesmo quando eu falo e não respondem. Os assuntos idiotas, a falta de assuntos. O sorriso mentiroso nos encontros que não rendem prazer, mas que são fingidos como tal. As conversas moles que falseiam a preocupação com o outro. As segundas intenções presentes no discurso, nos olhos, nos convites, nos toques. Os julgamentos, o desrespeito. Que desprazeroso ver a feia massa se tumultuando, buscando a fuga, quem sabe o prazer imediato. Vomitando no chão e perdendo as rédeas do próprio corpo muitas vezes. Que desgraça assistir as cenas, os berros quase que pré-históricos, assim como as demonstrações de poder e masculinidade quase que primitivas também. Quebrar garrafas com os pés, empurrar, derrubar, bater uns nos outros. Uns ambientes que pra tantos são de diversão, como não posso compreender, pra mim são de hostilidade. 


Os gritos desesperados de “me olhem, eu existo”. Eu sei que vocês existem. E não estou nem um pouco satisfeita com isso. 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Sweet nuthin'

16/06/16 - found memories...

Hoje é dia 16. Só quatro dias depois do Dia dos Catioros, Fake Valentine's Day, é o nosso aniversário de dois meses de nada, baby!
Esse texto eu vou escrever só pra você. Porque tem coisas que vale a pena a gente guardar só um com outro. Como a gente tapa os olhos dos bichinhos de pelúcia pra eles não verem a gente transando. É como se fosse um segredo, algo pra ficar entre a gente. 
Eu queria começar por uma pergunta que você me fez.
Nathan Clemente
Baby, do you think you will like me as before someday?
Do you think I can make it out for my previous mistakes?
Eu penso muito nas coisas que você fala, baby. Eu sei que as vezes eu me preocupo demais, eu calculo demais. Mas em outras eu chego a boas conclusões. Eu tinha pensado no exemplo perfeito, mas esqueci. Então vou dar outros exemplos:               
Imagine, gato, que você comprou uma casa num terreno bem bonito. Mas a casa não é lá essas coisas. Você tem duas opções pra fazer ela ser do jeito que você quer: você pode ir reformando parte por parte aos poucos, ou você pode simplesmente derrubar tudo e fazer do zero. Demolir tudo é mais caro e fazer do zero leva mais tempo. Mas vai ser exatamente do jeito que você quiser. Você pode ter uma planta nova. Virar a casa pro ponto cardeal que você quiser, colocar os cômodos nos cantos que você quiser. Você pode colocar uma estrutura que suporta vários andares. Fazer uma piscina na frente, quem sabe. Você pode criar de novo. Recomeçar.
Eu gosto de desenhar. Às vezes eu pego um papel e algo começa a pegar forma. Mas vai dando errado e eu vou apagando. Chega num ponto que o papel tá manchado e marcado pela força que minha mão fez no lápis. Mais vale pegar outro papel e começar de novo.
As grandes florestas queimam de vez em quando. Porque as cinzas nutrem as árvores. Porque tem sementes que estão presas dentro de cascas fortes que precisam ser destruídas, pra nascer. Porque só com a destruição de algo anterior pode emergir o novo. São fases.
Eu poderia dar tantos exemplos, mas acho que você entendeu onde eu quero chegar. Nem sempre ajeitar o que se tem é viável. Algumas vezes a gente recomeça do zero. E eu acho que você foi corajoso. Você teve a coragem de terminar comigo quando estava insatisfeito e quando eu estava insatisfeita. E isso foi necessário. Foi necessário que tudo mudasse. Quando você foi embora muita gente me disse que você voltaria. Que você não era louco. Mas eu não tinha tanta certeza disso. Só uma ponta de esperança porque você não quis me dar todas as minhas coisas de uma vez só. Eu podia não ter voltado. E você arriscou isso. Você arriscou tudo. E eu sinto uma mistura de remorso e admiração. Eu não arriscaria, mas talvez eu seja covarde. Porque você se joga em tudo. Porque você pede as pessoas em namoro na primeira vez que fica com elas. Você faz o que quer. Eu não. Eu fico sentada contando estrela e anotando no papel, calculando, tendo certeza, tendo cautela. Nossas personalidades são muito diferentes!
O que eu sentia mudou muito, baby. E eu não saberia definir se foi pra melhor ou pior. Porque depende do ponto de vista, depende do que a gente quer ver. Por muito tempo eu tive medo de escrever pra você. Eu fiquei até supersticiosa por sua causa, sabia? Quando eu fui esculhambar Luccas eu me detive por um momento. Eu fiquei com medo do Universo me "castigar" pelo mal que fiz a ele, através de você, com você fazendo mal pra mim. Mas acima de tudo eu fiquei com medo que você deixasse de gostar de mim sempre que eu dissesse que eu gosto de você. Porque eu associei. E se eu disser que perdi o medo é mentira. Eu tô sentindo isso nesse exato momento, enquanto escrevo. Mas eu gosto de você demais, baby. Só gostando muito como eu gosto pra ouvir passar em cada dia 50% do tempo reclamando sobre Gustavo e 50% do tempo obcecado com a seleção do Senac. kkkkkk. Tem vez que eu nem ouço mais, só ouço sua voz, seu tom alegre. Só ouço "boy, talk serious". Só ouço você me contando que me chamou de girlfriend no Senac. Só vejo você na UFRN com umas olheiras até o queixo e sinto vontade de te fazer carinho pra você dormir. De cuidar de você. De contemplar você dormindo. Porque você é uma gracinha o tempo todo. Porque você me acorda pra dar beijinho e me abraçar mais. Você é lindo, baby. Você é lindo deitadinho, e quando eu te olho de baixo eu vejo essa boquinha sexy que dá vontade de morder até arrancar um pedaço. E só de pensar eu já sinto sua falta. Eu até vesti sua camisa ontem pra começar a escrever pra você, mas acabei dormindo. Eu gosto de dizer que você é meu catioro. Assim com o pronome possessivo na frente. Sem hipocrisia feminista. Porque eu gosto de pronomes possessivos. Eu gosto que você tenta me provocar dizendo que vai pegar alguém ou com conversa de amante, de passar o rodo na spotted. Porque eu sei que você gosta de me ver sendo possessiva com você. E eu gosto de ser possessiva com você. Não num sentido louco, ao menos espero que não. Porque você é meu no fim das contas, gatinho. Meu catioro insuportável, mas meu. Não é? E eu também. Mesmo a gente não tendo "nada". Foram 2 meses de aventuras, que eu tenho mais pra contar do que alguns dois anos com outras pessoas. Você me faz feliz, de verdade. Do seu jeito bem fácil. Me fazendo rir no meio da rua e levar 2h pra chegar num canto que é do lado da sua casa. Ou rindo da minha cara quando tô com ódio. Ou com esse teu sorrisinho besta que eu fico pensando "wipe that out of your face!!!!!!!!!!". haha. Eu adoro você, baby. Eu te desenhei. Ia desenhar a gente e te dar um cartãozinho (quem sabe um dia? =p), fazer um desenhinho kawaii otaku. Porque até isso eu aceitei, tô besta demais. Porque eu aceito em você tudo que um dia eu odiei e tive preconceito só porque você torna as coisas boas. De verdade. You're kinda like my prince charming. E você fez tudo ser worth it. A sua felicidade é minha felicidade. E isso é bom porque agora eu posso ser feliz em dobro. Pela minha vida e pela sua. =) Eu torno cada momento contigo especial na minha memória, porque eu observo os detalhes. Eu observo cada reflexo do seu cabelinho lindo, as curvinhas da sua boca, os risquinhos dentro da sua íris, a sensação de tocar na sua pele. Eu sempre guardo bem o que você disse e como disse, suas expressões faciais. Simplesmente porque você vale a pena ser transformado em memória. E eu não vou dizer mais nada baby, senão você não gosta mais de mim.
Feliz dois meses do nada mais cheio de significado que eu já tive.

