domingo, 18 de outubro de 2015

Notas



Outro dia eu estava assistindo um dos vídeos do Clóvis de Barros Filho (um filósofo) em que ele dá um conceito interessante sobre felicidade: é um momento que você deseja que não acabe. 

Eu tenho vivido muitos dias de felicidade genuína. Cada momento que passa, eu não quero que acabe, e tantas vezes me dá uma vontade de segurar o tempo com as mãos, mas ele vai embora feito areia fininha de ampulheta. 

Isso me faz lembrar do momento em que o Lorde Wotton conhece Dorian Gray, e lhe fala:

"O verdadeiro mistério do mundo é o visível, nunca o invisível... Sim, Mr. Gray, os Deuses lhe foram favoráveis. Mas o que os Deuses dão, tornam a tomar depressa. Serão poucos os anos que poderá viver, realmente, perfeitamente, plenamente; sua beleza se esvairá com a mocidade e imediatamente lhe será fácil reconhecer que não mais poderá contar com triunfos, senão viver dessas migalhas de triunfos, que a memória do passado tornará mais amargas que as derrotas. Cada mês de vida que se vai aproxima-o de qualquer coisa terrível. O tempo tem ciúmes de si e castiga os lírios e as rosas. (...) Viva! Viva a maravilhosa vida de que dispõe! Não queira perder nada! Busque sempre novas sensações! Nada receie... Um novo Hedonismo, eis o que pede este século. O símbolo tangível pode estar em si. Nada há de relativo à sua personalidade que não possa realizar. O mundo é seu, por algum tempo!"

O mundo é meu, mas durante uma curta temporada... até a felicidade tem gosto amargo quando se sabe o quão rápido ela tem fim.

Quando eu era mais nova e ouvia muito Metallica, uma das músicas deles de alguma forma me deu uma lição de que "se você não tem nada, não tem nada a perder". Desde então eu tenho me esforçado para nada ter, e nada perder. Eis que agora tenho tudo quanto poderia querer em mãos, e me assombra o fantasma da mudança, ceifador das pequenas felicidades dos momentos perfeitos. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Iggy...

Hoje eu terminei minha garrafa de Jack Daniels.

Gosto de começar assim porque já li muito Bukowski um dia, e ele sempre dava um jeito de colocar uma garrafa de álcool nos seus escritos. Ele também costumava exagerar bastante, fantasiando uma vida muito mais extraordinária do que a realidade; isso nós também temos em comum.

Agora sem certeza da plenitude das minhas funções mentais e sofrendo os efeitos colaterais da ingestão de álcool, tenho a desculpa perfeita pra encobrir qualquer atitude vergonhosa, e ao mesmo tempo, as portas abertas para a iluminação das musas que se assemelham ao conceito de almas obssessoras do espiritismo, afinal a imaginação e inspiração parecem ter uma afinidade por drogas, e o que muda é nossa forma de explicá-las, desde a neurociência ao misticismo.
Quando olho pra minha dificuldade crescente em escrever qualquer coisa, vejo claramente a associação de dois traços que fortemente compõem o meu ser: o constrangimento e o perfeccionismo. O primeiro me impede de sequer dar ouvidos às minhas próprias emoções, o segundo, de terminar de escrever qualquer coisa que começo.

Eu estava obstinada por me manter impessoal, e falar das coisas como se fossem generalizações. Quando na verdade quero falar apenas do particular.  Tentava abranger todos os tempos verbais, quando minhas emoções me fizeram lembrar que estamos no presente, e que ele é tudo que há. As projeções de futuro são um dos maiores diferenciais de nossa espécie, ao mesmo tempo dom e maldição. Mas não é nisso que quero me deter, e portanto chega de tantas explicações.
Frequentemente tenho o impulso de agarrar o celular e ouvir suas mensagens de voz. Que diabo essa tecnologia. Quando eu era nova, a gente tinha que guardar dentro da cabeça uma conversa importante ou a voz de quem a gente gostava, e assim era mais fácil de esquecer nossas paixões proibidas, porque não podíamos ficar revivendo elas a qualquer hora que quiséssemos. Me diverte e ao mesmo tempo maravilha a forma como fragmentos tão insignificantes de interação com alguém podem despertar profundamente nossa sensibilidade, e o pior, a gama de emoções mais escrota e ardilosa que existe, aquela que eu tenho o costume de jamais nomear, pra não ter que definir o que é e assim me manter no aconchego da abstração. Redescobrir madrugadas alcolizadas pode parecer ruim à primeira vista, mas nem tanto quando olho pra vida que vinha seguindo, e pra isso, preciso invocar um trechinho muito caro pra mim escrito pelo Manoel de Barros:

“Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.”

