sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Iggy...

Hoje eu terminei minha garrafa de Jack Daniels.

Gosto de começar assim porque já li muito Bukowski um dia, e ele sempre dava um jeito de colocar uma garrafa de álcool nos seus escritos. Ele também costumava exagerar bastante, fantasiando uma vida muito mais extraordinária do que a realidade; isso nós também temos em comum.

Agora sem certeza da plenitude das minhas funções mentais e sofrendo os efeitos colaterais da ingestão de álcool, tenho a desculpa perfeita pra encobrir qualquer atitude vergonhosa, e ao mesmo tempo, as portas abertas para a iluminação das musas que se assemelham ao conceito de almas obssessoras do espiritismo, afinal a imaginação e inspiração parecem ter uma afinidade por drogas, e o que muda é nossa forma de explicá-las, desde a neurociência ao misticismo.
Quando olho pra minha dificuldade crescente em escrever qualquer coisa, vejo claramente a associação de dois traços que fortemente compõem o meu ser: o constrangimento e o perfeccionismo. O primeiro me impede de sequer dar ouvidos às minhas próprias emoções, o segundo, de terminar de escrever qualquer coisa que começo.

Eu estava obstinada por me manter impessoal, e falar das coisas como se fossem generalizações. Quando na verdade quero falar apenas do particular.  Tentava abranger todos os tempos verbais, quando minhas emoções me fizeram lembrar que estamos no presente, e que ele é tudo que há. As projeções de futuro são um dos maiores diferenciais de nossa espécie, ao mesmo tempo dom e maldição. Mas não é nisso que quero me deter, e portanto chega de tantas explicações.
Frequentemente tenho o impulso de agarrar o celular e ouvir suas mensagens de voz. Que diabo essa tecnologia. Quando eu era nova, a gente tinha que guardar dentro da cabeça uma conversa importante ou a voz de quem a gente gostava, e assim era mais fácil de esquecer nossas paixões proibidas, porque não podíamos ficar revivendo elas a qualquer hora que quiséssemos. Me diverte e ao mesmo tempo maravilha a forma como fragmentos tão insignificantes de interação com alguém podem despertar profundamente nossa sensibilidade, e o pior, a gama de emoções mais escrota e ardilosa que existe, aquela que eu tenho o costume de jamais nomear, pra não ter que definir o que é e assim me manter no aconchego da abstração. Redescobrir madrugadas alcolizadas pode parecer ruim à primeira vista, mas nem tanto quando olho pra vida que vinha seguindo, e pra isso, preciso invocar um trechinho muito caro pra mim escrito pelo Manoel de Barros:

“Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.”

Eu estive durante todo esse tempo anestesiada pela vida comum, cheia de monos. Monografia, monogamia, monotonia, monólogos. E quando se vive assim, o espírito acaba que cobiça (no sentido de lust, palavra que pra mim é intraduzível) por um pouco de pathos, da soma da emoção com o exagero. E eis que meu coração ansioso por “ser Outros” encontra um objeto de desejo, que pra o meu azar, podia ser coroado rei da Terra da Indiferença e da Manipulação Emocional, e ao qual me torno imediatamente vassala, na melhor das hipóteses, porque pra isso eu teria ao menos que ser nobre, serva, e acho que na minha situação, a minha casta social verdadeira é a dos escravos.