domingo, 28 de agosto de 2016

Mãe,

Me desculpe por ultimamente meu quarto andar uma bagunça. Você sabe que eu nunca fui de deixar as coisas pelo chão ou espalhadas na cama, de não dobrar e guardar as minhas roupas, ou de perder um monte de coisas dentro do meu próprio quarto como tem sido agora. Quando eu dormia no seu quarto você sempre arrumava tudo perfeitamente e eu não tinha que me preocupar com nada. Depois eu ganhei o meu próprio quarto e descobri que não sabia organizar nada do jeito que você organizava. Eu tinha minhas coisas, espaços pra colocá-las e demorou um tempo até eu desenvolver um sistema pra guardar tudo, até eu descobrir o meu próprio jeito, o meu jeito de organizar as minhas coisas que funcionasse, que fosse eficiente pra mim. E eu adorava tirar um dia da semana pra arrumar todas as coisas do meu quarto, pra cuidar do meu lugarzinho que eu gostava tanto porque escolhi tudo. Mandei fazer a janela igual uma foto que vi no we heart it, fui sozinha na loja de gesso escolher qual seria o meu rodateto, fui junto com meu pai pra mandar fazer a tinta do azul perfeito que eu queria, comprei cada móvel, não aproveitei nem mesmo a escrivaninha que herdei do meu irmão porque ela não cabia muito bem aqui. Eu não sei o que aconteceu que com o tempo eu passei a não gostar de ficar aqui e passar mais tempo no quarto dos meus irmãos, ou na rua, do que aqui. 
Quando a gente abriu os vídeos do meu sobrinho bebê, eu fiquei surpresa em como nossa casinha era ruim. Eu abria cada vídeo e dizia "nossa, como a gente era pobre!" brincando, mas é verdade. Como nossa casa era desestruturada e feinha e a gente não podia ter nada. Um dos prazeres de arrumar meu quarto era abrir o guarda roupa e ver como eu tinha um montão de roupas, coisa que era inimaginável pra mim alguns anos atrás. Eu sinto a mesma coisa quando arrumo meus livros e vejo tudo que eu pude comprar com o meu dinheirinho, e adoro colocar eles no lugar e pensar em como eu li bons livros, me sentir bem pelo conteúdo que adquiri ao longo do tempo, que eu escolhi adquirir. Eu sinto que diferente da minha irmã, eu consegui me libertar de muitas coisas que me foram impostas por você, pelo meu pai, pela sociedade como um todo. Não que eu seja alguém incomum, especial, raro, mas ainda assim, um pouco mais livre do que os outros e isso me deixa feliz. 

Me desculpe por não estar me dedicando como deveria pro mestrado. Hoje eu tava conversando com Diogo e ele disse assim "a quantidade de amigos que eu arranjei em um ano e meio seria totalmente impensável um tempo atrás, quando eu namorava com minha ex e minha vida era ela". Ah mãe, eu me identifiquei tanto com essa frase. Eu sempre abdiquei da minha vida pra viver em função de algum namorado meu, e hoje finalmente eu olho pros lados e estou cercada de amigos. Cercada de pessoas que amo, com quem quero conviver, gente que demanda minha atenção, com quem eu quero estar e conversar e me divertir. Outro dia eu tava pensando em como eu tinha medo na graduação de fazer o mestrado porque eu não teria amigos pra me ajudarem a arrumar sujeitos pra minhas pesquisas, e hoje, olha só, eu cheguei aqui e tem tanta gente com quem eu posso contar! Eu não preciso mais ter medo que as pessoas não gostem de mim porque descobri que eu posso fazer com que elas gostem. Se alguém me dissesse anos atrás que um dia eu iria "andar" com as pessoas que eu admirei a vida inteira, que um dia eu não sentiria mais medo e desconforto em sair e conhecer gente nova e que eu iria até sentir mais prazer em estar na rua conversando com alguém do que escondida em casa com medo de ser rejeitada pelos outros, acho que eu iria rir, não iria levar a sério uma besteira dessas. Tudo muda de um jeito fantástico, é a "roda viva" como diz Vitória, a roda da vida, a impermanência. O ser humano é uma espécie social, a gente precisa dos outros, precisa do amor dos outros, precisa estar entre os nossos. Eu sinto tanta pena que talvez você nunca saiba o que é isso. Que você não vai se alegrar em ver a casa cheia de gente, que você não tem ninguém da sua idade com quem conversar e conviver, que você tá enlouquecendo entre essas paredes do mesmo jeito que o meu pai, que passava o dia tentando exterminar as formigas do jardim ou ligando e desligando a cerca elétrica querendo saber se ela tava funcionando. Agora você só pensa em onde pode colocar mais trancas, grades e correntes, querendo matar os ratos no quintal. Hoje você me disse pra fechar a janela porque um rato poderia roer minha tela e entrar no meu quarto, e eu te disse que logo você iria achar que o ratão das tartarugas ninja iria aparecer aqui pra pegar a gente e você riu, mas eu temo que isso seja sério. Antes o meu pai ficava ouvindo desgraça no rádio e queria justificar prender a gente em casa, ele não queria que ninguém saísse daqui, todo mundo tinha que ficar dentro de casa, sem conviver, sem conversar, só pra estar aqui num lugar seguro onde nada acontece. E foi nesse lugar supostamente seguro que ele infartou e morreu, porque a segurança de continuar vivo não reside em lugar nenhum, em tempo nenhum. Você que sempre criticou ele ficar me mandando mensagem fazendo ameaças porque eu não estava em casa, você que tolerava que eu dormisse fora ou fosse pra qualquer lugar sem dizer pra onde fui e nunca se preocupou, nunca mandou uma mensagem sequer perguntando se eu iria voltar pra casa ou onde eu tava e nem nunca perguntou pra onde eu ia, passou a mandar mensagem mesmo quando eu digo que vou dormir fora, porque você esquece, você acha que eu não consigo trancar a porta, que agora manda a minha irmã me deixar nos lugares porque acha que se eu sair na rua algo terrível vai acontecer. A solidão e a ausência de sentido agora mexe com sua cabeça como mexeu com a dele, e isso me deixa triste, triste! Porque eu queria que você soubesse como a vida é boa tanto quanto eu sei, e eu sempre quis te mostrar isso, mas eu não sei como. Eu queria ser a pessoa que você queria que eu fosse. Eu queria ser a pessoa que coloca a carreira acima de tudo, que não liga de estar só se isso for necessário em nome do trabalho. Você sempre disse que eu deixasse meus namorados de lado pra me concentrar em estudar, que eu não me preocupasse em ter alguém, que eu não quisesse me casar, etc... mas nem você conseguiu cumprir o que me sugeriu. Você nunca conseguiu ir viver sozinha, sair daqui, deixar meu pai, procurar algum trabalho que desse sentido absoluto e completo a sua vida de forma que você não precisasse de mais nada. Então por que me ensinar algo tão cruelmente irreal e inalcançável? Uma vez Leo me disse que se eu me organizasse eu poderia ter tudo quanto eu quisesse... e você não acha que é verdade, mãe?

