terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O DESEJO PELO ÓDIO



Só há uma forma de conhecer verdadeiramente os meus pensamentos. Basta estar comigo após o relógio anunciar a meia-noite. Existe um crustáceo marinho que acho particularmente fascinante, chamado mantis shrimp. Esse serzinho de 10 cm é capaz de dar um soco tão poderoso pra esmagar suas presas que a água ao seu redor ferve, podendo produzir até mesmo sonoluminescência. Quando em cativeiro, não é raro quebrar as paredes do aquário, uma vez que ele é capaz de concentrar 60kg de força numa área muito pequeninha. No entanto, ele precisa trocar constantemente de carcaça, e nesses momentos ele fica tão perfeitamente vulnerável como uma lesminha macia. Acho que a madrugada corresponde à minha troca de exoesqueleto, o momento em que meu coração se abre completamente pra deixar entrar todas as dores e fraquezas que foram repelidas durante o dia. 

Ontem eram quinze pras quatro da manhã de uma segunda feira, e eu estava tomando um copo cheio de vinho barato encontrado fortuitamente na geladeira que acabou derramando nos lençóis da minha cama. É só o quarto dia seguido que vinha bebendo nessa semana (hoje, o quinto), muito embora o motivo de ontem tenha sido especialmente outro. A sensação da cabeça balançando pra frente e pra trás como num barquinho enquanto eu estou completamente parada já foi um princípio de conforto pra uma dor estranha que estive sentindo: o ciúme. 

Às vezes o amor é algo digno de boas risadas. Ou talvez eu seja algo digno de boas risadas, não sei. A cada dia que passa eu me torno mais consciente de mim mesma, e percebi recentemente que o meu corpo quer ódio correndo pelo sangue tanto quanto quer o glicogênio. Estou num relacionamento que beira a perfeição dos romances escritos pra moças de séculos anteriores, digno de trovas medievais de amor ou aqueles dramas românticos estilo Eternal sunshine of the spotless mind aos quais por muito tempo eu fui incapaz de dar a credibilidade da existência. 

O meu espírito, no entanto, clama por motivos pra não confiar nele. O meu espírito não quer ser entregue à um homem. O meu espírito sente o medo arder nas profundas cicatrizes causadas pelos meus relacionamentos anteriores, e como a máxima vazia preferida do meu pai, “quem procura, acha”, eu descobri umas tantas coisas que me tornaram insegura, cruel, viciada e irada. E agora as pedras lisas esculpidas em correnteza de riacho do caminho se tornaram quase tão afiadas quanto lanças, quando eu, sem razão nenhuma, estou a sentir ciúmes do passado, a me auto-infligir ódio, a me tornar de novo rocha e deserto estéril. Quando a noite cai e leva embora minhas defesas leio e releio suas doces palavras e encantamentos dirigidos a outras em outros tempos, só pra sentir a convulsão da dor no peito. Mas por quê? Só porque o amor é algo digno de boas risadas, ou porque talvez eu o seja, e para me fazer entender que a sublimidade da sabedoria ainda está longe do alcance dos meus bracinhos.