quarta-feira, 16 de agosto de 2017

[mais um texto sem propósito porque eu esqueci qual era antes mesmo de começar]

Hoje eu voltei pra casa de ônibus, 19:30, dormindo na janela. Esses dias eu tenho estado muito cansada, e sei que é por causa da coleta dos dados.

Eu deveria começar a estudar personalidade pra encontrar algumas respostas. Será que existem coisas nas pessoas que é da natureza delas? Eu acredito que sim. Os traços de personalidade são exatamente isso. Algo da sua natureza que você não pode mudar mesmo que se esforce muito. Por exemplo, eu tenho muita empatia e por isso acabo sendo pouco maquiavélica, já Keila é o contrário, o maquiavelismo pesa mais que a empatia (e ela se julga uma má pessoa por isso. Eu considero apenas diferenças individuais). 

O ponto onde quero chegar é que sou uma pessoa introvertida. Isso fica cada vez mais claro a cada dia que trabalho em contato direto com pessoas, especialmente desconhecidos. Parece que eu chego em casa completamente drenada como se alguém tivesse sugado a energia de cada célula. Na verdade é porque é muito desgastante pra mim lidar com pessoas por muitas horas. Não é que eu não goste delas ou goste de ficar sozinha. Mas eu PRECISO ficar sozinha algumas horas por dia pra recarregar as baterias. Na verdade eu até gostaria de ser diferente, gostaria de ser aquela pessoa que se recarrega nos encontros, mas vejo que isso é algo que está fora do meu domínio de ser mudado completamente. Isso é um pouco diferente quando estou com amigos próximos, porque rola uma renovação. Eu acho que é porque eu tenho um desejo muito forte de agradar e por causa disso eu acabo usando minhas habilidades cognitivas ao máximo tentando dar respostas rápidas, sendo engraçada, agradável, paciente, segura, inteligente... já com os amigos que sinto que já gostam de mim pelo que sou posso agir naturalmente e é por isso que não fico tão cansada.

Eu já tenho 107 sujeitos. Dizem que é um número impressionante pra só uma semana e meia. Só que eu já tô farta de fazer isso (kkkk) e pra validar todos os meus questionários preciso de 180. 180 sujeitos de qualquer orientação sexual/nível socioeconômico/cidade de origem, e preciso de 130 estritamente héteros e natalenses, ou ao menos norte rio-grandenses (vamos deliberar sobre isso). Mesmo Keila que tá me ajudando (em troca de metade do valor da bolsa de IC) e coletando só 50 sujeitos sempre que tem oportunidade reclama que é algo chato de fazer. Que as pessoas dizem não ou não sabem responder, dão trabalho, perguntam se é o Enem e etc. É um trabalhinho meio ingrato mesmo... 

São 3h da manhã e eu deveria estar dormindo pra acordar cedo e organizar bem o meu dia amanhã. Só que eu cheguei em casa e desmaiei completamente até as 22:30. Ugh...

Ontem aproveitei que estava pela graminha em C&T, e passei o questionário pra uma menina fazer. O nome dela era Gabi, ela tinha 20 anos e já tinha uma filhinha, chamada Lua (só Lua mesmo, achei top). A gente conversou bastante (isso significa, eu sentei e ouvi ela falar. Assim como tenho feito com todo mundo o tempo todo) e em dado momento ela me disse que eu tinha que acordar cedo pra ter energia, disposição e essas coisas todas. Engraçado. I get that a lot. E eu nunca digo que paguei uma disciplina de 60h chamada "Cronobiologia aplicada à saúde" que era sobre ritmos biológicos e a maior parte dela sobre SONO, falando também, claro, sobre outros processos circadianos, infradianos... nunca digo também que o professor passou um questionário validado pra gente descobrir nossos biotipos e o resultado do meu foi que era o biotipo mais problemático, vespertino bimodal. Nunca digo que se eu dormir antes de meia noite, eu acordo várias vezes antes da hora, e em algumas das vezes eu passo mais de uma hora acordada antes de conseguir dormir de novo. Eu concordo que dormir cedo é melhor pra todo mundo (todos os biotipos), que se descansa melhor porque é o horário adequado, especialmente por conta do silêncio e ausência de luz durante a madrugada, mas infelizmente não é tão simples assim pra algumas pessoas, como eu. Ela chegou a dizer que eu deveria acordar as 4h e dormir as 8 da noite, e eu achei engraçado sobre o quanto as pessoas podem te dizer o que fazer com sua vida sem saberem nada sobre você além do seu primeiro nome, haha. Até aí tudo bem, mas quando ela começou a falar que a gente evitasse ter filho cedo mas que na hora que DEUS QUER a gente iria ter de qualquer jeito e não poderia evitar (como ela, porque Deus quis), parei de ouvir e fui conversar com Theu, alguém de quem morro de saudades da época de que era meu melhor amigo e que sinto que tá precisando um pouco de cuidado, e queria poder oferecer isso muito mais... enfim. 

Hoje achei Willianilson nos banquinhos fumando e chamei ele pra participar da minha pesquisa também. Eu fui me preparando pro pior porque nunca tive paciência pra ele, porque ele fala demais e se gaba demais, mas me surpreendi. Hoje achei estranhamente agradável conversar com ele. Deve ser porque me acostumei de verdade a ouvir muito, muito mais do que falar. Tem vezes que sinto até que não tenho mais o que falar mesmo, porque depois de 1h falando ele perguntou "e você, como tá?" (fiquei chocada) e eu nem soube o que dizer pra ele.