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Eu achava que era humilde, você me chamou de esnobe. Eu achava que eu era gentil, você me disse que eu era cruel. Eu achava que eu era desconstruída, você me chamou de preconceituosa. Às vezes a gente só vê em nós mesmos o que queremos ver. Às vezes nós nos vemos muito melhores do que realmente somos. E se a gente não der uma chance pra ouvir os outros, nós nunca saberemos. Nós nunca conseguiremos sozinhos perceber todas as nossas falhas. Isso a gente só descobre quando outro vem e diz, quando alguém se fere nos nossos espinhos. Yeah i heard every word you've said and i wanted to answer that i was going to pay more attention, that i couldn't take to see you hurt by my hands... I felt so sorry for you when they told me, and i was so mad before. So mad and revengefull. My ego was screaming but my heart spoke louder. The kindness of my soul kept me from being evil, and all i wanted to do was run to your arms and embrace you and hold you really tight and tell you, tell you don't need that, tell that you are valuable to me and would be to anyone who had the chance to meet you, tell you all sorts of good stuff to make your heart warm and see a smile on your face. I wish i could tell you all the truths that dwell in my heart, i wish i could show you my good side but if i only show you, you'd run, if you could see that i'm Jekyll and not Hyde, oh no, you would hate it so much... i had to stay cold, because of you, because that's the way you like it, baby...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Laranja

[De vez em quando a gente tem umas surpresas. Texto que eu não lembrava de jeito nenhum encontrado num backup] escrito em setembro de 2013


Você acredita que as cores tem significados? Que pintar uma parede de um quarto de uma cor determinada vai influenciar no seu humor e modo de agir no dia-a-dia? Desde criança, me deparo com revistas de decoração que trazem coisas do tipo “o quarto não deve ser pintado de vermelho para evitar agitação e agressividade” ou “o escritório deve ser azul para transmitir tranquilidade”; em muitos meios midiáticos, na época da virada do ano, é sempre explorada a temática da cor da calcinha que deve ser utilizada pra atrair dinheiro ou “uma paixão”, a cor da roupa a ser utilizada que trará sorte em um aspecto específico da vida no ano seguinte. Mas uma cor que não é muito mencionada é o laranja, ao que me parece que essa cor não é tão explorada. Você tem alguma roupa laranja? Eu não tenho nenhuma! Particularmente, não gosto de laranja. Menos em um lugar: na luz dos postes. Quer dizer, pelo menos eu enxergo laranja. A luz dos postes é amarela ou laranja? Será que chama amarelo mas na verdade é laranja? O meu quarto tem a janela virada para o quintal. Como a casa é elevada no terreno (pelo menos na parte de trás), a minha janela é alta e dela posso ver um pouco além do muro. Na rua de trás tem um poste laranja, uma caixa d’água um pouco mais longe, e mais longe ainda, um morro verdinho que me lembra aqueles que eu via quando olhava pela varanda da casa do meu tio (que era muito alta e mostrava a serra e as outras casas lá embaixo) em Juiz de Fora e que eu acho muito bonito. Eu sempre quis que você visse esse cenário do meu quintal. Tudo escuro, um céu roxo sem estrelas (por causa da luz do poste que as ofusca), o poste laranja, um morro ao fundo e uns telhados de casas e fios da rua. Às vezes parece que estar tudo molhado, recém-chovido. E quando chove, fica ainda mais bonito. Bonito de uma forma tão simples. Não tem nada de especial. Mas pra mim, o silêncio da madrugada e a luz alaranjada do poste são românticos, tranquilizadores. E aí toda vez que eu tenho coragem de abrir a janela na madrugada pra observar essa “paisagem”, penso: como eu queria que você estivesse aqui pra ver isso também. Pra sermos simples, pra sentir o frio e o silêncio da madrugada, o escuro e aproveitar o pouco de luz laranja do poste que deixa tudo tão aconchegante. Quando o meu quarto ficou minimamente pronto pra ser habitado, perto do final de 2011, eu dormia com a cama encostada na parede da janela, não tinha cortinas (só tinha a cama) e quando eu apagava a luz pra dormir, aquela luz laranja contra a janela projetava a sombra das grades e do meu corpo na cama, e eu ficava pensando em como se alguma coisa passasse lá fora eu veria a sombra na parede, mas principalmente, no quanto era legal ter um abajour externo. 

Mas a minha história com poste laranja começou um pouco antes. Quando eu era mais nova, conheci uma menina que morou aqui perto de casa mas estava na Suécia. Tínhamos uns 13 anos. Ela sempre tirava fotos muito legais das noites de diversão com os amigos nas ruas molhadas e geladas, e eu reparava que os postes emitiam uma luz laranja. Às vezes eu ia andar de bicicleta nas ruas de noite e ficava feliz quando passava numa rua com poste alaranjado. Me sentia como se fosse tão livre quanto à minha amiga que podia sair a noite na Suécia. Aí, o poste laranja se tornou um símbolo do poder sair à noite. Quando comecei a frequentar o Castelo, lugar que fui na primeira vez que pude oficialmente “sair à noite” (com o meu irmão fingindo que ia passar a noite comigo, pra os meus pais deixarem), a luz do poste era de que cor? Laranja. E até hoje tenho boas lembranças daquela rua de barro, com postes alaranjados, a brisa da noite, a fumaça dos cigarros, a felicidade que era ver tanta gente conhecida e estar fora de casa me divertindo com meus amigos da época, ao invés de trancada em casa indo dormir cedo e achando (como acho que passa em toda cabecinha adolescente com fome de experiências novas e falta de noção quanto ao tempo) que não estava aproveitando a vida.

It's hard to kickstart

Acho que é um erro presumir que em algum momento a vida vai se tornar mais fácil.

A vida nunca é fácil. Não me lembro de em nenhuma fase da minha vida ter pensado "nossa, como viver é fácil", muito embora quando eu olhe pra trás, fique achando que houve momentos muito mais fáceis e simples do que esse que vivo agora. Mas na época em que os vivi, achei um desafio do caralho. Quando eu estudei pro mestrado parecia que era um bicho de sete cabeças, mas eu mal sabia o que me aguardava depois da aprovação: a handful of guilt and sorrow. Por mais que você ame algo, você vai ter que fazer muita coisa que você não gosta de fazer em qualquer trabalho.

Às vezes eu me sinto menos que meus amigos quando olho ao redor e vejo que todo mundo já trabalhou (leia-se: seguiu uma rotina empresarial recebendo salário, ficando x horas por dia dedicado a algo, com pontualidade, chefe, punições, etc) e eu não. O máximo que tive perto de um trabalho foi o estágio, porque quando eu era bolsista de IC o meu trabalho só dependia de mim, quer dizer, eu podia fazer muitas coisas ou fazer só os relatórios, era tudo questão de iniciativa própria. 

Percebo que esse texto vai seguindo uma direção sobre culpa - e já começo a me sentir culpada por sentir culpa. Na verdade, tô me sentindo culpada por só ficar falando sobre como tudo é difícil ao invés de ir lá e resolver algo. Quando tem coisa demais eu me perco e não sei nem por onde começar. Não adianta tentar me impor uma rotina absurdamente fechada que eu não vou seguir, porque eu me conheço bem o suficiente pra saber que detesto rotina. Puta merda, tem tantas coisas que eu queria desabafar aqui que até nisso tenho tido dificuldade. Eu começo a escrever um texto e abandono na metade, ultimamente o blog deve ter mais texto nos rascunhos do que textos publicados. Isso porque, não sei, sinto que não tenho feito as coisas bem o suficiente, nem bem o suficiente pra estarem aqui, que não é um lugar "público". 

