domingo, 31 de julho de 2016

Y mad?

There's nothing left alive
Just a pair of glassy eyes
Raise my feelings one more time...

É engraçado como nossa cabeça funciona.

Qual é o sentido de sentir raiva quando uma coisa boa acaba? Talvez os sentimentos se misturem e a saudade vire raiva, raiva de não ter o que a gente quer e como a gente quer. Porque a gente não consegue de cara entender e aceitar nada mais do que a saudade, a nostalgia... porque os tempos bons ficam na cabeça e a gente começa assim até lembrar dos problemas, dos arrependimentos, das coisas que a gente se envergonha em ter feito. Lorde Henry diz que o passado é bonito só porque é passado...

Eu me envergonhei da entrega, da dedicação, do amor. Me envergonhei e me martirizei por abrir as portas do meu coração pra alguém que ficou dividido o tempo todo se entraria ou não. Mas por quê? Por que vergonha, ódio, remorso... quando a gente deveria se orgulhar. Eu deveria me orgulhar pela chance que eu dei. Pela chance que eu dei a alguém que todo mundo disse que eu não deveria dar. Por alguém que as pessoas não souberam apreciar. Eles nunca vão entender o que eu senti ou o que eu passei e porque eu fiz o que eu fiz. Porque a sociedade espera que os homens deem proteção, recurso, carro... quando o que eles precisam dar é carinho somente. E isso ele deu muito mais do que o suficiente, do começo ao fim. É por isso que eu gostava dele e porque as pessoas não vão compreender a falta que faz.

Sendo sincera comigo, no fundo há gratidão. Pelo risco, por reviver. Há algo em mim que não é indiferença, que não é pedra, que não é rispidez e desprezo. Há algo em mim que é das coisas mais bonitas que se pode sentir. Eu tenho coração, sensibilidade, eu sinto e agora posso afirmar. Eu nunca conseguia sentir o peso das tragédias como deveria. Quando eu deixava alguém, sempre com o coração leve, sem chorar. Eu não ligava. E pra alguém eu liguei. Por alguém eu sofri quando tive que ir embora, chorei no banho, senti saudades, por alguém me deu uma dorzinha no fundo da alma quando eu sabia que era a hora de dar as costas. E isso é feio? É ruim? Eu deveria ter vergonha de ser "mole", sensível, "besta"? Deveria me envergonhar por ceder, pelas gentilezas, por dar carinho pra alguém, por permitir que alguém soubesse quem era eu, por deixar entrar na minha casa, tanto a física quanto a espiritual? Deveria me envergonhar por ter aceitado de volta alguém que foi aparentemente sem pensar bem no que tava fazendo ou em mim?

Talvez as pessoas achem que sim, mas eu não. A vida foi linda, e eu não tenho raiva dela. Porque eu fui feliz no meu tempo e não quero odiar pra esquecer ou roubar o valor do que aconteceu. Porque foi bonito, valeu a pena, porque tudo teve valor. Eu me orgulho. Eu tive força o suficiente pra deixar que alguém fizesse de mim o que quisesse. E em alguns momentos eu parei e pensei: eu posso escrotizar agora, fazer merda pelas costas, fingir uma coisa e fazer outra. Mas toda vez que eu me detive pra pensar isso, eu cheguei à conclusão de que não. Eu pensei "quer saber? Eu vou fazer o certo e vou me permitir quebrar a cara mesmo". Eu pensei que se desse tudo errado, e se tudo que eu dissesse fosse uma humilhação, eu estaria disposta a isso. Eu abri mão do meu ego e isso é fantástico. Eu fui corajosa como as pessoas parecem fugir de ser. Eu consegui deixar meu egoísmo de lado, eu desisti de sair "por cima" em nome de algo infinitamente maior do que meu mero ego, meu umbigo. Em nome de um sentimento genuíno que eu nem sei quando ou se vou sentir de novo. O que eu fiz foi conscientemente e sem pedir nada em troca. Meu ser demonstrou toda a sua potência. E eu não posso sentir raiva por uma escolha que eu mesma fiz.