Eu estive durante todo esse tempo anestesiada pela vida comum, cheia de monos. Monografia, monogamia, monotonia, monólogos. E quando se vive assim, o espírito acaba que cobiça (no sentido de lust, palavra que pra mim é intraduzível) por um pouco de pathos, da soma da emoção com o exagero. E eis que meu coração ansioso por “ser Outros” encontra um objeto de desejo, que pra o meu azar, podia ser coroado rei da Terra da Indiferença e da Manipulação Emocional, e ao qual me torno imediatamente vassala, na melhor das hipóteses, porque pra isso eu teria ao menos que ser nobre, serva, e acho que na minha situação, a minha casta social verdadeira é a dos escravos.

Sento aqui e fico projetando doces situações irrealizavéis, distraída do que os outros falam ao redor. Há muito tempo não sou aprisionada por sonhos, não habito expectativas malucas, não deixo que outros me determinem as emoções. Então vou ter que admitir que fui pega nos fios de um verdadeiro mestre das marionetes, que me faz amaldiçoar neurotransmissores, hormônios, fairytales Hollywoodianos ilusórios, idealizações culturais idiotas e tudo o mais que leva um ser humano a chegar em tão baixa condição, como eu. Porque é o despertar dos sentimentos que nos torna auto-conscientes de nossa solidão, que perturba a quietude vazia das nossas vidinhas insignificantes, que nos dá a mais profunda consciência da ausência de sentido de tal coisa que é o amor, que arrebata, nos deixa rendidos, à deriva, submissos, servos, impulsivos, desprovidos de vergonha na cara, só pra depois nos cuspir fora, acabar e sumir e não resultar em nada em nossas vidas, que não ruínas e estilhaços no nosso interior, além de é claro, muitas vários cigarros adicionados na contagem regressiva do colapso dos nossos pulmões, noites mal dormidas pensando em nossas atitudes vergonhosas, um travesseiro quase afogado em lágrimas e o terror de reviver toda essa maluquice. Escrevo em reverência aos sentimentos que me fizeram dar novamente um significado as palavras da minha querida Wish you Were Here enquanto a escuto, para aplacar a ansiedade e conseguir um pouco de sono, mas acima de tudo para que as confissões me tirem da cabeça os devaneios ingênuos. E por fim para enterrar tudo isso, mas não sem deixar o registro de sua sublimidade no curtinho tempo de existência que durou. :)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

To a friend of mine (pequenos registros de felicidade)



Sabe amigo, eu só tenho a agradecer a você.

Desde que conversamos, eu tive a motivação final que faltava pra terminar o meu namoro infeliz. Mas você me fez mais do que somente me tirar de um relacionamento fracassado.

Você me fez desejar saber de novo. Você refletiu o meu eu de antigamente, que era apaixonado pelo conhecimento. Que acreditava que o meu grande destino na Terra era aprender, crescer e amadurecer. Quando eu vi você agindo assim, pensando exatamente assim, eu pude ver uma parte de mim que havia esquecido.

