quarta-feira, 23 de março de 2016

Reflexos de pôr do sol num dia comum




De vez em quando a Fortuna nos presenteia com um tempo livre durante o dia, e à parte das obrigações e pressa diária, temos a oportunidade de contemplar a beleza de um dia qualquer.

Nos arredores da minha casa, meu pequeno bairro residencial guarda seu charme simplório e bucólico, especialmente na direção contrária a da praia. Hoje eu fui à parada de ônibus por volta das 17:30, e no espaço aberto e (ainda) sem prédios na direção oeste vejo um pôr do sol que paira em cima do morrinho verde aos fundos da minha casa. O sol tingia nuvens altocumulus (aquelas que fazem parecer que alguém passou uma vassoura no céu, ou deu-lhe pinceladas) em tons rosados, e suas bordas contornadas de laranja davam a impressão de que eram feitas de metal líquido fervendo no céu, num fundo azul celeste. Elas ficaram em seus lugares até escurecer, como se nenhum vento corresse na atmosfera, até que o morrinho se tornasse negro, com um ar místico sob o céu arroxeado. Vi brilharem as primeiras estrelas, e depois por entre os prédios que corriam a medida que o ônibus avançava, a lua cheia surgir no leste, rodeada pelas mesmas nuvens, que agora criavam um cenário de um vulcão dourado em erupção no céu.

Pena que tantos de nós ainda esquecem de olhar pra cima e se encantar com os espetáculos únicos da natureza, que nunca mais se repetirão. Perde-se os momentos presentes a tentar prever o que vai acontecer no próximo momento, e no outro, no outro, até mesmo no momento depois do fim da vida, ou a amaldiçoar o tempo e as linhas que ele tece em nossos corpos com suas agulhas, ou a reclamar da forma como ele dá seus passos, ou a desejar que tudo acabe logo, que se chegue logo ao destino, ao dia seguinte, ao momento seguinte. Não há disposição para observar o caminhar das formiguinhas em suas filas organizadas, as voltas dos astros nos céus, a forma com que o dia se encurta ou estende no passar dos meses, os dias em que as borboletas parecem revoar todas juntas, os meteoros que caem todas as noites ou simplesmente a sensação de estender a coluna na cama depois de um longo dia.

Em tempo compreendi que a vida que vale a pena ser vivida é aquela em que podemos apreciar cada momento sem apressá-lo, sem desejar que chegue um próximo que apenas idealizamos na nossa cabeça, mas que nem mesmo irá se realizar conforme desejamos. As sutilezas do cotidiano são tão alegres, e deixar que os sentidos lhes alcancem  parece ser melhor do que travar uma luta inútil contra a majestade do Tempo e da Fortuna, pois tudo correrá conforme suas vontades.