Gratidão, gratidão... a vida é uma montanha russa que quando você tá no auge, é impossível ver o tamanho da sua queda. E pra que saber, pra que se prevenir e se segurar, quando a surpresa é o thrill? Se você souber do fim não tem graça, e viver se preparando pra ele também não. Bom é viver como se a montanha fosse só subir, subir. Eu não tive medo quando cheguei lá em cima. Eu me orgulho de mim e de toda a minha capacidade de ter sentimentos, de ter honestidade. De fazer o correto mesmo quando não há garantia de recompensa. É a vida, e eu não posso ser má, porque isso não sou eu. O que sou eu é só... um serzinho que levanta a cabeça pro céu estrelado todo santo dia cheio de amor dentro de si. Que se pergunta quem olha de cima, que se fascina pelo brilho das estrelas no céu e também daquelas espalhadas pela Terra. Eu sou feliz, me diverti. No regrets. Just love, love... eu só posso dar o que tenho a oferecer, e são as coisas mais puras. Não tem porque ser diferente. Não tem pose. E não tem porque eu deixar de ser eu.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Under a full moon

19/07/2016 - vista da nossa casa

Luna, tu                                                              Lua, tu
Che conosci il tempo dell'eternità                     Que conhece o tempo da eternidade
E il sentiero stretto della verità                          E a trilha estreita da verdade
Fa più luce dentro questo Cuore mio                 Faça luz dentro deste meu coração
Questo cuore d'uomo che non as                       Este coração de homem que não sabe...

Debaixo da lua cheia nós enterramos príncipe Lulu. Por um momento eu olhei pro céu e reparei nela e na injusta beleza das estrelas naquele dia. Eu desejava que o Cemitério de Animais existisse de verdade. Como a morte do meu filhinho foi igual a de Gage, como eu senti tudo que o King descreveu no meu livro preferido. Lou Creed, eu sempre achei que você era um idiota. Você ressucitou Church, que era só um gato, e ele nunca mais foi o mesmo. Você ignorou tudo e ressucitou Gage e a sua esposa. Eu ficava torcendo pra você parar e que o livro tivesse um final diferente do filme. Mas você foi até o fim. Pensei que você era louco e irracional, mas Lou, eu faria o mesmo, eu cometeria todos os seus erros. O que eu não daria pra vê-lo andar de novo? Mesmo que não fosse mais ele. Eu só me recusava a aceitar aquilo com todas as minhas forças. Meu pai cavava a sepultura enquanto eu abraçava o corpinho do meu filho dentro de uma caixinha de papelão, onde ironicamente estava escrito "frágil". Pai, se eu soubesse que você não viveria pra ver a próxima lua cheia, eu teria cavado no seu lugar. Lamentei a ausência do resto da nossa família no sepultamento do membro mais querido dela.

O que você teria feito se soubesse do que ia acontecer? Eu costumo sonhar com os mortos e sonhei com você. Eu tentava te avisar que você iria morrer dali a dois dias, e perguntava se você não queria fazer nada pra mudar o destino. Você me respondia como sempre respondeu: sem palavras, só com um aceno negativo com a cabeça. Depois você se levantava e ia ajeitar a embreagem do seu carro que está com defeito, como se você quisesse deixar pra mim com segurança. Você deixou eu usar ele pela primeira vez dias antes de morrer, e tirou o tapete pra embreagem não prender. Quando você chegou em casa, disse que eu "tirei 10" porque devolvi o carro certinho e coloquei os documentos e a chave no mesmo lugar que você deixou pra mim. 

