segunda-feira, 25 de abril de 2016

Oh, Fortuna

"Oh, Fortuna
Como a Lua, sempre cresces e decresces
Roda da sorte, tu és malevolente
Tu me amaldiçoou, e agora entro no jogo
Trago minhas costas nuas à tua vilania"

A deusa Fortuna é representada segurando em uma das mãos uma cornucópia, e na outra outra um leme. Estes elementos simbolizam que ela pode, por um lado, nos presentear com alegrias e fartura, e por outro, tirar tudo que temos e nos condenar. Acho que é por isso que sempre que me sinto muito feliz, ao mesmo tempo sinto um medo terrível: como eu disse antes, só se pode perder algo, quando se tem algo. Eu, como boa pessoa sã que sou, temo a Fortuna. 

Com o tempo eu aprendi a olhar o mundo, e ultimamente vejo os presentes da Fortuna por toda parte. Quando fui capaz de manter o coração aberto, a deusa me trouxe todo tipo de amores, e tenho vivido uma vida de prazeres cotidianos, uma vida contente consigo mesma. Como fosse pouco esse mar de alegrias, recebi recentemente um dos meus presentes favoritos: me apaixonei por alguém, e revivo as sensações incinerantes que já não sentia há tantos anos que cheguei ao ponto de acreditar que a capacidade que um dia tive para sentí-las havia se esvaído.

A sua imagem vem a minha mente a todo momento ainda que eu não permita: ele tem olhos cor de mel, e quando se presta atenção, é possível ver os risquinhos dentro de sua íris, que quando atingida por raios de luz me faz lembrar daqueles dias ensolarados em que nos sentimos felizes sem saber o porquê. Seus cabelos tem uma cor que parece ser feita para combinar com os olhos, são finos e lisos, lhe contornam o maxilar como uma moldura dourada, fazendo-o parecer os lordes encenados em filmes de época, e quando tocados, transmitem uma maciez e cheiro quase sagrados. Sua pele é como uma rosa branca, tanto na cor quanto na textura aveludada, e recoberta por fios de ouro quase imperceptíveis. Seus lábios são avermelhados e firmes como uma fruta muito doce madura, e quando ele sorri, poderia muito bem iluminar todo o vazio do Universo, caso essa fosse sua vontade. A sua voz é deliciosa para os ouvidos como é o som dos ventos ao tocar as folhas das árvores nos bosques, seu olhar é terno e me atravessa, e faz faltar a meu vocabulário elogios para lisonjeá-lo, para vê-lo sorridente, para acalmar meu coração com a certeza de que pude o reverenciar tanto quanto ele merece. O mero vislumbre do seu ser me faz sentir no fundo da garganta um gostinho de Paraíso.

Eu sinto um prazer enorme em observá-lo de perto e atentar pra cada detalhe da sua existência. Ele me deslumbra com seus pequenos detalhes, sem jamais fazer esforço para me causar boa impressão. A primeira vez que ficamos juntos, eu lhe mostrei as constelações, o que ele achou muita graça... mas eu queria que ele pudesse olhar na mesma direção que eu, para o céu que tanto admiro. A luz das estrelas é pura história do Universo que está no alcance dos nossos olhos, e como eu queria que ele me mostrasse de volta a luz das suas constelações interiores. Depois de afogarmos todos os nossos pudores em algumas doses de Jack Daniels, nos encontramos deitados, abraçados sem que nossos corpos encontrassem nenhuma barreira física, e ficamos conversando até as quatro horas da manhã, apenas nos conhecendo. E durante esse momento, senti que a minha alma encontrou uma tranquilidade aconchegante nos braços de um estranho inesperado. Noutro dia, ele me mostrou um blog onde escreve seus pensamentos, e observar a delicadeza da sua essência fez meu coração se desmanchar completamente. E assim como todas as coisas boas na vida, ele começou a me fazer falta, quando ausente. Uma falta que parece crescer a cada dia que passa, que me faz pensar assustada se não encontrará limites tão logo quanto possível, para que minha cabeça enfim se liberte de pensar nele dia e noite, de suspirar lembrando do máximo de detalhes sobre ele que pude absorver com meus sentidos, de acordar e desejar ver seu rosto mesmo que em arquivos de celular, de ir dormir a noite e ao lembrar da finitude da vida, desejar não viver mais nenhum momento sem ele.

Numa noite em que caminhamos juntos na chuva só pra enfrentar muito mais debaixo de uma banquinha de madeira, eu o vi secar meia garrafa de vodka barata e ficar com um olhar completamente diferente do normal, de uma forma que nunca esquecerei. Nós conversamos sobre nossos sentimentos e acho que pela primeira vez admitimos sentir algo um pelo outro. Ouvir tão doces palavras direcionadas a mim pronunciadas por ele foram de um êxtase que não se pode transformar em signos, que não se pode traduzir em linguagem. 

Por tanto tempo eu fui uma estranha, sempre a perguntar pras minhas amigas como podiam sentir o que sentiam, e agora eu pareço entender tudo. Sinto todas as tolices da paixão caindo sobre mim como um manto, e me tornando igualmente boba, ingênua e frágil. Tudo que eu mais temia se materializa diante de mim: eu sinto que tenho um coração de novo, e um coração pode ser ferido pelos outros. Eu sou agora vulnerável, e volto a compreender como é se sentir entregue nas mãos da Fortuna: a possibilidade de ela me tirar tudo que tenho me assombra, e torna minha mente inquieta, ausente, obcecada. Mas o acréscimo dos anos termina por nos trazer maturidade, e muito embora eu tenha o vislumbre das lágrimas adiante, sei que o caminho é me tranquilizar. Pois a vida é ausência de controle e nós somos da Fortuna as marionetes. No fim das contas, me resta a gratidão por ser uma consciência cheia de sentimentos justo no corpo de uma pequena primatinha perdida no Universo, que jura que encontrará correspondências espirituais pelo caminho...

I'd look right up at night
And all I'd see was darkness
Now I see the stars alright
I wanna reach right up, and grab one for you
When the lights went down in your house, yeah that made me happy...

terça-feira, 19 de abril de 2016

Time to be who I am





Passar por uma separação é um processo que por algum motivo sempre me assustou, sendo algo que tive evitado com todas as minhas forças durante muitos anos, os tantos que posso me lembrar, mesmo que às custas da minha sanidade mental e bem estar. É engraçado como mesmo essas coisas que parecem tão próprias do nosso jeito de ser mudam com o passar do tempo. Uma das partes mais interessantes em passar por esse tipo de processo é a possibilidade de voltar a olhar isoladamente pra si. É não ter que estar o tempo todo lidando com as necessidades, exigências e problemáticas do outro. 

Finalmente depois de tanta correria, eu posso me sentar, abrir o notebook e pensar sobre o que vou escrever. Pensar sobre quem sou eu e no que estou me tornando, nos caminhos que tenho percorrido, tentar entender o que está por trás das minhas ações, aceitar meus verdadeiros pensamentos e sentimentos, sem culpa. Tenho estado tão tranquila ultimamente, que tenho acreditado que uma vez que se atinge a paz de espírito, não há como voltar atrás. 

É tempo de descobrir exatamente quem sou sem amarras moralistas. É tempo de multiplicar o amor cada vez mais. É tempo de encontros cativantes, olhares curiosos para o mundo que me cerca, tempo de abertura de todos os sentidos. Tempo de gratidão pela vida imersa em pequenas alegrias e rodeada de pessoas fascinantes, e até pela mera oportunidade do viver. =)