A vida é tão bela, meu amigo. Hoje precisei procurar uns formigueiros lá perto da reitoria da universidade que a gente estuda. Eu vi tantas coisas que a gente nunca repara. Ninhos e ninhos de animais diferentes à minha volta. Várias formigas de gêneros diferentes, uma colméia de abelhinhas sem ferrão, cupins, gatos, saguis vocalizando uns com os outros e comendo exudado das árvores. Tantas árvores de espécies diferentes, frutíferas, algumas com ninhos de passarinhos nas pontas dos galhos. O vento produzindo um som agradável ao alcançar aquelas tantas folhas diferentes. Insetos cantando. Meu amigo biólogo que estava comigo mostrou as tocas das corujas, e tinha um casal de corujinhas marrons numa árvore seca, só olhando pra gente. É tanta vida ao nosso redor, tanta beleza que a gente não vê, obscurecidas por nossas bobagens e preocupações triviais do cotidiano. Faz muito bem olhar em volta e reparar no que passa despercebido aos nossos olhos, do lado de fora de nossas cabeças!
Queria que você sentisse a natureza como eu e pudesse ver que nós somos com ela uma coisa só. Tanto quanto eu e você somos parte também de uma coisa só, somos também a Gaia junto com todas as outras coisas. Me preenche o amor pela vida, pelos nossos irmãos. O respeito pelas coisas vivas. Compreendi finalmente, depois daquele breve-porém-intenso episódio de desilusão, o significado do amor.

Hoje em dia vejo: não existe necessidade de fazer mal. Não existe necessidade de se aborrecer, denegrir, execrar, odiar. Como o mundo funciona bem pra nós quando abrimos o nosso coração! Eu passei a ter disponibilidade para os outros. Sempre que alguém me chama pra sair, a resposta é sim. Tenho sempre amor, apoio, ouvidos, acolhimento, elogios, presentes, gratidão a oferecer. Sempre me esforço para fazer o máximo de bem, e o que posso para ajudar os outros. Estou aprendendo tanto! As pessoas passaram a me receber de braços abertos e a me querer por perto, e isso é algo que por tanto tempo eu achei que não era possível de acontecer. Me alegra fazer os outros felizes, estar sempre sorrindo e com boa disposição. Será que sou um cachorrinho treinado? Uma formiga sistemática? Não sei. Tudo que sou capaz de saber a esse ponto é o quanto é boa a sensação de amar, doar, ser generosa, gentil, doce, compartilhar de bom grado o que quer que se tenha com os outros. O quanto é bom mergulhar de cabeça no que quer que se esteja fazendo. 

Se eu pudesse te dar um conselho que fosse, meu amigo, seria: ame. Sinta, se entregue. Não tenha medo de se machucar, nem de sofrer. Contemple como o mundo funciona bem cheio de amor. Como o amor enche de luz as nossas vidinhas mirradas e opacas, e as torna uma pintura brilhante, impressionista, cheia de cores e significado. Seja bom, meu amigo, sempre que tiver essa escolha. Aja em direção ao bem, a virtude, e nunca para destratar o que há a sua volta, pois é tudo parte de você. Não seja agressivo com o mundo “externo”, pois essa é uma separação tola. Os males que fazemos acabam por pairar a nossa volta. Não engane, não minta. A mentira é coisa de quem precisa esconder o mal que fez. Tudo se tornará consequência. A alegria também inspira, também traz sentido pra vida, também produz arte em todas as formas. 

É como diria a musiquinha do Velvet Underground:

“I'm going up, and I'm going down
I'm going from side to side
See the bells, up in the sky
Somebody's cut their string in two
Baby be good, do what you should, you know it will work alright
Baby be good, do what you should, you know it will be alright”

https://www.youtube.com/watch?v=L2VjZGd8sDQ

domingo, 6 de setembro de 2015

Sobre tudo e nada

(Um texto sem preocupações com estética e finalidade)

“A vida passa muito rápido; se você não parar e olhar ao redor de vez em quando, você pode perdê-la.” 