Escrevo e apago, escrevo e apago. Quase apaguei isso também. Tudo que escrevo me faz parecer uma winy bitch. Acho que sou extremamente mimada e não sei o valor das coisas. De alguma forma eu escolhi sempre o caminho mais fácil, e ainda escolho. Eu não sou uma pessoa de grandes desafios, nunca fui. Se algo é difícil demais, eu já não quero nem pensar sobre isso. Se algo exige trabalho demais, tchau. Não importa o quanto seja bom pra mim, eu não me dou ao trabalho de muita coisa. Nunca fui uma pessoa hiperativa e cheia de energia. Será que isso é a minha essência? Será que esse é o único jeito que eu posso ser? Às vezes eu olho pra minha orientadora, Fívia, e vejo que nunca serei como ela. Uma vez minha orientadora de estágio me disse que pra ser professora eu não precisava ser IGUAL a Fívia, mas eu podia ser professora do meu jeito. Quer dizer, que eu não precisava fazer tantas coisas quanto ela. Só que não deixo de me sentir culpada, de me comparar com os outros, de me sentir inútil. Até estar perdendo tempo fazendo algo que gosto (escrever) me faz sentir culpada por não estar fazendo algo que não gosto (cumprindo obrigações...). 

Eu sempre achei que a culpa da minha depressão eram situações externas. Mas e agora que tá tudo bem? E agora que não me falta nada, por que eu continuo com esse humor depressivo, me distraindo, sem vontade de viver, sem vontade de pensar num futuro, sem vontade de me esforçar por algo?  Eu sei que o medo de não dar certo, de não fazer as coisas de uma maneira impressionante e perfeita me paralisa. O medo da ordinaridade e mediocridade. Parece sempre que preciso dar conta de tantas coisas e que simplesmente não é possível. Só que aí eu paro e penso como tem gente que tem que dar conta de tão mais coisas e consegue. Por que não eu? Queria tanto fumar um cigarro agora. Mas isso tá fora de controle, preciso parar. Eu preciso de controle, autocontrole, será que tem tutorial no wikihow? Preciso jogar fora esse cigarro, parar de beber todo dia. Preciso voltar a ser vegan, etc. Preciso ir pra academia todos os dias. Preciso acordar cedo, dormir cedo. Preciso escovar os dentes antes de dormir. Preciso aprender a dirigir. Preciso organizar minhas coisas. Preciso consertar meu pc, devolver o do meu sobrinho. Preciso marcar médicos pros meus problemas. Preciso ir no dentista. Preciso tirar essa pilha de coisas do chão, preciso ir atrás das coisas do meu trabalho que eu não tenho a menor ideia de como fazer, onde procurar e minha orientadora faz coisa demais pra ter tempo de se preocupar com o fato de que eu talvez não faça a menor ideia do que esteja fazendo. Preciso anotar as coisas na minha agenda mas fiquei traumatizada porque a última vez que escrevi foi dizendo que ia passear com o cachorro e voltei com ele morto nos braços. Preciso abrir mão de uma vida de fazer vários nadas. Porque se pelo menos eu deixasse de fazer as obrigações pra fazer algo prazeroso. Mas eu não faço nada prazeroso porque sinto culpa. Não leio, não vejo séries, não saio de casa, não desenho, não toco guitarra... só fico aqui pensando (vício?) e nada mais, nada mais. 
Nada útil, nada inútil. Só estagnação. It's hard to kickstart


domingo, 21 de agosto de 2016

Hello and welcome,

Feche a porta atrás de você e tranque com a chave.

Aqui jazem todos os segredos da minha mente. Não seria justo comigo deixá-los escapar, não é mesmo? Porque enquanto as portas estiveram abertas e sem trancas outras pessoas puderam entrar e olhar. Outras pessoas que não queriam abrir também as portas delas, que não queriam abrir as portas delas sequer pra elas mesmas. Que não queriam admitir e compartilhar as suas verdades, a sua essência. Pessoas que queriam usar as minhas verdades em favor próprio. E de assimetria eu já estou farta. Agora eu não preciso esconder mais nada. Toda a minha vileza aqui se derrama, ausente de culpa e temor. 

"Come with uncle and hear all proper! Hear angel trumpets and devil trombones. You are invited." 
Clockwork Orange

sábado, 20 de agosto de 2016

Memento mori

Hi, dad.

Um dia desses eu descobri finalmente o significado dessa expressão. Memento mori significa "lembre-se de que você vai morrer" ou "lembre-se de que você é mortal". Latim é uma língua muito bonita que diz muito com tão poucas palavras. E ela apareceu pra mim num momento tão adequado.
Quem diria pai, que você me daria um dos maiores presentes da minha vida ao morrer: lembrar de que eu também vou. Que eu sou mortal. Eu tive tantos bichos, meus filhos, e agora eles estão todos mortos, o Ringo, príncipe Lulu, Grudinho, Loirinha, e os meus cinco gatos que pelo tempo que passou já devem ter ido também, mesmo que não na minha frente... Sr Wilson, Isabella, Sarito, Nicolau e Damby. Mas nada disso é como a morte de uma pessoa, uma pessoa com quem você conviveu a vida inteira e a qual você tinha alguma familiaridade. A casa fica tão vazia e silenciosa quando as pessoas vão morrendo. Minha mãe põe pra tocar os seus cds todos os dias, talvez por essa solidão que o silêncio traz. Hoje ela colocou lá fora no quartinho a estante que a vovó te deu e que você não deixava ela se desfazer. A sala agora parece enorme e faz até eco. Tudo parece grande quando não tem muita coisa dentro (isso é algo a se pensar...). 

Hoje a minha mãe achou a carta que eu escrevi pra você. Eu lembro perfeitamente desse dia. Você não me deixou conversar com Lauro de madrugada, na época que eu namorava com ele. Mandou eu desligar o computador. Com o meu espírito rebelde de 16 anos eu fui lá e rasguei o seu monitor  lcd com um estilete. A carta diz assim:

"Dear father,
Eu quebrei seu monitor porque estava com muita raiva de você. Claro que se eu tivesse pensado duas vezes não o teria feito. Você me tratou com desrespeito e presumiu que eu estava fazendo coisas que eu não estava simplesmente porque você não me conhece. É uma lástima o fato de eu e você não nos conhecermos. Você pode pagar outro com o dinheiro que não gastou no meu presente de natal (pois o óculos que pedi custava 600 reais) ou com a minha mesada, tanto faz. Aquele monitor era ruim mesmo. E o botão de ligar e desligar estava quebrado. Espero que eu não receba grandes punições. Obs: achei muito interessante o fato de você ter sido soldado justo na época do golpe militar. Devíamos conversar mais."

Não se pode dizer que eu não tentei, certo? Do meu jeito, mas eu tentei, eu tentei conhecer você. Talvez você até gostasse de me conhecer, porque a gente tinha uma quantidade razoável de coisas em comum. Pelo menos na parte da raiva e da agressividade. Mas isso foi importante porque você era o modelo do que eu não queria ser. Porque você me fazia mal com tanta ira e quando percebi isso, me esforcei ao máximo pra ser diferente, pra fazer bem pras pessoas ao meu redor. Eu aprendi algo mesmo que seja do pior jeito... isso foi importante pra eu ser quem sou. E eu não queria ser outra pessoa, porque adoro quem eu sou agora. Eu lutei contra a dor e a mágoa e de vez em quando parece até que venci a batalha, que eu perdoei o meu passado. Quando eu fazia terapia a minha psicóloga disse que queria que eu perdoasse meus pais e eu disse que a você eu não iria perdoar nunca. Que nada... toda vez que entro no seu carro eu peço pra você me ajudar a dirigir e me proteger. Sabe, eu não acredito em nada disso, em oração e espírito, mas eu sempre faço isso. Ou será que tem uma parte de mim que acredita em algo e não quer admitir?