Sento aqui e fico projetando doces situações irrealizavéis, distraída do que os outros falam ao redor. Há muito tempo não sou aprisionada por sonhos, não habito expectativas malucas, não deixo que outros me determinem as emoções. Então vou ter que admitir que fui pega nos fios de um verdadeiro mestre das marionetes, que me faz amaldiçoar neurotransmissores, hormônios, fairytales Hollywoodianos ilusórios, idealizações culturais idiotas e tudo o mais que leva um ser humano a chegar em tão baixa condição, como eu. Porque é o despertar dos sentimentos que nos torna auto-conscientes de nossa solidão, que perturba a quietude vazia das nossas vidinhas insignificantes, que nos dá a mais profunda consciência da ausência de sentido de tal coisa que é o amor, que arrebata, nos deixa rendidos, à deriva, submissos, servos, impulsivos, desprovidos de vergonha na cara, só pra depois nos cuspir fora, acabar e sumir e não resultar em nada em nossas vidas, que não ruínas e estilhaços no nosso interior, além de é claro, muitas vários cigarros adicionados na contagem regressiva do colapso dos nossos pulmões, noites mal dormidas pensando em nossas atitudes vergonhosas, um travesseiro quase afogado em lágrimas e o terror de reviver toda essa maluquice. Escrevo em reverência aos sentimentos que me fizeram dar novamente um significado as palavras da minha querida Wish you Were Here enquanto a escuto, para aplacar a ansiedade e conseguir um pouco de sono, mas acima de tudo para que as confissões me tirem da cabeça os devaneios ingênuos. E por fim para enterrar tudo isso, mas não sem deixar o registro de sua sublimidade no curtinho tempo de existência que durou. :)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

To a friend of mine (pequenos registros de felicidade)



Sabe amigo, eu só tenho a agradecer a você.

Desde que conversamos, eu tive a motivação final que faltava pra terminar o meu namoro infeliz. Mas você me fez mais do que somente me tirar de um relacionamento fracassado.

Você me fez desejar saber de novo. Você refletiu o meu eu de antigamente, que era apaixonado pelo conhecimento. Que acreditava que o meu grande destino na Terra era aprender, crescer e amadurecer. Quando eu vi você agindo assim, pensando exatamente assim, eu pude ver uma parte de mim que havia esquecido.

A vida é tão bela, meu amigo. Hoje precisei procurar uns formigueiros lá perto da reitoria da universidade que a gente estuda. Eu vi tantas coisas que a gente nunca repara. Ninhos e ninhos de animais diferentes à minha volta. Várias formigas de gêneros diferentes, uma colméia de abelhinhas sem ferrão, cupins, gatos, saguis vocalizando uns com os outros e comendo exudado das árvores. Tantas árvores de espécies diferentes, frutíferas, algumas com ninhos de passarinhos nas pontas dos galhos. O vento produzindo um som agradável ao alcançar aquelas tantas folhas diferentes. Insetos cantando. Meu amigo biólogo que estava comigo mostrou as tocas das corujas, e tinha um casal de corujinhas marrons numa árvore seca, só olhando pra gente. É tanta vida ao nosso redor, tanta beleza que a gente não vê, obscurecidas por nossas bobagens e preocupações triviais do cotidiano. Faz muito bem olhar em volta e reparar no que passa despercebido aos nossos olhos, do lado de fora de nossas cabeças!
Queria que você sentisse a natureza como eu e pudesse ver que nós somos com ela uma coisa só. Tanto quanto eu e você somos parte também de uma coisa só, somos também a Gaia junto com todas as outras coisas. Me preenche o amor pela vida, pelos nossos irmãos. O respeito pelas coisas vivas. Compreendi finalmente, depois daquele breve-porém-intenso episódio de desilusão, o significado do amor.

Hoje em dia vejo: não existe necessidade de fazer mal. Não existe necessidade de se aborrecer, denegrir, execrar, odiar. Como o mundo funciona bem pra nós quando abrimos o nosso coração! Eu passei a ter disponibilidade para os outros. Sempre que alguém me chama pra sair, a resposta é sim. Tenho sempre amor, apoio, ouvidos, acolhimento, elogios, presentes, gratidão a oferecer. Sempre me esforço para fazer o máximo de bem, e o que posso para ajudar os outros. Estou aprendendo tanto! As pessoas passaram a me receber de braços abertos e a me querer por perto, e isso é algo que por tanto tempo eu achei que não era possível de acontecer. Me alegra fazer os outros felizes, estar sempre sorrindo e com boa disposição. Será que sou um cachorrinho treinado? Uma formiga sistemática? Não sei. Tudo que sou capaz de saber a esse ponto é o quanto é boa a sensação de amar, doar, ser generosa, gentil, doce, compartilhar de bom grado o que quer que se tenha com os outros. O quanto é bom mergulhar de cabeça no que quer que se esteja fazendo. 