Essa frase, dita pelo Ferris Bueler em Curtindo a Vida Adoidado, é inesquecível para mim. 
Quando resolvi abandonar a terapia, a minha psicóloga perguntou se eu estava “praticando a gratidão”. Praticar a gratidão nada mais é do que lembrar-se das coisas pelas quais se tem a agradecer ao invés de ficar throwing shade na própria vida. Essa era uma das muitas coisas que me irritavam profundamente nela. Ter sobre a gratidão um olhar de obrigação diária, uma prática, ao invés de um insight natural que aparece ocasionalmente, vez ou outra. A verdadeira gratidão se dá, sim, quando estamos prestando atenção em nossas vidas. Mas não necessariamente TODOS os dias. A vida terá dias ruins, de desânimo, frustração, tristeza, perdas, dor. Na minha opinião, quando fazemos de um sentimento tão sublime uma obrigação, arruinamos todo o seu sentido. Especialmente quando “praticamos” a gratidão só pra jamais entrar em depressão ou ficarmos angustiados, já que esses sentimentos nos impedem de cumprir satisfatoriamente nossas obrigações laborais, e não mais do que isso. A grande preocupação dela era acima de tudo a manutenção do Sistema tal como ele é, a forte crença de que o trabalho é o Sol no qual a vida de alguém deve girar em torno, enquanto todo o resto é deixado pra trás. Isso me dava nojo, jamais vai se aplicar a mim. A minha vida é contemplação, acima de tudo. É isso que traz tranquilidade ao meu ser. como vai me fazer falta a instabilidade da minha faculdade, quando eu arrumar um emprego. Como vai fazer falta poder levar o meu cachorrinho pra passear na praça as 16:30, ao cair do sol, ouvindo os passarinhos cantando enquanto se recolhem aos seus ninhos, o som do vento batendo nas folhas das árvores e poder tocar as plantas pra descobrir suas diferentes texturas. Como vai fazer falta ver os primeiros morcegos da noite voando baixo em busca de comida. Como vai fazer falta observar o pôr do sol cor-de-rosa atrás da minha casa, num lindo cenário composto pelo pinheiro da vizinha e o morro que tem no final da rua. Como vai fazer falta poder deitar na cama as 14h e ficar ouvindo os ônibus passando na rua de trás, e de noite os cachorros dos vizinhos latindo e uivando. Como vai fazer falta simplesmente passar a madrugada acordada pensando na minha vida e poder acordar tarde no dia seguinte. Sentar na varanda e ficar olhando Lulu brincar no jardim. Tirar fotos das flores à medida que elas vão desabrochando. Dançar twerk de madrugada, brincar de vestir as minhas roupas mais loucas que eu não tenho oportunidade de usar. Resumir todas essas coisas a dois únicos dias da semana parte meu coração. Como eu amo a liberdade, a flexibilidade, o poder de escolha. Como me doem as prisões, as privações, as dietas, os exercícios físicos forçados em academia, o cumprimento de horários, prazos e rituais infelizes. Como vai me faltar fazer as coisas a meu tempo, do meu jeito, e não numa rotina obrigatória que claramente não foi criada para pessoas como eu.