Quando cheguei em casa hoje, deitei no chão da varanda e fumei um cigarro olhando fixamente pra lua, que aos poucos foi se perdendo num mar de nuvens. Entrei e minha mãe e irmã estavam assistindo uns vídeos que você gravou com um chaveiro ou algo assim. Procurando resquícios de memórias, ouvindo sua voz. Então peguei os vídeos que tinha do Lucas bebê e que você aparece pra mostrar pra elas. É engraçado como nossa memória é tricky. Tinha vídeos meus brincando com ele bem pequenininho e eu não lembro absolutamente de nada daquilo, é quase como se eu tivesse assistindo uma pessoa fazendo algo que nunca fiz. É engraçado como a maior parte dos nossos dias se perde no oblivion, como o passado vai virando uma mancha disforme...

Memento mori. Preciso arriscar mais, viver mais. Uma hora acaba e mais lá na frente se torna tarde demais pra fazer o que queria, quero dizer, tarde demais pra mim. Hoje eu vi a lua descendo e senti a Terra girar. E depois que você morreu, o sol nasceu ainda todos os dias. Porque o seu último dia foi dia 11, e você nunca mais vai ver nenhum, mas eles continuam nascendo, tudo segue, coisas que você tentou impedir a todo custo acontecem. Porque o controle é só uma ilusão. O mundo não precisa da gente, ele continua sem nós, é a gente que precisa dele...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Vivi

Toda vez que eu venho pra reunião da base eu penso em você.

Imagina a gente convivendo com espécies de hominídeos diferentes das nossas!!! Com especiação e características totalmente distintas das que a gente tem. Outra organização social, outra alimentação, outro tipo de comunicação. Como é que a gente ia estar no mundo com eles? Amiga, falaram hoje que uma porcentagem de DNA nossa é dos homens de Neandertal e que quem tem essa genética tem tendência a depressão! Eles se sairiam tão diferente de nós...

Imagina se quando a gente morresse a gente pudesse ver toda a História! O primeiro tetrápode que colocou sua patinha em terra firme e derivou todos nós mamíferos. Imagina ver o mamífero que voltou pra água e se tornou uma orca preto e branca. Como será que ele era? Imagina o primeiro serzinho com metabolismo, o nosso primeiro ancestral. A evolução é a linha que conecta todos os organismos vivos... e sempre que eu paro pra pensar em como todos nós viemos de uma única vida inicial que se multiplicou, especializou e se transformou em tudo o que existe hoje, em cada planta, bactéria, fungo, animal, em todos os reinos (olha que palavra linda que se usa pra classificar uma categoria de seres vivos... Reino!), eu sinto awe, um deslumbramento, uma sensação de que eu sou tão pequena que não entendo a dimensão das coisas. Porque imagina, amiga. Milhões de anos. Quantos dias tem nisso? É muito tempo! Tanta coisa acontece em um ano, em décadas, em séculos... o clima muda, a natureza muda. Os rios secam e o degelo das montanhas cai nos desertos e os transforma em vales. É como numa dança, uma dança ao som de música clássica, cheia de altos e baixos...

Imagine estar dentro de uma árvore e sentir o que ela sente. Será que elas percebem quando o vento bate nas folhas? E qual será a sensação de "comer" luz? Imagine ser uma abelha e enxergar os raios ultravioleta descendo do sol. Imagine planar no céu como uma águia e enxergar um camundongo correndo embaixo a quilômetros de distância. Imagine passar a vida inteira no aconchego da água como um peixe (imagine respirar água!), imagine que gosto tem uma caça ensanguentada pro paladar de um lobo faminto, imagine a sensação de liberdade que deve dar ao correr rápido com as patas de uma puma, imagine enxergar no escuro como um gato, imagine rastejar com a barriga na areia quente do deserto como uma cobra, imagine o que sente uma tartaruga que se orienta pelos polos magnéticos da Terra, imagine as cores que vê um mantis shrimp com 16 cones nos olhos, imagine ter o faro de um cachorro que consegue distinguir aonde o cheiro do pé tá mais forte e seguir alguém pela casa, imagine ouvir baixas frequências como um elefante e se comunicar a quilômetros de distância. Imagine até mesmo como é ser um homem, ter um pinto, gozar um líquido e ter dificuldades empáticas e incapacidade (restrição biológica!) do mesmo altruísmo que as mulheres tem. Imagina ser o índio louco de peiote no ritual, conversando com a entidade, um grego caminhando pelas construções de Atenas ou um egípcio plantando trigo a serviço do faraó nas margens do Nilo. São tantas sensações que a gente nunca vai chegar a sentir, tantas coisas que eu queria vivenciar! São tantas as peles que a gente poderia vestir. A gente só pode ver e entender do nosso lugarzinho, com nossos olhinhos; o mundo é tão mais do que o que a gente pode ver, com nossa visão limitada, com nossa audição limitada, com nosso olfato limitado, com nosso tato tão específico, com nossa linguagem e interpretação única...

Lembra daquela vez que a gente tava conversando com Lucas e ele disse que uma mosca, que só vive 28 dias, vive muito pouco, e eu falei "deve ter algum ser nesse momento olhando pra gente e dizendo a mesma coisa! Olha como eles vivem tão pouco, um século, coitados... nunca vão entender nada da vida. Eu queria tanto ver esse filme, ver tudo o quanto aconteceu pra gente chegar aqui. Ver como tudo é uma coisa só, veio de uma coisa só. Eu amo tanto esse nosso mundo, a existência, a mim, a você e a nossa amizade... Gratidão amiga. Você me ensinou a valorizar o pequeno, através das nossas conversas pelo blog. Eu aprendi ano passado a me encantar com o presente (e você, coincidentemente, aprendeu nos USA a mesma coisa que eu aprendi no Youtube). Você me ensinou a amar os detalhes. Foi assim que eu me apaixonei dessa última vez, amiga, por sua causa, porque eu vi você sentindo tanto amor, e prestando tanta atenção nos seus sentimentos, guardando detalhes carinhosamente. Eu aprendi a fechar os olhos e colocar toda a minha atenção nas minhas mãos ao tocar determinados cabelos. Aprendi com você a gostar de King e Tuatha de Danann, a valorizar quem sou eu, a escrever a minha história e o que sinto. Aprendi a amar a mim e perdoar os outros, eu que sempre desprezei todo mundo, enquanto você valorizava o que tivesse de bom, por mínimo que fosse, em todo mundo. A nossa forma de entender o mundo é tão compartilhada que é como se tivesse algo que se dividiu e que cada uma de nós guarda um pedaço disso dentro de si. Nós trilhamos caminhos muito diferentes pra chegar em conclusões tão parecidas. E quando eu olho pra você amiga, eu já sei cada detalhe do seu rosto, tanto quanto eu sei quando me olho no espelho. Familiaridade. A singeleza do universo e do tempo me alegra, e sei que a você também. Nossas vidas foram um presente, e nosso encontro também. Eu amo você demais. A gente tem muito o que desvendar, muito amor pra devolver pro mundo, muito o que pensar chapadas...