A coleta apesar de cansativa tem me ensinado muito sobre as pessoas. Sobre os hábitos, as necessidades, a pesquisa em si. Percebi que passar um questionário "grande" - que na verdade é pequeno comparado aos questionários "psicológicos" mesmo, que costumam ter mais de 100 itens - é problemático porque as pessoas não tem tempo pra pensar, na verdade não querem perder muito tempo, e aí respondem sem refletir, respondem sem entender direito a pergunta, respondem ser ler os enunciados, respondem pra me impressionar, respondem desconfiando de mim, de que o anonimato realmente é anonimato, respondem "não sei" pra tudo... a pesquisa em comportamento humano tem MUITO a se inovar com métodos. Quer dizer, precisamos pensar em métodos que possam capturar a essência dos comportamentos sem perguntar isso pras pessoas, porque a partir do momento em que elas puderem abrir a boca pra se expressar, elas vão mentir. Elas vão bloquear o que realmente sentem. Elas vão ficar tentando antecipar o que pensaremos delas ao ler suas respostas. A maior crítica a nossa área é justamente que usamos questionários e amostras universitárias e é pertinente demais, agora vejo com meus próprios olhos. 

A maior parte das pessoas precisa muito comunicar sobre si. A maior parte das pessoas quer muito ser ouvida. A maior parte das pessoas gostaria de receber o resultado do seu questionário como se fosse horóscopo, sendo que vou analisar a média da população. Arrisco dizer que a maior parte das pessoas não quer ouvir em troca também. Tenho percebido isso de todos os lados e só recentemente aprendi a me calar. Antes eu ficava chateada e saía logo de perto se eu estivesse num lugar onde alguém fala demais e não me deixa dizer nada. Agora aprendi a tolerar, e mais do que isso, ouvir mesmo. Percebi que no silêncio tem muito de maturidade. É como se algo de que você tem necessidade já tivesse sido preenchido por você mesmo. A partir daí você abre um espaço dentro de si onde cabem os outros e o que eles precisam...

A maior parte das pessoas também se constrange de alguma forma das suas necessidades. Muitas pessoas precisam se gabar da sua "independência", ou se reafirmar sobre outras coisas... aprendi sobre isso no quora digest e a vida me dá demonstrações confirmatórias o tempo todo. Lá alguém dizia, numa postagem sobre manipulação "The shy are dying for attention, people who point their thumbs to the chest are the biggest cowards", etc... é um pouco divertido observar o quanto tentamos encriptar o que realmente precisamos ou pensamos pra transformar em algo bem visto socialmente. Essas coisas me lembram dos narcisistas que conheci, que eram as pessoas com os egos mais frágeis e machucados que já vi também. Por isso toda aquela auto-afirmação, vanglória, blindagem contra críticas... eu penso sobre esses paradoxos e nossa necessidade tão forte de aceitação social e isso me mostra a importância de estudar evolução cultural ou no mínimo evolução gene-cultura e o quanto isso é crucial pra o estudo do comportamento humano. Mas meu tempo acabou de novo... então até a próxima brecha. :)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Voltei aqui e notei que não escrevo há quase um mês.
Acabei de ter um insight (epifania?) e achei que vale a pena registrar aqui.

Eu estava assistindo um vídeo sobre binge eating (algo como comer compulsivamente) e em certo ponto a moça diz mais ou menos assim: "o primeiro passo pra deixar de comer compulsivamente é entender que o seu corpo não é seu inimigo, mas quer o seu bem, quer que você sobreviva. Se você não come o que precisa, ou calorias o suficiente, ele tenta te proteger economizando ao máximo e acumulando gordura. Ele não faz por mal ou porque não quer cooperar, mas porque entende que aquilo é o melhor que pode fazer pra te proteger." Derramei algumas lágrimas ouvindo isso, porque eu já perdi a conta de quanto tempo faz que odeio meu corpo, que o vejo como um inimigo que preciso lutar contra a cada minuto, porque ele parece não querer contribuir de jeito nenhum pra ser como eu gostaria que ele fosse. 

Recentemente, engordei uns 3 kg. Parece pouco, mas pra voltar pro maior peso que já pesei, faltam só mais 4. Parei pra pensar o que eu fiz meu corpo passar ultimamente. Saí de casa, larguei a academia que estava indo muito bem. Durante o tempo que estive fora morando com Vanny, voltei a fumar com toda a força, chegando a uma carteira por dia, dependendo do dia. Como eu não tinha dinheiro e muito menos paciência pra cozinhar, já que lá não tinha armários pra guardar as coisas, panos de prato, alguns tipos de prato, escorredor, tupperwares, temperos, etc. e isso simplesmente dificultava tudo e me deixava com uma preguiça imensa. Então eu larguei minha alimentação predominantemente saudável pra viver de sanduíche cheio de molho, que o pai de Vanny dava de graça porque era dono de uma lanchonete lá perto. Além disso, passei por muito estresse nesse tempo, tanto com a minha família, como de aceitar muitas coisas que Vanny fazia que me incomodavam mas que eu sentia que não tinha direito de dizer nada sobre aquilo, fora a parte de não ter dinheiro, ficar ilhada lá no centro por falta de carona e o perigo de ir e vir de noite por lá, Yuri longe e em outro fuso horário, enfim...
O estresse que passei nesse tempo, somando ao de voltar pra casa e dar conta da pesquisa foi tão forte que atrasou minha menstruação, jogou meu ciclo pra quase 50 dias, e quando menstruei foram míseros 3 dias com uma cólica do demônio, o que é completamente atípico pra mim que menstruo geralmente quase 7 dias completos e com pouca dor.