Lembro que quando ela disse isso de gratidão, também estava referindo ao que eu disse sobre terminar com o meu namorado. Durante a terapia pude perceber que na compreensão dela meu ex-namorado era um anjo da guarda que desceu das nuvens, e eu era uma louca insatisfeita que colocava defeito em tudo. Por um lado, isso me deixa ver como é importante na minha profissão que nós NÃO tentemos colocar o nosso entendimento das situações acima da dos nossos pacientes, afinal, quem vive a vida deles são eles, só eles são capazes de compreender o que é bom e certo pra si mesmos. Uma hora de encontro semanal NÃO!!!! te torna apto ou capaz de compreender, JAMAIS a vida de outro alguém. Uma hora de conversa por semana não é nada pra se ter uma ideia de como é a vida de uma pessoa. Desde que resolvi contrariar essa doutrina barata e terminar com meu namorado, minha vida certamente deu um twist de 180º. Eu estava tão triste, presa nas obrigações e falta de perspectiva. Minha vida se encontrava estática em um vazio. Claro que eu ainda tenho minhas preocupações bobas. E se ninguém mais me amar? Será que um dia eu vou namorar de novo? O que fazer com tudo que restou do nosso relacionamento, todas as fotos, cartões, presentes? Será que a vida é pra se encontrar alguém, e ficar junto? Isso existe ou é utopia pra manter as mulheres iludidas e obedientes? É só uma forma de organização do Sistema? Monogamia não-seriada funciona? Por que a maioria dos mamíferos é poligâmica? Quem passa décadas juntos é feliz ou acomodado? Eu sou capaz de amar alguém que não a mim mesma? O que vou fazer quando precisar de alguém e não tiver ninguém com quem contar? Como vou saber quando eu encontrar “a pessoa certa”? Será que um dia vou beijar de boca de novo, etc. Porém eu posso dizer, nessa maravilhosa madrugada do dia 03/09/2015, que pela primeira vez na vida, não sinto que PRECISO ou DEPENDO de alguém. Agora que eu tenho tempo pra simplesmente olhar pra minha vida, pra mim, que não preciso sempre estar correndo em função de obrigações para com um constante outro exigente, que não preciso estar sempre agradando e correspondendo uma determinada pessoa, que posso estar plenamente com as pessoas que me encontro na rua, meus amigos, colegas de curso, plenamente nos meus momentos de solidão, sem estar com outra pessoa sempre em mente, eu tenho PAZ, e não ânsia, e não tristeza, e não falta. Eu finalmente posso dizer: estou grata, estou grata pela minha vida. Estou grata pela forma que minha vida se conduz, eu quero ser eu, estou feliz por ser eu e não outra, apesar de tudo que já me aconteceu na vida. É claro que me alegra a companhia dos outros. Mas acima de tudo, o meu estar aqui sozinha pensando em mim, como isso me faz bem. Ser é um conforto. Existir nesse tempo e não outro. É tão importante aproveitar cada segundo. Olhar em volta de vez em quando. Estar plenamente nos momentos, viver as pequenas coisas com a mente vazia. Eu sou feliz, e amo o gosto da liberdade. =)



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eu não sou capaz de derramar uma lágrima sequer
Por mais que em um momento eu pensei
Estar viva por dentro
Esse momento se foi
E o que restou foi tão somente
O ódio pelas ilusões.

domingo, 30 de agosto de 2015

"Louis encarou-a, perplexo. Tinha quase certeza de que uma das coisas que mantivera firme o casamento dos dois (quando os casamentos de seus amigos desmoronavam a cada ano) era o respeito que tinham pelo "mistério" - a ideia percebida, mas nunca expressa de que, quando se vai ao fundo do poço, talvez não exista nada de casamento, união. Cada alma permanece sozinha e avessa a qualquer racionalidade. Aí estava o mistério. E por mais que se acredite conhecer o parceiro, às vezes nos vemos num beco sem saída e podemos cair num buraco. E outras vezes (raramente, graças a Deus), enfrenta-se um sólido bolsão de absoluta estranheza, alguma coisa como uma turbulência em um céu limpo que pode golpear um avião sem motivo aparente. Pode ser uma atitude ou crença de que nunca se tenha suspeitado, algo tão peculiar (ao menos para nós) que pareça quase psicótico. E então nos afastamos de mansinho, em nome do casamento e de nossa paz de espírito; não podemos esquecer que a ira diante de uma tal descoberta é o território preferido dos loucos que acreditam que uma mente possa conhecer outra."

Stephen King (Pet Sematary)

Runaway

"It's only just a crush, it will go away
It's just like all the others, it will go away
Or maybe this is danger and you just don't know
You pray it all away but it continuous to grow"

Eu não posso ficar mais perto de você.
Quanto mais tempo passar por perto, mais vou sentir sua falta quando estiver longe.
Na minha vida não há mais espaço pra lamentar ausências.
Não pode haver.
É perigoso demais começar a se sentir assim.
Logo os seus sentimentos estão entregues nas mãos de alguém...
E você não tem a menor ideia do que será feito deles.


sábado, 29 de agosto de 2015

Mesa 10

(Sobre um experimento de beber e escrever)