Se eu pudesse te dar um conselho que fosse, meu amigo, seria: ame. Sinta, se entregue. Não tenha medo de se machucar, nem de sofrer. Contemple como o mundo funciona bem cheio de amor. Como o amor enche de luz as nossas vidinhas mirradas e opacas, e as torna uma pintura brilhante, impressionista, cheia de cores e significado. Seja bom, meu amigo, sempre que tiver essa escolha. Aja em direção ao bem, a virtude, e nunca para destratar o que há a sua volta, pois é tudo parte de você. Não seja agressivo com o mundo “externo”, pois essa é uma separação tola. Os males que fazemos acabam por pairar a nossa volta. Não engane, não minta. A mentira é coisa de quem precisa esconder o mal que fez. Tudo se tornará consequência. A alegria também inspira, também traz sentido pra vida, também produz arte em todas as formas. 

É como diria a musiquinha do Velvet Underground:

“I'm going up, and I'm going down
I'm going from side to side
See the bells, up in the sky
Somebody's cut their string in two
Baby be good, do what you should, you know it will work alright
Baby be good, do what you should, you know it will be alright”

https://www.youtube.com/watch?v=L2VjZGd8sDQ

domingo, 6 de setembro de 2015

Sobre tudo e nada

(Um texto sem preocupações com estética e finalidade)

“A vida passa muito rápido; se você não parar e olhar ao redor de vez em quando, você pode perdê-la.” 

Essa frase, dita pelo Ferris Bueler em Curtindo a Vida Adoidado, é inesquecível para mim. 
Quando resolvi abandonar a terapia, a minha psicóloga perguntou se eu estava “praticando a gratidão”. Praticar a gratidão nada mais é do que lembrar-se das coisas pelas quais se tem a agradecer ao invés de ficar throwing shade na própria vida. Essa era uma das muitas coisas que me irritavam profundamente nela. Ter sobre a gratidão um olhar de obrigação diária, uma prática, ao invés de um insight natural que aparece ocasionalmente, vez ou outra. A verdadeira gratidão se dá, sim, quando estamos prestando atenção em nossas vidas. Mas não necessariamente TODOS os dias. A vida terá dias ruins, de desânimo, frustração, tristeza, perdas, dor. Na minha opinião, quando fazemos de um sentimento tão sublime uma obrigação, arruinamos todo o seu sentido. Especialmente quando “praticamos” a gratidão só pra jamais entrar em depressão ou ficarmos angustiados, já que esses sentimentos nos impedem de cumprir satisfatoriamente nossas obrigações laborais, e não mais do que isso. A grande preocupação dela era acima de tudo a manutenção do Sistema tal como ele é, a forte crença de que o trabalho é o Sol no qual a vida de alguém deve girar em torno, enquanto todo o resto é deixado pra trás. Isso me dava nojo, jamais vai se aplicar a mim. A minha vida é contemplação, acima de tudo. É isso que traz tranquilidade ao meu ser. como vai me fazer falta a instabilidade da minha faculdade, quando eu arrumar um emprego. Como vai fazer falta poder levar o meu cachorrinho pra passear na praça as 16:30, ao cair do sol, ouvindo os passarinhos cantando enquanto se recolhem aos seus ninhos, o som do vento batendo nas folhas das árvores e poder tocar as plantas pra descobrir suas diferentes texturas. Como vai fazer falta ver os primeiros morcegos da noite voando baixo em busca de comida. Como vai fazer falta observar o pôr do sol cor-de-rosa atrás da minha casa, num lindo cenário composto pelo pinheiro da vizinha e o morro que tem no final da rua. Como vai fazer falta poder deitar na cama as 14h e ficar ouvindo os ônibus passando na rua de trás, e de noite os cachorros dos vizinhos latindo e uivando. Como vai fazer falta simplesmente passar a madrugada acordada pensando na minha vida e poder acordar tarde no dia seguinte. Sentar na varanda e ficar olhando Lulu brincar no jardim. Tirar fotos das flores à medida que elas vão desabrochando. Dançar twerk de madrugada, brincar de vestir as minhas roupas mais loucas que eu não tenho oportunidade de usar. Resumir todas essas coisas a dois únicos dias da semana parte meu coração. Como eu amo a liberdade, a flexibilidade, o poder de escolha. Como me doem as prisões, as privações, as dietas, os exercícios físicos forçados em academia, o cumprimento de horários, prazos e rituais infelizes. Como vai me faltar fazer as coisas a meu tempo, do meu jeito, e não numa rotina obrigatória que claramente não foi criada para pessoas como eu.