Depois desse estresse físico e psicológico que infligi no meu corpo, voltei pra casa e finalmente pude voltar a comer basicamente plantas na maior parte do tempo. Aí veio a parte II, semana passada: começaram as coletas, e o meu co-orientador começou a "exigir" um monte de coisas que me tiravam da zona de conforto: que eu estivesse no CB todos os dias desde as 8 e cumprisse certinho a jornada de trabalho (8h/dia), passasse nas turmas pra chamar os sujeitos, abordasse um número enorme de pessoas sozinha pela universidade, mandasse e-mails pra base chamando o povo pra participar, além de que eu não tinha exatamente um horário de almoço, o meu almoço consistia em comprar algo na cantina correndo e comer enquanto subia as escadas. Durante a semana eu dormi no máximo 4 horas de um dia pro outro, porque todos os dias antes de dormir ficava pensando em como dia seguinte ia ser difícil e que eu não queria que ele chegasse logo. Também fiquei com muita raiva/ressentimento do meu orientador por ficar o tempo todo bossing me around pra fazer coisas que eu não me sentia pronta pra fazer, mesmo com a minha voz da razão dentro da cabeça repetindo que ele estava certo e eu é que estava errada. Mesmo me sacrificando passando fome notei que fui ficando cada vez mais inchada e ganhando peso. E então cheguei no vídeo de hoje e na conclusão que eu quero tirar aqui.

O que é que falta na minha vida? O que é que sempre me faltou? 
Duas coisas: paciência e fé.

Paciência... a essência da sabedoria. Já parou pra pensar nisso, leitor? Repare nos contos e histórias onde tem alguém denominado "sábio" e observe se a característica chave dessa pessoa é a paciência. 
Sempre que eu começo a fazer algo, quero ver o resultado imediatamente. E aí entro em ciclos. Primeiro eu faço um esforço... por exemplo. Passo um dia comendo só comida natural, abrindo mão dos vícios. Se no dia seguinte não vejo resultado na balança, imediatamente fico frustrada e com raiva e concluo logo que se é pra dar no mesmo, não vale a pena fazer o esforço, e aí volto a comer o que não devia. Ou então vou na academia e preciso ver imediatamente o músculo crescer, ou não quero mais fazer o exercício. Ou nas coletas, eu idealizo que a cada dia DEVE ficar mais fácil, e se não fica mais fácil de um dia pro outro, eu sou um fracasso absoluto e me odeio e nunca vou conseguir exercer essa profissão. Se eu tento dormir mais cedo e não consigo, de primeira, já fico absurdamente ansiosa e antecipando que nunca vai dar certo, que nunca vou poder viver como uma "pessoa normal" etc. Isso vale pra absolutamente tudo que eu tenha tentado mudar. A minha vida é um misto de compulsão e impulsividade. As coisas dão errado em cadeia, num efeito dominó. Só que agora entendi que tudo isso acontece simplesmente porque não tenho paciência.

Quando eu era criança, eu não comia. Nada. Não bebia água também. Vivia com infecção urinária e beirando a inanição segundo os pediatras. Depois, na adolescência, comecei a comer um monte de porcaria e o metabolismo segurou por um tempo, até que comecei a engordar. Durante quase 22 anos da minha vida, eu comi mal, tive taxas horríveis nos exames de sangue, envenenei meu corpo. É claro que só em 2 anos ele não vai se recuperar, depois de duas décadas de maus tratos. Pensando numa linha do tempo, comecei a comer bem ontem! Pensando numa linha do tempo, comecei a cuidar de mim mesma ontem. É claro que leva tempo pra que tudo fique bem. E cuidado. E fé que realmente um dia as coisas podem ficar bem. Fé que certas coisas são sequer possíveis! Paciência pra mudar lentamente e valorizar as pequenas vitórias. Eu não tenho muito mais tempo pra desenvolver e isso é o que tem pra hoje (infelizmente :\). Espero encontrar espaço pra voltar mais por aqui, enquanto conseguir ir fazendo as coisas certas e com calma. Apesar de tudo eu tenho estado bem na maior parte do tempo. Sem tempo, ocupada, cansada, dormindo muito (no tempo livre), mas bem, cumprindo deveres, crescendo, aprendendo... espero ter tempo pra falar sobre isso logo logo. =)












sexta-feira, 21 de julho de 2017

Rainy day.