Desde que abriu um bar na esquina da rua da minha casa, deixou de ser algo estranho para mim vir aqui sozinha beber e fumar quando a angústia de encarar em silêncio as paredes azuis (e extremamente deprimentes, devo dizer) do meu quarto se torna insuportável demais. Tem algo de rebeldia em fazer essas coisas a menos de 500 metros dos seus pais.
Vim com metade da roupa de ficar em casa, sem maquiagem e sequer perfume, coisa sem a qual eu não saio jamais há vários anos. Acho que realmente cheguei no nível de não me importar mais, hoje. Nem mesmo o telefone eu trouxe. Quem vai ligar? Quem vai lembrar que existo? Ninguém, eu acho. Até a maldita da música que está tocando agora é sobre solidão.
Agora escrevo com a mão direita e fumo com a esquerda, enquanto toca alguma música agradável que os mais jovens (ou descolados) provavelmente identificariam rapidamente. Algo como Black Keys, mas eu não saberia dizer sem o meu aplicativo de reconhecer músicas. Sou a única pessoa no bar se não se contar com os funcionários. Depois que li o velho Buk passou a me atrair essa ideia de se embriagar sozinho em um bar conversando amenidades com o barman. Mas bem que na vida real não é tão glamouroso quanto nos livros e filmes. Na vida real não aparece uma gostosa vestida de preto pra salvar sua alma com uma noite de sexo ao som de AC/DC. Aqui, as pessoas te fazem passar por mini-constrangimentos perguntando se vem mais alguém, e olham estranho pra quem senta num bar acompanhado somente de um caderninho. Na minha frente, só um quadro completamente preto que retrata umas choupanas construídas ao longo de uma cachoeira, durante a noite, com uma luazinha no alto. É desses que refletem furtacor na luz negra. Flores artificiais plantadas numa garrafa de Jägermeister, um aviso que não existem níveis seguros pra consumir cigarros, e uma arte escrota na parede que eu poderia ter feito melhor. Talvez os atendentes daqui pudessem escrever crônicas no tempo livre que tem, tanto que tem a mais do que eu.
 (a partir de aqui o texto se torna notas difusas, devido ao estágio alcóolico que eu me encontrava)
Everyday is a different, different way to lose.
Se você tivesse dito antes. Se você tivesse dito antes.
As pessoas abandonam a gente,
 Fomos burros.
Outro dia eu sonhei que assistia uma chuva de meteoros que se transformava numa nuvem negra de demônios que entravam em casas, inclusive na minha. Hoje sonhei que meu ex não queria aceitar me encontrar, e que isso me desesperava e fazia sofrer. E eu dizia que era só mais uma vez, a última vez. Quando acordei reparei no quanto a solidão nos faz querer voltar por pegadas de um caminho sem volta, onde só havia tristezas, incômodo, reclamações, impaciência e infelicidade. Eu sempre vou ter a sensação de que não tentei o suficiente, mesmo sabendo racionalmente que isso não é verdade.
Escrever aplaca o desespero inútil.
Quando devo contar para os outros?
Se eu voltar pra casa, só vou dormir mais e mais e mais e mais...
Músicas românticas são muito idiotas.
Não consigo mais escrever nas linhas...
O que é a vida senão um longo tempo presente?
Nós éramos viciados na constância.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Words only come out through pain

É engraçado ver o quanto sua vida se transformou durante os dois anos e meio quando você estava tão ocupada tentando com todas as suas forças fazer um relacionamento fadado ao fracasso funcionar.

Minha vida como universitária respira seus últimos 3 meses.

Eu estou de cabelo curto! (toda vez que tiram fotos de mim ou olho no espelho, é uma surpresa)

Meu peso aumentou vertiginosamente.

Há tanto que cuidar, que ver, que ler, que conviver, que transformar.

Eu me tornei totalmente desleixada comigo mesma. Totalmente. Quase como se me odiasse.

O que mais me entristece é cometer os mesmos erros que costumava sete anos atrás. É permanecer em relacionamentos destrutivos e infelizes. Temer a solidão acima de qualquer incômodo, mau-trato, ou infelicidade numa vida cotidiana sem a menor paixão. Dar as costas para os amigos. Tentar aplacar ansiedade com cigarros, sabendo aonde isso vai levar. Beber os problemas mesmo sem dinheiro pra pagar e entrando no vermelho na conta do banco. Me afligir com o som do silêncio.