Lembro que quando ela disse isso de gratidão, também estava referindo ao que eu disse sobre terminar com o meu namorado. Durante a terapia pude perceber que na compreensão dela meu ex-namorado era um anjo da guarda que desceu das nuvens, e eu era uma louca insatisfeita que colocava defeito em tudo. Por um lado, isso me deixa ver como é importante na minha profissão que nós NÃO tentemos colocar o nosso entendimento das situações acima da dos nossos pacientes, afinal, quem vive a vida deles são eles, só eles são capazes de compreender o que é bom e certo pra si mesmos. Uma hora de encontro semanal NÃO!!!! te torna apto ou capaz de compreender, JAMAIS a vida de outro alguém. Uma hora de conversa por semana não é nada pra se ter uma ideia de como é a vida de uma pessoa. Desde que resolvi contrariar essa doutrina barata e terminar com meu namorado, minha vida certamente deu um twist de 180º. Eu estava tão triste, presa nas obrigações e falta de perspectiva. Minha vida se encontrava estática em um vazio. Claro que eu ainda tenho minhas preocupações bobas. E se ninguém mais me amar? Será que um dia eu vou namorar de novo? O que fazer com tudo que restou do nosso relacionamento, todas as fotos, cartões, presentes? Será que a vida é pra se encontrar alguém, e ficar junto? Isso existe ou é utopia pra manter as mulheres iludidas e obedientes? É só uma forma de organização do Sistema? Monogamia não-seriada funciona? Por que a maioria dos mamíferos é poligâmica? Quem passa décadas juntos é feliz ou acomodado? Eu sou capaz de amar alguém que não a mim mesma? O que vou fazer quando precisar de alguém e não tiver ninguém com quem contar? Como vou saber quando eu encontrar “a pessoa certa”? Será que um dia vou beijar de boca de novo, etc. Porém eu posso dizer, nessa maravilhosa madrugada do dia 03/09/2015, que pela primeira vez na vida, não sinto que PRECISO ou DEPENDO de alguém. Agora que eu tenho tempo pra simplesmente olhar pra minha vida, pra mim, que não preciso sempre estar correndo em função de obrigações para com um constante outro exigente, que não preciso estar sempre agradando e correspondendo uma determinada pessoa, que posso estar plenamente com as pessoas que me encontro na rua, meus amigos, colegas de curso, plenamente nos meus momentos de solidão, sem estar com outra pessoa sempre em mente, eu tenho PAZ, e não ânsia, e não tristeza, e não falta. Eu finalmente posso dizer: estou grata, estou grata pela minha vida. Estou grata pela forma que minha vida se conduz, eu quero ser eu, estou feliz por ser eu e não outra, apesar de tudo que já me aconteceu na vida. É claro que me alegra a companhia dos outros. Mas acima de tudo, o meu estar aqui sozinha pensando em mim, como isso me faz bem. Ser é um conforto. Existir nesse tempo e não outro. É tão importante aproveitar cada segundo. Olhar em volta de vez em quando. Estar plenamente nos momentos, viver as pequenas coisas com a mente vazia. Eu sou feliz, e amo o gosto da liberdade. =)



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eu não sou capaz de derramar uma lágrima sequer
Por mais que em um momento eu pensei
Estar viva por dentro
Esse momento se foi
E o que restou foi tão somente
O ódio pelas ilusões.