domingo, 14 de agosto de 2016



"Sem nenhum pudor a sociedade terá te enganado, fazendo você acreditar que a felicidade dependia de uma ocorrência superveniente que você tinha que mobilizar esforços pra conquistar. Você conquistou tudo (...), pra no final alguém olhar pra você e dizer 'calma, calma... o melhor ainda está por vir, será evidentemente fora daqui. Longe daqui'. Porque no mundo da vida aparentemente somos condenados a desejar o que não temos e a nos entediar com aquilo que já conquistamos. Talvez a felicidade seja essa mágica capacidade de nos alegrar com aquilo que já é nosso. Talvez a  felicidade seja essa competência muita rara entre nós e claramente desincentivada pela sociedade que é essa competência de se satisfazer com o que é seu, de gostar daquilo que você já conquistou, de desfrutar da família que é a sua, de curtir o espaço de trabalho que já é o seu, de se encantar com os instantes de vida que você está vivendo e não permanentemente de maneira erotizada e desejante ir atrás das metas que sempre escapam pelos dedos, quer quando você fracassa, quer quando você é bem sucedido. Naturalmente essa felicidade implicaria uma competência de ajuste com o mundo como ele é. Uma felicidade portanto desesperançada, que não espera do mundo mais do que o mundo pode proporcionar. Uma felicidade que exige uma sabedoria de harmonização da sua natureza com a natureza das coisas. Uma felicidade de conciliação e reconciliação permanente com os dados do mundo sem que o tempo inteiro estejamos incrédulos e perplexos blasfemando contra a ordem das coisas." 

Clóvis de Barros Filho

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Drunk writing

Ah babes, i miss you so much...

Tá tudo bem. Os pesadelos acabaram. Eu nem penso mais em você obssessivamente o dia inteiro. Parece até que eu esqueço. Eu esqueço os detalhes, esqueço de você. Tudo fica turvo na minha mente e o que eu quero lembrar parece que não me pertence mais. Você nunca me pertenceu, possessivamente falando. Mas você fazia parte da minha vida.  

Falta algo, falta você, falta a sua companhia. Falta conversar com você como ninguém mais pode conversar. Falta a sua vida, suas coisas, seu jeitinho. Até as besteiras que você falava eu gostava, pra ouvir sua voz, prestar atenção no seu sotaque, falta ouvir sua risada. Falta o jeito que você alegrava qualquer momento meu. Falta o jeito como você me fazia esquecer o mundo inteiro quando eu tava com você. Falta aquela sensação de que eu sou tão jovem e que a gente podia fazer qualquer coisa. Eu sei que não vou morrer. Talvez até arranje outro. Com certeza arranjo outro, mil outros... mas quem pode ter o seu lugar? Ficar com outros é uma traição. Não com você, que já não liga pra nada disso. Mas comigo... com meus sentimentos. Como você me faz falta. E cada vez que vem alguém falar comigo, um homem, me dá atenção, conversa, elogia, só pra eu comparar com você e você sair melhor, sempre. Eu penso mas não é como você, não tem graça sem você. Não tem mesmo...

Eu tenho de volta minha vida antiga, meu eu antigo. Mas como eu posso ignorar que você existiu? Eu fico pensando naquela época do Tinder, em como tudo era fácil. Em como eu não sabia quem você era. Por isso não importava, porque se eu soubesse, se eu soubesse tudo que você era, se eu soubesse o que eu tava perdendo... e agora eu sei e não dá pra esquecer mais. É só o começo. Eu sei que a gente não vai ficar mais junto, nunca mais. E eu aceito isso, sim... mas sinto saudade de você. Eu esqueço tão fácil das coisas. E vou esquecer disso também, tão fácil, é o que todo mundo diz e eu sei disso. Resiliência. Mas esquecer me dá uma tristeza. Entender que tô deixando de gostar de você me dá uma tristeza... porque você era lindo demais e eu coloquei todo o meu coração ali, em você. Porque eu gostei de você de cara. Bastou estar um dia com você, e isso nunca me aconteceu. Você me conquistou à primeira vista, imagina que bobagem... e como é difícil abrir mão de tudo isso.

Yeah, babe, i miss you. Silly baby, made a fool of me...

domingo, 7 de agosto de 2016

Sexta - The world's most progressive cowboy

Machos do Tinder enchendo o saco - nenhum deles tem nada a oferecer que me interesse. Alguns tem cabelos compridos, são bem bonitos. Tudo bastante superficial, entediante. Alguns nem tentam dizer nada, só tentam me levar pra cama. Não achei meu corpo no lixo. O meu maior fetiche sempre foi assistir alguém que gosto sentindo prazer. Eu jamais tive um orgasmo na vida que não fosse com alguém de quem eu realmente gostasse. E pelo mesmo motivo, eu tinha costume de gozar depois dos meninos com quem me relacionei. Na verdade, dá até um pouco de orgulho perceber o quanto me entendo bem. Eles só são bons porque respondem quando meus amigos não respondem e a solidão me angustia. Fora isso, inúteis.
Passei o dia ouvindo Dream Theater e lembrando os nomes das músicas que gostava. Peguei um dos meus livros preferidos do Bukowski na BCZM pra passar o tempo tão longo dos dias. Depois fui me arrumar. Hoje fiquei especialmente bonita, mas as roupas folgadas não ajudaram. Engraçado como eu tenho a mesma cara todos os dias, e me sinto linda em uns, um monstro das profundezas em outro.