Nós nunca mais vamos nos ver. Eu nunca mais vou ver você, ou o Luí, o Ringo. Quase metade da nossa família aqui de casa morreu, e tudo mudou por aqui. A minha mãe que nunca chorou agora chora todos os dias, eu e meus irmãos temos que ensinar tudo pra ela, porque ela não sabe fazer nada sozinha, você sempre fez tudo por ela. Eu acordo e é como se eu tivesse vivendo um sonho. A minha forma de sentir meu corpo mudou; é como se eu fosse acordar a qualquer momento. Mas eu não vou. A realidade é isso aqui e a minha cabeça é incapaz de processar e compreendê-la. Nossa casa tá sempre vazia e quando eu abro a porta eu ainda espero, por alguns segundos, os latidos. Nada. Pai, eu coloquei uma foto sua com o meu filho no colo na sala. A minha irmã achou um cd que você fez pra ele "em homenagem ao maior companheiro dos meus 3 meses de aposentadoria". Ai, que horror. Quando não tinha mais ninguém pra olhar eu chorei tanto, e eu tento, eu tento fazer planos ou tirar algo de bom de tudo isso, mas parece que a cada dia que passa, eu só fico mais cansada e mais doente, mais fumante, mais carente, mais fraca, menos eu. Quem eu era agora não passa de uma sombra que eu mal sou capaz de lembrar. Porque quando eu ando na rua as minhas pernas pesam e agora eu sinto frio o tempo todo, eu já não leio uma página de qualquer texto sem levantar da cadeira dez vezes pra andar ao redor.

As pessoas dizem que mal lhe pergunte, mas o que aconteceu? Elas querem saber como você morreu. Querem saber como Lulu morreu. Meu pai teve um infarto, caiu no chão da cozinha, derrubou o gelágua, urinou-se, quebrou todos os copos que estavam em cima dele. Não conseguia andar. Meu irmão pegou ele nos braços e levou pro hospital. Fizeram uma cirurgia da qual ele tinha 1% de chance de sair vivo. Morreu no dia seguinte, foi ressucitado, morreu de novo, os médicos desistiram.  Eu cheguei na praça e um labrador abocanhou Lulu e sacudiu ele de um lado pro outro. Meus pés congelaram no chão e tudo que eu era capaz de fazer era dar gritos guturais. Quando ele caiu no chão ensanguentado, teve uma convulsão nas patas de trás e enquanto eu gritava com a mão na barriga dele, eu senti o coração dele parar de funcionar e vi mosquinhas pousando nos olhos vidrados dele enquanto tentava fazer desesperadamente e em vão com que ele olhasse pra mim e pedia desculpas, gritava, chorava, perguntava por que, dizia que o amava, e rastejava no chão da praça com dezenas de pessoas ao meu redor observando "o circo". Foi isso, gente. Mas eu não posso falar assim, só a versão resumida pro fraco estômago dos incautos.

É como se fosse um filme, como se não fosse eu. Minha cabeça dissocia, ela quer me proteger da loucura. Mas eu sinto o muro de contenção se rachando. Aqui no meu quarto todo fechado e com o ar desligado, eu estou tremendo de frio, e não sei porque. Por pior pai que você fosse, você sempre se indignou quando alguém fez mal pra mim. E agora pai, quem vai se importar quando alguém me machucar? Nobody. Eu não tenho mais um lugar seguro pra onde voltar, a minha casa não é mais feita de concreto, mas de vidro, é um campo minado, tem estilhaços, é transparente, exposta, frágil. Sair de casa é um aborrecimento, ficar aqui muitas vezes é pior ainda. Eu não tenho pra onde ir, um lugar pra ver o tempo passar, pensar e fumar um cigarro e mais nada. Eu não tenho o que fazer pra parar o tempo ou avançá-lo e nem sei qual dessas alternativas seria pior. Tudo me angustia e nada está certo. Se a escuridão tomasse conta, eu não perceberia...


domingo, 24 de julho de 2016

The unsaid

Mesmo sem perder o jeito pra pensar, vou perdendo o jeito pra escrever. Sinto medo de tocar nas feridas, medo de rupturas. O tempo vai me moldando cada vez mais consciente de mim e da existência. Tantas coisas que eu gostaria de dizer, que escrevo na minha cabeça do começo ao fim. 
Quando eu era criança, herdei uma coleção de contos de fadas contados pela Xuxa em fitas cassete que vinham com livros ilustrados lindíssimos pra acompanhar. Um dos meus contos preferidos era o da pastora de gansos. Uma princesa foi traída pela sua dama de companhia que trocou de lugar com ela e passou a cuidar dos gansos no castelo do príncipe a quem tinha sido prometida. O rei desconfiado de suas boas maneiras pede que ela conte seus segredos pra uma sala vazia (enquanto ouve atrás da porta) e quando ela termina de contar, diz "ó sala, minha sala, te contei o meu segredo, amanhã logo bem cedo dos gansos eu vou cuidar...". 