Hoje aconteceram várias coisas. Mostly bad things. 
Tô morando com Vanessa faz 2 dias.
Hoje minha irmã mandou um whats dizendo pra ir pra casa, porque minha tia Leda morreu.
Primeiro o tio Roberto, irmão de vovó. Uns 2 anos depois (ou menos), minha avó paterna também morreu. Um ou dois anos depois, o filho mais velho dela, tio Wellington. Dois anos depois (ou menos?) meu pai. Hoje faz 1 ano e 10 dias que meu pai morreu, e agora morreu a minha tia. Minha avó teve 13 filhos. Todos "criados" como se diz no interior. Morreram depois dos 60. Agora são 10. 
Eu lembro de me dar conta que eles estavam perto de morrer, uns 5 natais atrás. Lembro de olhar em volta e observar como todos já estavam tão velhos e completamente diferentes das memórias da minha infância.
Eu não vi meu pai envelhecendo. Num dia ele tinha cabelo e bigode preto, no outro dia era cinza e ele não tinha mais 1,80m, ele não parecia mais tão maior que eu. Do lado dele eu já estava quase da mesma altura, e eu não cresci. Ele se curvou. Na verdade, o tempo curvou ele.
Voltei pra casa pra ir pro velório. Ninguém me disse nada, do que ela morreu, o horário, nada. Cheguei e minha irmã estava sozinha (com meu sobrinho). Começou a gritar sobre como eu vou matar minha mãe porque saí de casa (pff....), a discussão foi escalating quickly, não levei desaforo pra casa, gritei de volta. Um show de berros. Ela começou a gritar que eu sou louca. Larguei meu notebook e voei em cima dela, puxei o cabelo dela, agarrei o pescoço dela. Coitado do meu sobrinho, nunca tinha visto essas coisas... tudo bem. Eu vi tanto e sobrevivi. Ela disse que ia me internar no hospício, que ia chamar isso, aquilo, ia chamar "o meu irmão pra ele me controlar". Eu disse chame mesmo, pode chamar. O meu sobrinho gritou NÃO!!!!! kkkkkkk. Não entende que adultos blefam.
Fui tomar banho chorando, pensando em escrever pra minha mãe. Sobre tudo. Os pensamentos suicidas, a depressão, a ansiedade, e o que pensei sobre ser parecida com meu pai que era extremamente depressivo. Meu irmão chegou em casa, eu soluçando no quarto escrevendo, minha irmã no telefone rindo. Ele veio me abraçar e disse que não ligue pra ela, você não sabe que sua irmã é assim? ... etc. Cansei de aceitar isso, cansei de "você não sabe que fulano é assim?". Lembrei do texto que Vitória postou dizendo que pregar que a pessoa deve "oferecer a outra face" é interesse de quem tem o poder. Eu não me senti em casa lá. Engraçado. Em Petrópolis tenho tido problema com a bagunça e o gato de Vanny que mia a noite inteira quando ela sai, mija tudo etc. Mas assim que eu cheguei na casa da minha mãe, eu quis voltar pra lá. Minha mãe veio conversar. Disse que "eu estou exagerando" por reagir assim (ir embora) aos desaforos dela. Que ela reclama e enche o saco e pasme,.... eu não sei que ela é assim mesmo? Assim mesmo. ... E tem alguém pra passar a mão na minha cabeça e dizer que eu sou "assim mesmo"? Not really
Eu cortei a mão no aparelho da minha irmã e machuquei forte a lateral da mão e uma parte dos tendões do dedo mindinho e anelar. Mal consigo digitar. Maldita seja. Eu nunca fui muito família. Nunca fui, que família? Nós sempre fomos uma república. Pra que fingir, diria Cazuza.
Não queria ir pra missa amanhã. O enterro. Pobre tia Leda e primo Marcelo. Ela morreu do nada... como todo mundo na família do meu pai. Ela era uma boa pessoa. Doce como o primeiro nome dela (Dulce) sugeria. Carinhosa, gentil, tranquila, crafty. Me ensinou a fazer biscuit e ponto cruz. Ela sabia que eu adorava natal e sempre me dava muitos enfeites que ela mesma fazia pra colocar lá em casa, e eram perfeitamente lindos, como os de editorial de revista mesmo. Ela nunca foi má ou escrota como a tia Neide, hehe. Bem... eu sei que se eu for amanhã vou chorar e ficar triste. É triste, um clima triste. Essa chuva, mais um enterro... eu me sinto sem tempo pra luto e tristeza. Time is running out... eu preciso trabalhar, estudar, arrumar um emprego, me sustentar, fazer o cartão do RU, passar o pano na casa... começar a coleta, responder o cara lá de NY...fico listando mentalmente. Olhar tela de proteção. Quanto é a internet a Cabo? (dica: é caro...) 
Minha irmã disse que já saiu de casa com 4 mil reais e quando viu as contas blá blá. Estou te dando um conselho de irmã mais velha (dizia ela, segurando os meus dois pulsos, sem eu ter tocado nela, depois que saí do banho.. a toalha caindo, meu sobrinho olhando) você não tem onde cair morta, etc.. quis vomitar na cara dela. A mãe de Yuri não poderia nem sonhar em ganhar 4 mil reais por mês. Tanta gente se sustentando com poucos salários mínimos, criando filho, dando nó em pingo d'água igual Marié. Ela gritou que sou rica, mimada, rica... eu não diria uma coisa tão nojenta quanto "4 mil reais por mês não dá pra pagar as contas". Isso é ridículo. Piranha riquinha dondoca. Só sabe se olhar no espelho e procurar ruga e tratamento de botox, plástica, peeling, esperar o macho da vez pedir em casamento, fofocar no telefone com as amigas, a minha mãe diz "quando sua irmã vai cair na real e deixar de ser adolescente? ela tem 34 anos e um filho que teoricamente ela deveria criar". Mãe, meu palpite é que nunca. 
Quando eu cheguei em Vanny eu limpei minha privada do meu banheiro. Nunca limpei uma privada. Eu tenho 24 anos... Yuri ficou indignado quando eu disse que nunca passei uma roupa. Odeio isso, odeio ser assim, odeio viver numa bolha, odeio não ter autonomia e responsabilidade, odeio como minha mãe não deixa meus irmãos aprenderem a se virar pra usar a dependência deles pra nunca ficar sozinha. 