"Olha meus netinhos, como a vovó ficava bonita com uns filtros do Instagram..."
 Fui pra UFRN deserta, sozinha, os ônibus parando de passar, esperando Vitória e aprendendo umas besteiras com o velho Buk, fumando no CB frio, chovendo, quase desistindo quando chegaram Thiago e Alê, depois Vivi. 
Fomos pro 1, 21h, já tinha gente por lá, esperando a festa começar. Nossos amigos do CB vieram ficar em volta de nós e inauguramos o roçoio de Thiago com nossa tradicional combinação 51 + coca. Antes da festa começar já estávamos loucos e felizes. Depois dessa parte, só flashes, então talvez o relato fique um pouco confuso. Até porque, parte dele é o que me contaram mesmo. Nós bebemos mais... cerveja, tequila. Dançamos. Fiquei com um menino de cabelo rosa amigo de Vanny, Guilherme me contou rindo depois que o cara caiu no chão depois de me beijar, haha. Comemos um brigadeiro de maconha (brisadeiro!), também foi Vitória que contou depois. Fumamos uns becks, andei pela festa, beijei mais gente. Um menino que queria ficar dos tempos da escola, ele me disse “desde o segundo ano a gente precisa resolver uma coisa”, haha. Meaningless. Observação interessante: eu achei que iria me sentir culpada por ficar com alguém enquanto ainda gosto de Nathan. Mas não. Eu não senti nada ruim. Ao mesmo tempo, também não senti nada bom. Foi uma experiência de total indiferença pra mim. Lembrei do que Guilherme escreveu e me mandou, falando sobre como ficar no Whatsapp falando putaria era pura ilusão. Vazio, emptyness! Isso foi algo sobre mim que aprendi estando com Nathan... não há sentido em beijar um monte de bocas a troco de nada. Quero dizer, teoricamente isso deveria ser uma massagem no meu ego. Oh, look how I’m still kicking! Olha como todos esses homens querem me beijar. Foda-se. Isso já não faz diferença pra mim. Quando eu era cowboy, quando eu tinha vários homens, eu tinha vários relacionamentos. Não quis namorar com nenhum, mas recebia pelo menos 3 bom-dias diferentes, escutava os problemas deles, dava atenção, carinho, me interessava pela vida deles e eles pela minha, andava de mãos dadas, elogiava. Uma vida de distribuir saliva como um fim em si mesmo não me interessa. Até o Dorian Gray se entendiou disso um dia. 
Encontrei Igor. Dessa parte eu só lembrei no dia seguinte as oito horas da noite. Eu encontrei Igor e contei que Nathan terminou comigo, ao que ele me respondeu “bem feito, bem feito!!!!!!”, hahaha! Não lembro bem o que conversei com ele ou quanto tempo passei com ele, e prefiro que seja assim. O olhar triste dele e a forma suave de falar me hipnotizam. Gostaria de dizer que sei que é tudo charme, mas não posso afirmar nada. Passei o que pareceu um bom tempo dançando de mãos dadas com ele, e depois saí correndo pra fazer alguma coisa que não lembro o que era, e ele sumiu na multidão.
Fiquei com Link, it was all settled. Depois mais dois meninos que já tinha ficado antes: cinco no total. Eles todos sabiam beijar de um jeito decente, mas... não sei. Definitivamente isso não me fez sentir feliz ou livre, porque eu não me sentia presa antes. Não me fez sentir absolutamente nada por ninguém, nem mesmo vontade de ficar de novo, ou de "dar o próximo passo" com eles. A minha alegria da noite foi estar com minhas amigas. Mari e Vitória dançando, fumando payol, Gui vindo dançar com a gente. Eu não queria que acabasse. A gente dançou demais, em frente ao palco, no meio das 'bichas', das pessoas mais loucas. Depois me bateu uma paranoia de que eu não tinha como voltar pra casa e Lucas foi esperar um táxi comigo. Foi um dia muito feliz, mas eu pensei em como poderia ser mais feliz se eu estivesse bem. Mas, faz sentido que os dias felizes devem fazer parte do processo pra ficar bem.
3:30 da manhã em casa. Nathan online. Conversei um pouco com ele. (Why'd you only call me when you're high, não é mesmo...) Não sei porque, mas isso me faz bem. Mesmo conversar com ele pra ver que ele me despreza e não tem nenhuma empatia por mim me faz bem. Talvez até justamente por isso. Contei pra ele sobre Saraiva, pedi nudes (é claro...), o resto não me lembro. Só me lembro que essa foi a primeira noite que consegui dormir e não sonhar com ele, em uma semana. O tempo maltrata as memórias que não reforçamos... mas não entendo o critério da mente ao escolher o que vai ficar. 
Lembro perfeitamente do meio sorriso igual na foto dele do Tinder, que me fez rir quando eu tava tentando brigar. A forma que dava pra ver o dourado dos olhos dele enquanto a gente transava na minha cama à meia luz. O jeito que perguntou se a gente ia se casar, na Ribeira, no dia do assalto... (silly baby, é claro que não...), ele gritando comigo na parada escura com uma crise de insegurança. As sardas nos ombros. A primeira vez que toquei na pele dele tão limpa e macia e me perguntei se existia algum outro homem no mundo com uma pele tão gostosa de tocar. As coisas que dizia durante o sexo... minhas últimas memórias da voz dele começam a ficar turvas. Ele revirando os olhos enquanto sorria por causa de alguma besteira na praça do Gringos (interessante como amo profundamente uma memória tão simples). Dormindo abraçado comigo, acordando, dando beijinho e voltando a dormir várias vezes... minha memória é fraca, e está me roubando cada detalhe dele na minha cabeça. Algumas coisas que só sei ainda porque escrevi antes... os momentos que eu adorava indo embora aos poucos. É um processo triste, no fim das contas... mas que eu também não posso evitar e talvez nem deveria se pudesse. Talvez seja melhor aceitar que até mesmo as coisas bonitas se perdem.

“O gentlemen por quem minha mulher me deixou interpretava Chopin admiravelmente... Pobre Victoria!... Eu a amava bastante; a casa ficou um pouco triste sem ela. A vida conjugal é simplesmente um hábito, um mau hábito. Mas lastima-se até a perda dos maus hábitos; talvez seja mesmo o que mais se lastime; os hábitos são uma parte essencial da personalidade.” 

Domingo...

The art of losing isn’t hard to master; 
so many things seem filled with the intent 
to be lost that their loss is no disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture 
I love) I shan’t have lied. It’s evident 
the art of losing’s not too hard to master 
though it may look like (Write it!) like disaster.

Hoje é meu dia de ficar em casa, ou pelo menos tentar (já estou pensando em sair...), dia de escrever.

Eu tive oito dias de loucura, catuaba, whiskey, cervejas, cana, algumas carteiras de cigarro, payol, baseados. Parei de comer, bebi de barriga vazia tantas vezes, outras tive craving por beber em horários e lugares totalmente inapropriados. Queimei a garganta fumando mais de uma carteira por dia algumas vezes, dormi de luz acesa, maquiagem e a roupa do corpo, perdi alguns quilos e alguma quantidade absurda de dinheiro na conta que eu sequer tenho coragem de conferir, temendo o estrago. Mas tudo isso foi absolutamente necessário. Se isso me encurtar uns anos de vida, que eu lembre no futuro: nesse momento era o único recurso que eu tinha pra lidar com todas as coisas ruins que vivi em tão pouco tempo. Ainda é difícil de levantar, mas um pouco mais fácil a cada dia que passa.

"Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?" 

É o que disse Nietzsche, a primeira frase do primeiro livro sobre ele que eu li. Eu me deixei queimar, me deixei destruir. Eu deixei que destruíssem meu coração, depois destruí meu corpo. Eu precisava disso pra libertar meu espírito. Depois da destruição vem a reconstrução. Minha essência retoma o interesse de se compreender: quero saber o que sou, e porque determinadas coisas me fazem sofrer tanto enquanto outras não. Quero entender o que há em mim que se possa melhorar, o que falta pra que eu me torne a pessoa que desejo ser. E não falo sobre a pessoa mestre, doutora, acadêmica, mas na minha relação com os outros. Há ainda tantas falhas e divergências entre pensamento e ação, com todos ao meu redor. Eu preciso me manter fiel a quem eu sou em meio às tempestades. Não poderia jamais manipular e destruir; não é esse o meu propósito. Ainda que descrente de todo tipo de dogma religioso, há em mim uma forte convicção de que estou aqui pra colocar em prática o que faz bem e constrói: eis o sentido da minha vida. Alegrar a mim, mas também aos outros. Amar. Eu não posso viver uma vida sem reflexão, sem profundidade, sem pensar. As minhas coisas são devagar, elas precisam de tempo e sentido. Preciso de mim, cada vez mais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Dormir faz mal?

Sem paciência pra poesia, organização, capricho, cuidado estético. Sobrou a crueza da minha alma desesperada, eu não sei mais o que fazer com ela.

Eu só queria que passasse logo, que acabasse logo. Eu não já sofri tudo o que tinha pra sofrer? Como pode tantos anos de experiência e eu ainda ser incapaz de cuidar de mim mesma? Incapaz de mudar meus pensamentos pra transformar as minhas emoções. Eu estudei isso. Eu sei que minha cabeça tá mentindo pra mim. Eu sei que não é tão ruim quanto ela quer me fazer pensar. Eu sei que o futuro não é tão desgraçado como ela quer me fazer crer. E ainda assim, ela me vence, me domina, a minha mente, meus pensamentos desadaptativos, minhas inseguranças e meus pedaços que foram partidos e nunca remendados, eles reaparecem exatamente como sempre foram, as feridas nos mesmos lugares.

Tudo parece bem ao longo do dia. Faço planos, tento ter um pouco de fé. Vejo meus amigos e a presença deles me consola, me protege. O álcool me deixa leve e fumar mais de 20 cigarros por dia me deixa mais tranquila. Invisto todo o meu dinheiro em drogas, totalmente sem freios. Eu faço o que quero, e nunca nada desprazeroso. Eu me entreguei completamente a fazer só o que é bom porque eu preciso me levantar daqui, porque eu quero tanto me levantar mas não importa o que eu faça, eu caio de novo. 