Sempre que eu escrevo aqui, penso nisso. Ó sala, te contei os meus segredos... porque mesmo quando não há alguém atrás da porta, dizer em voz alta, contar pra alguém torna concretos os pensamentos, que dentro da nossa cabeça não passam de nadas, são só segredos, segredos feitos de eletricidade mas que não tem existência material. As palavras tem. E quando a gente diz, elas se transformam em outra coisa. Se transformam em outra coisa quando entram em contato com o mundo aqui fora! São como nós, que nascemos e nos tornamos algo diferente do lado de fora. É tanto que as pessoas marcam o dia do nascimento de palavras que acham especiais. O dia do pedido em casamento, o dia de uma briga que causou um ressentimento tão forte que separou duas pessoas. 

As palavras tem sido aqui minhas melhores amigas que me ajudam a carregar o peso das minhas incertezas e inseguranças. A dor de uma existência essencialmente solitária... ela se torna palavras e enfraquece. Mas aqui dentro ainda observo as tempestades e a dificuldade de acreditar que tantas coisas ruins me aconteceram. Aqui dentro estou à deriva e quando encontro uma formação rochosa na qual me segurar ela se torna água diante dos meus olhos e isso tem o poder de me entristecer profundamente. I'm out here on my own, drifting all alone. And if it doesn't show, take the time to read between the lines. A minha música, a trilha sonora dos meus desafetos, cada ano que passa ela se confirma mais como música da minha vida, que quero transformar em tatuagem porque aceito. Aceito que ela faz parte de mim. 

As palavras que saem de dentro de nós e transformam os donos dos ouvidos que as escutaram. Comigo foi assim, e com você também. Imagino, imagino... porque eu falo demais e passo do ponto e quantas vezes não me disseram isso. Incontáveis vezes. 

As coisas que nos são ditas, que nos ferem, e não colocamos objeções a elas... essas são o veneno de todo sentimento bom. Um veneno que tomamos silenciosamente, sendo o próprio silêncio um catalisador. Tantas vezes me surpreendi com coisas que você me disse com tamanha simplicidade e me foram tão dolorosas. Porém eu não disse nada e isso levou minha embarcaçãozinha pra longe. O que é que o vento leva com facilidade? Os sentimentos dos quais nos distraímos. 

 As perguntas que você não soube me responder, e as tantas outras que eu desisti de fazer, só porque  entendi que às vezes o melhor é não saber. Deixa estar. Eu quis lutar contra. Por quê? É inútil... o tempo se encarregou de me encantar e me colocou um óculos com lentes de cores vivas e amorosas que apagaram todos os seus defeitos e te fizeram angelical. Agora eles vem surgindo diante dos meus olhos um a um, a realidade trata do desencantar se permitirmos. E por que não se deixar perder no que quer que seja, a despeito da vontade? Sigo aprendendo que não se pode ter algo só porque quer. Não há garantias. E o sentido que existe nas coisas é só porque atribuímos. A priori, nada. E posteriormente, mais nada, porque o tempo é world-eater. Ele leva tudo...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor. Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração...
Que esse já não bate nem apanha
Por favor! Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...
Socorro, não estou sentindo nada, nada, nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar, nem de rir
Socorro, alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas...
Eu Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada!

Socorro, alguém me dê um coração
Qualquer coisa que se sinta...

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mindless self indulgence

5 de julho. Sinto que fui atropelada por um trem esse ano, essa é a analogia perfeita. Porque diferentemente de quando se é atropelado por um carro, um ônibus, uma bicicleta ou uma pessoa, o trem passa por cima de você assim: um vagão, depois outro depois outro depois outro e você fica lá embaixo entre os trilhos se perguntando quando essa merda vai acabar.