Hoje o bb chegou depois de 3 semanas fora. Eu não sabia muito bem o que esperar, porque comigo é out of sight, out of mind. Cheguei num ponto em que pensei que ele poderia ficar lá e eu estaria bem. Me virando, cheia de problemas, mas bem, normal... talvez indiferente. Eu me tornei uma pessoa fria, do ano passado pra cá... mas também me arranjei um monte de problemas e passei todo o tempo que pude com minhas amigas e acho que isso ajudou a me deixar assim tão tranquila em relação a isso. Ele tá dormindo aqui, na cama dele. Agora eu gosto mais daqui (da casa dele). Yuri voltou muito carinhoso e carente. Acordou e disse que sonhou comigo, e voltou a dormir. Eu achei que iria sofrer mais que ele, porque ele estaria na Europa se divertindo e eu aqui na mesmice, obrigações, problemas. Mas ele sentiu mais, sofreu mais... I have grown colder. A vida não me choca nem surpreende. Quando lembro de Gui dizendo que na maior parte do tempo não sente nada, cada vez me identifico mais...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu sei que você não lê aqui, mesmo daí, mesmo de longe, ou mesmo quando você voltar. Mas o que se repete muito na cabeça pede pra sair da abstração, de onde não se sabe onde fica, pra se tornar material, existir no mundo de forma concreta, física. 

Hey bb,
How you doing? São 5:49 da manhã e eu perdi o controle da minha vida de novo, como sempre.
Logan tá dormindo aqui na cama e quando passo a mão na cabecinha dele, ele me responde apropriadamente com um prrrr prr. Será que você vai chegar aqui e dizer "que gato é esse?", como costuma fazer, porque ele cresceu? Eu nem percebo mais que ele tá ficando maior. Só reparo que agora as patinhas dele são enormes e a "luvinha" branca tá aumentando.

Sabe, lindo. Escrevi pra você ontem, mas não publiquei aqui. Lembra daquele dia que eu voltei do banho e comecei a escrever, mas aí parei e disse "eu nunca mais vou continuar esse texto", e você me perguntou por que e respondi que simplesmente se eu parasse de escrever um texto no meio, nunca retomava. Aquele era sobre saudade. Nunca retomei. O blog é cheio de rascunhos, a parte secreta dele. Rascunhos em que escrevo o que eu não quero que seja lido, ou lembrado. Ou simplesmente que achei que não estava bom o suficiente pra publicar, ou parei na metade.
Outro dia Vitória tava me contando que uma pedra (gema) era mais cara o quanto mais sua cor no meio fosse uniforme. Significava que ela foi muito lapidada. Uma pedra mais "suja" e com mais cores e desenhos é menos nobre. Os textos não publicados são a gema impura, que não foi muito lapidada, ou que simplesmente era de um pedaço mais  externo da pedra. 
Olha que interessante, o texto de ontem também era um pouco sobre saudade. Vou reproduzir umas partes dele aqui, e outras não. Tentar seguir com o processo de lapidação.

Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave, but don't leave me
Look around, choose your own ground
For long you live and high you fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
It's all your life will ever be

É um pouco mais de 1h do dia 13/07, aqui em Natal. Aí onde você tá são 6h, segundo o Google. O país com o nome que pra mim é a palavra mais bonita em alemão: Österreich (se lê 'êsterraish', Áustria em português). Todos os dias você me pergunta se estou com saudades. Sabe, pra falar a verdade eu ainda não tinha sentido tanto assim, até ontem de noite. Quando parei pra pensar.

Um dia você tava dirigindo no caminho pra sua casa, e você comentou sobre Time, do Pink Floyd. Eu falei que nunca ouvia essa música, porque a única que ouvia do Dark Side of the Moon era Money. Você ficou indignado e disse que a gente iria escutar assim que chegasse. Quando você colocou ela, reconheci um trecho que já havia visto escrito em algum lugar, mas não sabia de qual música era:

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire

Gostei da melodia dela, apesar que não dei muita importância. Ela ficou na minha cabeça. Semana passada eu tava lavando louça e ouvindo música e começou a melodia de Time, mas a introdução da música era diferente. Então o Waters começou a dizer breathe, breathe in the air... era outra música. E ouvindo ela entendi como Time era linda. Era uma continuação de Breathe, e elas eram uma coisa só junto com The Great Gig in the Sky. E olha só a letra dela... eu diria que algumas coisas parecem vir no momento certo nas nossas vidas. Você responderia que estou sendo incoerente, haha.
Faz uma semana que você foi embora. Left, but didn't left me. Você me diz que quando voltar vamos direto pro cinema assistir Planeta dos Macacos. Você diz "um estranho, veio de fora..." pra me dar a dica que comprou um alienzinho do Toy Story pra mim. Você tem razão, lindo, eu reclamo demais. Você tem razão, lindo, eu sou como sua vó que não acredita no que você diz! kkkk. Eu deveria confiar mais no seu julgamento. Confiar mais em você, seguir mais o que você diz, levar você mais a sério. Você tem razão quando diz que não dou valor ao que você faz por mim. E agora de longe eu consigo ver melhor, entender melhor. De alguma forma entrou na minha cabeça, eu me fiz ou fui feita acreditar que amar era expressar com palavras. Era criar situações românticas com silêncios, momentos memoráveis, misteriosos, era saber fazer o uso adequado e certeiro da linguagem. Lembro de um dia ter dito pra você que você não é romântico! Você poderia elegantemente ter me respondido

"Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain, so does the pain
Words are meaningless, and forgettable"
Amar não é dizer que ama. Não é criar situações de caso pensado, usar estratégias e fórmulas genéricas que funcionariam com qualquer pessoa. Amar é ver o alien de Toy Story na loja de brinquedo em Londres e lembrar que sua namorada sabe todas as falas dele no filme. Amar é prometer uma ida ao cinema quando chegar, o que deixa implícito: está tudo bem entre nós, não me apaixonei por nenhuma europeia! Quando voltar, veremos nossa sequência de filmes preferida no cinema. Amar é dizer que ama pela primeira vez no meio de uma briga, ou no meio de outra, com voz relutante e envergonhada "não vá embora, agora eu sei que é com você que quero passar o resto da minha vida!". Amar é caótico, é bagunçado, cru, não é perfeito, limpo, organizado, não segue roteiro, não é como no cinema (apesar de que tem trilha sonora!), não tem uma fórmula, não existe critérios a serem cumpridos, como no manual dos transtornos mentais, em que pra poder rotular alguém com um determinado transtorno basta que a pessoa tenha apresentado cinco dos dez critérios nos últimos seis meses. Eu sempre pensei que os relacionamentos começavam como vasos muito bonitos e intactos e que com a medida do tempo iam caindo e criando cicatrizes irreparáveis, e que na primeira cicatriz já valia a pena desistir, porque não era mais perfeito. Que ideia!