Quando eu durmo eu volto a sonhar com ele, sonho que tô correndo atrás dele e me humilhando, ou sonho com meu pai vindo me buscar. Hoje eu alternei os sonhos, sonhei com uma mão invisível e forte vindo segurar na minha mão enquanto eu tava deitada na cama no escuro, como uma paralisia do sono, eu segurava nessa mão com as duas mãos e ela me puxava pra cima, pra cima, flutuando pra longe da minha cama, até que eu pensava que não queria ir e caía. Sonhei com isso três vezes na mesma noite e também com aquele monstro... eu só quero deixar a razão dominar meu coração ferido, porque eu fiz o certo, dar as costas e esquecer, é o certo, ele não merece, não é justo que eu sofra mais do que isso, eu não posso chorar porque ele é indiferente, porque pra ele foi muito fácil me jogar no lixo, foda-se, que eu tenha ódio dele faça macumba, mate ele chute os ovos dele na rua, puta que me pariu! Eu só quero minha vida normal de volta, quero a parte boa que ele levou junto quando foi embora, a minha tranquilidade e a minha segurança e a minha estabilidade e a minha satisfação. Não aguento mais esses pensamentos obssessivos e doentios. Eu só quero dormir e acordar melhor a cada dia, mas toda vez que eu durmo, volto pra estaca zero. Não consigo vencer o meu inconsciente. Make it stop, consciência. Ganhe a luta, me salve. Porque eu tô a um passo de desistir, todos os dias. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Só amor

Que mês de ventania tem sido esse! 
Vitória me chamou pra sair com ela e Mari e eu fui correndo! Há quanto tempo eu não via Mari e como eu queria vê-la! Só faltou juntar com Gui, que vi ontem. Enquanto eu esperava um táxi (por causa de uma crise nos ônibus, essa informação é importante pro futuro...), olhei pra cima e que céu, que céu! Quantas estrelas brilhando tão forte e maravilhosamente, planetas alinhados sobre a minha cabeça. Imagina, imagina??? O tamanho desses planetas de perto... aqui só pontinhos coloridos junto com as estrelas, as mesmas que observo todos os dias e que amo de uma forma indescritível. A noite, que delícia de momento, sempre fresca, escura e cheia de pontinhos brilhantes que contam histórias...
O maior presente da natureza pra mim, o céu interminável acima. Como eu quero ir pra Wyoming, pras montanhas desertas de civilização, ficar numa cabaninha de madeira, observar os céus à noite. Tão simples quanto a felicidade pode ser, tão simples, um desejo que enche meu coração... Nós nos divertimos, filosofamos, Mari dirigindo, a gente cantando Raul Seixas, Vitória com o volante... juventude, liberdade! 

Quando cheguei em casa, mãe chorando. Achou um cd que meu pai fez e colocou uma foto dela jovem, uma das mais bonitas, foto que eu guardava na carteira, que tirei uma igual quando tinha o mesmo corte de cabelo, o mesmo cabelo preto. Ah mãe... o tempo, se você o contemplasse! A gente tem que dar valor ao que tem, enquanto tem. Tem que estar presente, tem que estar 100% nos momentos. A vida é tão curta, tão pequenininha! E os momentos em que somos felizes, esses parecem uma parte ainda menor dela! Ligeiros como lebre. Temos que olhar bem, temos que colocar todo o nosso coração ali. Porque as pessoas vão embora mãe, elas vão pra onde a gente não entende, ou simplesmente saem de nossas vidas. Elas vão, tem que ir, não tem jeito! E a gente tem que amar o tempo que tá com elas e nada mais, nada mais. É simples e tão complicado, porque a gente esquece disso o tempo todo. A gente vai esquecendo o valor que as coisas tem pra gente, acostuma.... e não pode! Porque pisca e acaba. Tudo se dissipa como nuvens num dia de vento. É a lição, mãe...

Estou aqui ouvindo minhas músicas favoritas, dançando sentada na cama. Me olho no espelho. Que mulher bonita! Ruiva, meu rosto tão jovem, sem rugas. Perfeito. O melhor que posso ser. A expressão da minha juventude. 23 anos! Eu sou linda. Num piscar de olhos vai passar! Eu preciso viver com toda a minha intensidade, preciso colocar o meu coração aqui, agora! O presente é tudo que eu tenho, e só enquanto o vivo nada posso lamentar...

Mari: Você não precisa chupar a bala de canela se não quiser. Porque tem tantos outros sabores de bala por aí pra você experimentar...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Começando agosto

21:40

Estou sentada num cantinho na varanda de casa, tomando minha catuaba que sobrou do aniversário de Kin, fumando um Lucky Strike, lendo O retrato de Dorian Gray, ouvindo Dire Straits, Scorpions, Metallica. Minha pressão despenca tão facilmente o tempo todo já que desde o começo da semana meu corpo perdeu o interesse em comer. A minha família não tardou a "descobrir" (admitir seria a palavra certa) que eu fumava já que eu tanto fumo no meu quarto toda noite e acabo poluindo o resto da casa inteira por alguma propriedade física da fumaça que não compreendo. Um acordo: fumar, só do lado de fora. Justo. 
Minha mãe na sala, quando entro pra pegar bebida: tá sozinha lá fora? Fazendo o quê? 
Usando drogas, mãe... 
Mãe: Fumando?
E bebendo catuaba ruim... 
Mãe: Tem um vinho na cozinha, um pouco mais caro...
De vez em quando ela para pra me dar uns abraços. Ah, ela não sabe se comunicar comigo, mas sabe que estou triste e aceita, sempre aceitou quem eu sou, ela não me critica e nem as minhas formas de me consolar. Ela só quer me ver acordada e tentando viver, eu sei disso...

17:15

Todos os dias saio pra caminhar solitariamente e pensar bastante na minha vida. Hoje quando saí pra comprar mais cigarros e talvez ler um pouco na tranquilidade da praça, o céu estava com nuvens carregadas, metade cinza e metade vermelhas. Tomei chuva no caminho da Corujinha. Não importa... pensei. O meu cabelo se encaracolou com a água e minha roupa se tornou cinza-escuro. O tempo avança com pés de chumbo. Se antes um dia parecia ter 12 horas, agora tem no mínimo 48. O nosso tempo na Terra parece suficiente, e não mais tão pouco. Já não quero segurar o tempo, desejo que corra livre e carregue minha tristeza embora. Ela me ensinou a apreciar os momentos: observo o balançar da copa das árvores e o chiado dos insetos e por um momento minha mente fica em silêncio. Quando estou com meus amigos, sorrio enquanto eles contam histórias - qualquer besteira que seja, presto muita atenção. Olho em volta pro rostinho de cada um deles com uma satisfação enorme por esses momentos. 

Um tempo pra tristeza e catuaba tem gosto de remédio

Deitada na cama. Às vezes ela me derruba e não consigo fazer nada e preciso me cobrir e aconchegar por causa do frio. Penso: eu preciso permitir todos esses pensamentos que sei que são bobagens. Preciso viver todos eles e acreditar neles por um momento. Quando eu levantar eles serão mais fracos porque eu dei atenção a eles e não tentei negar. Observo de fora... não são verdades, mas doem, porque virar as páginas dói. Here I am, on the road again. There I am, up on the stage. Here I go, play the star again. There I go... turn the page. 

Drunk, I am finally drunk. :)