Justo no ano que eu tenho o meu primeiro "emprego" (e por que não chamar o mestrado de emprego, se no fim das contas você tem que devolver o dinheiro do governo caso não consiga defender? É até pior porque no emprego ninguém devolve o dinheiro pro patrão!) e tenho que lidar com todas as pressões que vem dele. Minha orientadora tem sete orientandas de mestrado, uma de monografia e uma doutoranda. Eu tô completamente largada num tema que ninguém que eu conheço pesquisou, numa ideia que talvez tenha sido extravagante demais. É impressionante como o mestrado parece um boss de fase final de jogo que cresce à medida que o relógio conta meu tempo regressivamente. É impressionante como o tempo passa rápido e parece que eu tô só olhando de boca aberta.

O mundo não pára pra esperar você se levantar. Você tem que correr atrás de tudo de coração partido. Você tem que ler aquelas 50 páginas feliz ou triste, motivado ou enquanto as lágrimas caem. Você tem que fazer aquele trabalho, cumprir aquela obrigação. Não pode parar, não pode. Eu finalmente entendi porque tem gente que toma Rivotril + Fluoxetina pra viver (põe até apelido nos remédios, o Rivo acaba que vira teu melhor amigo), porque tem gente que toma remédio pra dormir e acordar. Porque você não tem tempo mais de sentir dor. Bem, eu não tenho e it sucks big time. E não vou mentir que se eu pudesse faria isso. Eu sou de procurar o caminho mais fácil... só que eu sei que ia acabar sendo um vício a mais, um risco a mais. O que eu faria em tempos ruins com remédios que dão overdose assim na mão? Cruz credo. 

Eu precisei de indulgências e agora é difícil voltar pros sacrifícios. Na real é difícil conectar os passos do presente com o resultado do futuro. É difícil fazer esse trabalho, ler aquele texto. É difícil sentar e fazer coisas chatas quando seu corpo implora que você faça alguma coisa que te dê serotonina, dopamina. Porque eu amo evolução e a alegria que sinto quando aprendo algo sobre o tema, que sinto quando subo de nível e fico mais inteligente não tem comparação. Mas ler artigo é uma bosta. Quebrar a cabeça com questionário, validação, acertar a estatística, puta merda. A minha cabeça simplesmente prefere fazer qualquer outra coisa. Pensar em qualquer outra coisa. E eu não faço ideia de como recuperar o foco. Sei que eu fico tentando me consolar com prazeres e o quanto não posso mais fazer isso, que a culpa vai crescendo em progressão geométrica...

Eu apanhei tanto esse ano que me sinto o próprio pão que o diabo amassou com o rabo. E eu me pergunto o que vai ficar disso tudo. Se as metáforas de grafite virando diamante ou areia que enche o saco da ostra se aplicam a vida real, ou talvez de uma espada que apanhou muito na forja, quem sabe? Se vou virar uma rocha sábia ou o que vai ser de mim. Ou como diria o Axl "so what will happen to you baby, guess we'll have to wait and see". Wait é tudo que resta, mas um wait cruel, que é o wait ocupado. O wait sem tempo de passar horas em depressão na cama. O wait que tem que levantar e sorrir e ser forte porque ninguém ao seu redor é e além de tudo você tem que servir de pilar pros outros. 