Agora que você tá aí e eu aqui, estou finalmente tendo a experiência de ficar sozinha. Eu sempre busquei a todo custo nunca ter que suportar a minha própria companhia. Sempre tive alguém em quem pensar, ou com quem contar. E agora eu tô vivendo sem te consultar, tomando minhas próprias decisões. Outro dia minhas músicas no celular simplesmente sumiram! Quase te contei, mas aí pensei "posso resolver isso". Apareceram problemas, dilemas, tomei decisões, descobri meu caminho sem perguntar pra ninguém! Muitas vezes eu comecei a te escrever no whats e apaguei ao invés de enviar. Estou aprendendo a não te contar cada passo, cada pensamento, cada emoção. Aprendendo a não descarregar tudo em cima de você. Aprendendo a dormir sozinha (com Logan hehe). Eu percebi, por exemplo, que muitas vezes fico triste e você não dá importância e isso me chateia. Mas que minhas tristezas vão embora tão rápido quanto chegam. Talvez seja por isso que você não se preocupa muito. Agora eu penso "tudo bem, vai passar!" e percebo o quanto minhas emoções variam rápido. Eu não preciso falar o tempo todo sobre elas. Se você visse o quanto cresci, o quanto cresci do ano passado pra cá... e muita coisa foi por sua causa, sabia? 

Ano passado eu e Vitória conversamos algumas vezes sobre a definição de amor, se o amor real é o que faz sofrer, ou o que só faz bem. Eu não posso definir o que é amor e o que não, mas posso definir uma coisa. Um amor bom é aquele que nos permite amar a nós mesmos, enquanto amamos o outro. E você não é egoísta, você me dá espaço pra que eu também me ame, você não monopoliza o meu amor todo pra si. Pra te amar não precisa estar de joelhos. É por isso que eu cresço perto de você. 
Eu sempre acreditei no jeito de saber pelo caminho letrado, culto, filosófico, reflexivo, complexo. A sua sabedoria não vem de livro, é simples, é experiência. Você é meu simple kind of man. Você é something you love and understand. Você é sábio de um jeito poético, amoroso, musical, doce. Racional, mas não ensaiado, espontâneo, kind hearted. Eu amo você. Que bom que te encontrei. You're all I need... 

sim estou com sdds principalmente de:



sexta-feira, 7 de julho de 2017

They live e problematizações chiques

They Live é um filme de 1988 do John Carpenter, um diretor que fez vários filmes de terror fodas, inclusive várias adaptações dos livros do Stephen King. Esse filme é sobre um cara que encontra um óculos escuro que permite que ele enxergue algumas pessoas como elas realmente são: aliens que estão entre nós disfarçados e que controlam o mundo através de mensagens subliminares por toda parte, mandando que as pessoas obedeçam, se conformem, não pensem, durmam, assistam tv, casem e reproduzam, não questionem autoridade, etc.



Ontem eu tava voltando da casa de Vanny e passei pela Hermes, uma rua cheia de lojas fancy e de fancyness especialmente para os ricos moradores de Tirol e Petrópolis (mas sem fazer distinção com os de outros lugares, é claro!). Do lado do ônibus que sentei estavam as lojas de móveis e elas enchiam os olhos: a maioria de dois andares, cheias de coisas dentro: muitas plantas, flores, móveis de madeira maçiça de cores naturais, iluminação fraca e amarelada dando uma sensação de aconchego, lustres enormes cheios de cristais brilhantes criando efeitos belíssimos, castiçais de metal (provavelmente prata), outros itens de metal, todas as cores em harmonia, "ambientes" montados para demonstrar o resultado final. O tipo de loja que eu tenho até vergonha de entrar, muito diferente das que passei o dia visitando: essas tinham móveis quase todos iguais, padronizados, nada exclusivo, o que mudava de loja pra loja era o preço, modelos majoritariamente iguais. Feitos de mdf, com cores artificiais, brancos, pretos, detalhes de plástico vagabundos, tempo de vida curto, que não aguentam uma mudança direito. Luz branca e vendedores comuns, tudo amontoadinho sem criar sensação de aconchego, elegância ou luxo. Móveis mais voltados pra necessidade imediata de organização e melhor sobrevivência em algum lugar, do que pra enfeitar e encher os olhos, ou serem transmitidos ao longo de gerações. Na Hermes, um pensamento veio à minha cabeça: "um dia eu vou ter dinheiro e poder montar uma casa bonita como essas lojas mostram". Imediatamente veio à minha cabeça outro pensamento, questionando o primeiro: "mas por que eu quero isso?"

Outro dia eu assisti um vídeo da Jout Jout indicando um filme e resolvi chamar Yuri pra assistir, na certeza de que ele iria gostar. "Capitão Fantástico" é realmente fantástico (kkk), uma mistura de They live com Into the wild. Nele, o Aragorn de Senhor dos Anéis cria seus seis filhos no meio da floresta em Washington, sob um regime democrático-socialista, com uma visão extremamente crítica do sistema capitalista, ensinando-os a se virar na natureza, a serem companheiros e solidários uns com os outros e a compreenderem o que é realmente importante na vida e o que é só um valor falso e vazio, fruto de propaganda pra alimentar e manter um sistema que é insustentável a longo prazo.