Sim, tudo mudou, tudo mudou, mas eu sou a mesma criança assustada de quase uma década atrás. Eu preciso deixar que minha alma se alimente e se fortaleça sozinha. Que não precise de ninguém. Mas como, com toda essa ansieade e necessidade de auto-destruição?

sexta-feira, 13 de março de 2015

Tear down The Wall



Hoje foi o meu primeiro dia de terapia.
E a julgar pelo conteúdo depressivo que encontrei aqui, acredito que esse dia deveria ter acontecido há muito tempo atrás.

Acho que hoje encontrei uma verdade que não queria aceitar.

Talvez eu também precise ter com quem contar. Eu preciso dos outros.

Sempre que alguém me oferece ajuda, eu choro. Eu consegui percebeu isso na hora que a psicóloga me disse que estava disponível pra mim e eu chorei. Acho que no fundo eu não consigo conceber por que alguém iria se interessar por mim. Por que alguém me daria atenção. Por que alguém iria se importar com o que sinto ou deixo de sentir. Por que alguém iria me estender a mão.

As minhas primeiras experiências com as pessoas foram péssimas. Parece que quando a vida escolhe alguém em quem bater, ela não tem misericórdia. Olhando pra minha vida em perspectiva eu vejo o quanto abusaram de mim. Eu já fui chamada de verme, parasita, piranha, gorda (até quando pesava 50kg), louca, humilhada diante dos outros e em particular, agarrada à força, controlada por namorado, usada, exposta, colocada como estepe pra quando as coisas dessem errado, já sofri bullying no colégio (e virtual! Hoje em dia parece até engraçado), já recebi silêncio e desprezo em troca da admiração que eu tinha. Como eu poderia negligenciar isso? Como poderia esquecer isso, perdoar tanta coisa? Aos poucos eu fui perdendo a fé nas pessoas. Mesmo que agora elas me agredissem de forma sutil. Oferecendo companhia e amizade e pedindo sexo em troca. Estando comigo somente quando não houvesse chance de estar com algum parceiro sexual/afetivo. Conversando comigo só pra tentar suprir uma carência de demonstrar “superioridade” intelecutal.

Quando não, eu estava cercada de pessoas que só se reuniam pra criticar os outros, ainda mais pessoas que mal conheciam, por tomarem atitudes exatamente iguais às que elas tomavam. Rotulando, e demonstrando-se amargas e provavelmente com o ego ferido. Se você convive num grupo com gente que está sempre a falar mal dos outros, quando você dá as costas, tenha certeza de que o próximo assunto na pauta é você. E eu não podia mais conviver com isso.

Foi assim que eu construí meu Muro (ou Muralha, que o valha).

As pessoas com quem eu conversava e convivia foram ficando pra trás aos poucos. Fiquei aqui só atrás dO Muro, e sem nada a oferecer a elas. Excluí algumas redes sociais. Bloqueei minhas fotos nas restantes pras pessoas não me acessarem, não saberem sobre mim. Me escondi. Elas não tem notícia, não sabem do que se passa comigo. Então rapidamente foram embora, como as moscas vão quando você deixa a mesa limpa, ou quando os pássaros vão porque você arrancou as árvores do jardim. Assim eu fiquei sozinha, num lugar confortável onde eu não preciso me arriscar a passar por tudo que já passei. E mesmo que eu ainda tenha uma ou outra pessoa pra conviver, eu nunca estou realmente lá. Cheguei a um ponto que passei a sentir repulsa por demonstrações de carinho.

Mas nesse lugar também o som do silêncio às vezes é tão alto, que é desesperador.

E no fim das contas, não fui capaz de olhar para o que realmente sou.
Não fui capaz de olhar diretamente pras feridas. Só assim com o canto do olho. Com medo de ver. De toda forma eu sou aquela pessoa que fecha os olhos nas cenas gore de filmes, mesmo. Por que não na vida real?

Eu estou ao mesmo tempo curiosa pra saber o que há lá dentro. Mas com medo. Tenho medo de voltar pro mundo cruel que tem lá fora.

“Since, my friend, you have revealed your deepest fear
I sentence you to be exposed before your peers
Tear down the wall
Tear down the wall
Tear down the wall
Tear down the wall

Tear down the wall”