A única coisa que pareceu me valer nisso tudo foi a lição de que pra sobreviver é necessário fazer planos. Tão simples, e eu lembro das aulas de Psicologia Organizacional dizendo que os velhos morrem depois que desistem de aprender, trabalhar, inventar... agora eu posso resumir: morre se não tem planos. A tristeza vem e te faz esquecer porque você tá vivo. E aí você tem que criar razões, é o que eu tenho feito. É que vou comprar aquele carro... superar esse trauma... voltar a falar alemão... vou viajar pra tal lugar, tudo assim ainda meio sem vontade, sem prazer. Tudo ainda mecânico, um esforço. Como quando você bate uma sem pensar em nada, só pra ter o barato, sem imaginar nenhuma deliciosidade erótica com a pessoa que você tá afim, só pelo resultado. É bem assim, um vazio, que eu espero (e só posso esperar) que as coisas um dia voltem a fazer sentido de verdade. 

sábado, 2 de julho de 2016




Preciso admitir
que estou um pouco confuso
às vezes me parece que eu só estou sendo usado

Preciso me manter acordado,
preciso sacudir esse mal estar estranho
Se eu não conseguir ficar de pé
como posso encontrar a saída desse labirinto?



(Pink Floyd)


Cinza

(um dos poucos textos do meu antigo blog que vale a pena salvar aqui)

01/01/11



Eu nunca gostei dessa cor, cinza. Ela é a cor que não é. Não é preto nem branco, é um misto, mas não é. Simplesmente não é.  É uma cor tediosa, que me deixa aborrecida. A cor das paredes do meu quarto é acinzentada. Mas não é cinza porque eu quis, ou porque ninguém quis. Na verdade é cinza porque ninguém quer. Por descuido mesmo. E talvez por causa disso eu tenha associado o cinza ao descuido. E ao gás, apesar de gás ser incolor, talvez seja por causa da fumaça que é cinza, ou das nuvens carregadas de chuva que também são cinza. O concreto é cinza. Prédios sem pintura são cinza, e eu odeio prédios. Uns outros pintados também são pintados de cinza, curiosamente. Jornais são cinza (e cheiram mal). Cinza é a cor da ação do tempo sobre os papéis e fotografias. Cinza é a cor da dor de cabeça, pelo menos da minha. Cinza é a cor do bonequinho do MSN quando alguém com quem você gostaria de conversar está offline. Você já sentiu uma cor? Eu sinto cinza quando estou triste, vazia ou sozinha. Ultimamente eu tenho sentido o cinza. É assim: eu estou no meu quarto, e de repente começo a sentir um cinza. Meus olhos ficam pesados, e eu me sinto muito cansada, então durmo. Quando acordo, parece que alguém roubou alguma coisa de dentro de mim enquanto eu dormia. Eu sinto um buraco vazio, cinza. Tudo fica meio acinzentado, assim, eu não vejo cinza, mas de alguma forma dentro da minha cabeça eu sinto que o cinza está lá. Às vezes então eu sento no meu computador procurando alguma coisa pra preencher o vazio. Assisto um filme, e o vazio não vai embora. Leio um livro. Procuro roupas novas em sites. Procuro mulheres muito mais bonitas que eu no Google, e fico olhando e um pouco chateada por não poder escolher como eu queria ser, pelo menos por fora. Jogo. Fico em redes sociais vendo a vida de pessoas que não me interessam nem um pouco, e pensando em como a vida delas talvez seja mais agitada ou divertida que a minha. Acho que ir pro computador é uma péssima alternativa pra preencher vazio. Bem, outras vezes eu não sinto direito onde é o vazio e acabo confundindo com o estômago, nesse momento por exemplo estou tentando preencher o vazio do meu cérebro com leite com Nescau, mas é inútil, nem preciso dizer. O cinza pesa no meu peito como uma rocha grande que é dessa mesma cor. Às vezes eu sinto uma falta de ar porque o cinza me lembra gás e fumaça. O cinza deixa tudo muito duro feito concreto. O cinza cai na minha cabeça como uma bigorna e quebra meu crânio e dentro dele só tem cinzas. A poeira também é cinza, como os dias que eu não tenho vivido e me tem uma textura de poeira. Cinza é o tempo que passa e me envelhece como uma fotografia indefesa. Cinza é minha sensação de abandono e meu orgulho indobrável, no tom do céu de São Paulo sem sol nem estrelas. Do nublado que simplesmente não é.

*updates: 
parei de tomar leite com nescau depois de mais de uma década de vício
nunca mais achei a vida de ninguém mais interessante que a minha, mesmo quando estou miserável