Uma filhotinha dessa até eu ia querer
Muitas pessoas assistem vídeos do Pepe Mujica (ex-presidente do Uruguai), compartilham, falam sobre ele ser um exemplo de pessoa e de governante, etc. Tudo isso porque ele buscou estabelecer políticas acolhedoras (legalização da maconha, aborto...), além de ser um homem simples, que andava de fusca, não tinha grandes propriedades, não usava fancy clothes e fancy nada. Mas quantas dessas pessoas que o glorificam estão dispostas a seguir o exemplo? Eu chuto que poucas, e o pior é que às vezes nem é culpa delas. Como se libertar do sistema e continuar inserido nele?

O capitalismo atual não é mais um sistema de produção, mas de consumo

Na faculdade, me apaixonei por três textos que a tia de Mari (que era minha prof) passou na disciplina dela, que era pautada em crítica social. O relato de um índio sobre o mundo do homem branco (papalagui, na língua deles) e outros dois sobre identidade e capitalismo. Esses textos defendiam que o capitalismo atual vende identidades e se pauta em consumo, e não mais em produção, pra se sustentar. Afirmava também que a preocupação em buscar meios de prolongar o lifespan dos indivíduos era uma forma de mantê-los consumindo, uma vez que quem morre não consume mais, e assim o sistema perde uma engrenagenzinha. Eu lembro nebulosamente sobre os exemplos de venda de identidade, mas era algo do tipo: vende-se por exemplo a identidade "estilo de vida saudável" e dentro dela vem o pacote de consumo: matrículas em academia, suplementos alimentares, whey, roupas apropriadas pra esporte e acessórios, consumo de alimentos naturais - e aqui acrescento que esses vem em ondas de "tendências" e modismos baseados em "dados científicos" e oferecendo alimentos overpriced e muitas vezes não-endêmicos, acarretando alto impacto ambiental e social. Exemplos dessas tendências de saúde e emagrecimento são a chia, linhaça, óleo de coco, chá verde, chá de hibisco, couve, sal do himalaia, etc... Então, a pessoa que deseja demonstrar a identidade "vida saudável" irá seguir um conjunto de comportamentos e padrões de consumo. Pra cada tipo de identidade que desejamos exibir socialmente, há um conjunto de rituais que precisamos cumprir afim de nos adequar àquela forma, e eles vem especialmente através do consumo. Esse era o ponto dos textos.

Display e reconhecimento social

Yuri não gosta de tirar fotos porque não se sente fotogênico. Ele também não gosta de demonstrações públicas de amor em redes sociais, do estilo textões de aniversário se declarando e esse tipo de coisa. Isso me faz sentir desobrigada. Quer dizer, quando reclamo dele, ou passo uma raiva e penso em terminar, não fico constrangida com o que os outros vão pensar. Afinal, eles não sabem nada sobre nosso relacionamento, e não é como se eu tivesse voltando atrás em algo que eu disse, tipo promessas de amor eterno que as pessoas costumam fazer no Facebook e se arrepender poucos meses depois. Mesmo esse sendo o meu melhor relacionamento com alguém, só quem sabe disso são as pessoas que realmente nos conhecem, porque nós somos discretos e eu acho isso o máximo. Uma vez Yuri disse algo como "nosso relacionamento é pra mostrar pros outros, ou é pra nós dois?". Isso diz tudo pra mim, e muito sobre a maturidade dele. 
Quando Lauro terminou comigo, eu não queria tirar o nome dele do status no Orkut. Ele disse "mas a gente não já acabou mesmo? que diferença isso vai fazer?". Ele não entendia mesmo. O que estava em jogo não era a gente estar junto ou não, mas o meu status social. Era uma questão simbólica, e não prática.
Percebi que ficar usando o Instastories me pressiona a ser perfeita. Me pego frequentemente me preocupando em tirar fotos dos melhores ângulos e tentar mostrar pras pessoas, ou quase provar/esfregar na cara delas o melhor lado da minha vida. Meus bens materiais, meu namorado bonito, as safadezas do meu gatinho, minha alimentação respeitosa com a natureza, mostrar que tenho vida social e amigos, ou que estudo em inglês, que leio, faço academia, ouço metal progressivo, etc. Mas por que eu sinto essa necessidade, que dois meses atrás não sentia? Sempre fugi do snapchat, nunca instalei no meu celular, não tenho nem ideia de como funciona. Mas ele deu seu jeito de me alcançar. Meus amigos me diziam que ele fazia as pessoas "se conectarem mais" porque você podia "acompanhar o cotidiano de alguém". Bem, tudo que eu ganhei com o stories foi pressão pra ser bonita/organizada/exibir desejabilidade social, chateação quando via meus amigos me excluindo de algo e um consumo muito maior do meu pacote de dados. Hahua. Eu me pergunto se Bauman antes de morrer ficou sabendo dessa história de Snapstorie, que pra mim é o líquido do líquido da modernidade líquida. Os móveis entram nessa questão. Quantas vezes eu imaginei meu quarto de um jeito que as pessoas fossem achar ele legal, e não considerando que ele fosse funcionalmente bom pra mim? Que coubesse minhas coisas, que mantivesse uma organização e coerência. Eu queria impressionar os outros, mesmo que numa fotografia que se esmaece em 24 horas. 

Flexibilidade

Quando eu tava comprando o guarda roupas, pedi a opinião de Yuri e ele disse "você tem coisa demais. Agora quer comprar um guarda roupa maior pra caber tudo, mas não precisa. Era melhor vender as coisas que você tem!".
Gui é uma pessoa que tem poucas coisas. Ele tem poucas roupas, poucos livros, poucos sapatos, poucas mochilas, etc. Já ter ido na casa dele ajuda, mas eu também posso reparar isso quando saio com ele e ele tá sempre com as mesmas coisas. Que importa isso? Ele é flexível. Pra ele é fácil ir de um canto pra outro: não tem um monte de coisa pra carregar.
Quando meu pai morreu, a gente se viu com um arsenal gigante de coisas sem valor. Muitos cds e dvds, entre os que ele comprava e os que ele fazia (hobby dele). Livros e pôsteres caríssimos dos Beatles, revistas de esporte antigas, LPs (alguns valem uma baba), coleções de carrinhos. Pra que tudo isso? Ele dormia vendo os filmes. Vou arriscar dizer que só os livros mesmo que ele leu. Ele nunca sequer pendurou os pôsteres nem nada disso. Pra que consumir sem usar? Pra que tanta coisa? E agora o que a gente faz com tanta matéria parada e inútil? Pra que tudo isso?
Agora que vou me mudar, eu fico constantemente olhando e volta e pensando em como vou empacotar tudo isso. Como vou levar tudo isso? Eu nem sequer tenho uma mala. Toda vez que tenho um tempinho em casa eu sento e doo mais coisas, jogo fora, me livro. Pra que tanta matéria acumulada? Deixa tão difícil de carregar. Me deixa presa porque é muita carga pra levar. E eu quero poder ser também itinerante. Livre. Mudar de ideia. Sair de um lugar pro outro.
Ontem eu perguntei pra Vanny se o ap dela era comprado. Ela disse "não. Mas eu não queria que fosse. Não quero sentir que algo é permanente. Quero pensar que daqui a um ano posso ir pra outro lugar". Conversei com Gui e ele me disse "as pessoas querem muitas coisas, e fazem de tudo pra ter aquilo. Eu me pergunto por que eu quero isso? Eu quero viajar. Podia me endividar agora, fazer empréstimos e ir. Ou posso juntar dinheiro e só fazer algo se realmente tiver condições de fazer.". A gente não precisa de muitas coisas. Da maioria das coisas. 
Yuri foi viajar pra Europa, eu disse pra Vanny. E ela me disse "espero que ele traga um monte de coisa pra você! Você pediu maquiagem pra ele?? Não acredito que não!". Antes de ir, ele me perguntou
- O que você vai querer de lá, linda?
- Imãs e globos de neve dos países que você for! =)
- Só isso??
- Sim, sempre quis ter globos de neve de cidadezinhas!
Aí ele fez uma cara de "ô meu amor..." e me deu um abraço. Aparentemente gostar de decorar a casa é fofo pra uns, coisa de trouxa pra outros. 
Eu sou daquelas pessoas que acreditam que sair da zona de conforto sempre vai gerar algum tipo de sofrimento. Sempre comento com Yuri e Gui em como fico admirada com Vitória por ela sempre se jogar em fazer coisas novas: se alguém oferece a ela uma comida que ela nunca comeu, ela não pensa duas vezes antes de provar e ainda acaba gostando. Se alguém chama ela pra fazer algo que nunca fez, ir em algum lugar que ela nunca foi... ela na verdade parece estar constantemente buscando se colocar em situações assim. Outro dia eu tava no Pedrão com Marié e Deca e ela reclamou justamente do oposto: Deca sempre quer fazer o que já fez, o que já conhece, o que já gosta... ele adota uma estratégia mais segura, o que também é o meu caso. Já reclamaram de mim porque quando eu saía sempre comia as mesmas coisas e eu dizia "vou arriscar meu dinheiro comprando algo que talvez não goste, sendo que já sei exatamente o que gosto?" e foi algo desse tipo que Deca respondeu pra Marié naquele dia. O meu pai detestava fazer coisas novas. Todos os dias ele ia pra UFRN pelo mesmo caminho, sempre comprava no mesmo supermercado, fazia as mesmas rotas, entrava em contato com as mesmas pessoas. Uma das coisas que mais estressava meu pai era que eu pedisse pra ele me levar em algum lugar em que ele não conhecia, como da vez que eu levei príncipe Lulu no dentista canino da São José e tive que aprender o caminho bem direitinho pra explicar pra ele, mas mesmo assim ele ainda olhou umas mil vezes no google maps. O máximo de manjar dos paranauês dele era ali pela Campos Sales, porque ele morava lá quando era jovem (coincidentemente, é a rua paralela a Prudente, a rua que vou morar). Eu fiquei muito parecida com ele nesse quesito, e talvez todos aqui de casa. Mesmo minha mãe, que fugiu de casa com 14 anos e nunca mais voltou, convivendo com ele começou a se aterrorizar com mudanças. É difícil medir o quanto algumas coisas são genéticas quando você não tem, de jeito nenhum, como separar do ambiente.

Hoje foi um dia foda. Fiz um milhão de coisas. No final do dia minha cabeça parecia que ia explodir não importava o que eu fizesse. Acabei tomando remédio depois de dormir algumas horas e acordar do mesmo jeito. Ontem fui dormir na casa de Yuri e como ele ia-se embora pra Europa hoje, foi extremely hard colocar ele pra dormir, o que só aconteceu lá pelas 4h. Ele ficou o tempo todo balançando os pezinhos e me acordando puxando assunto e querendo dar scroll no maldito 9gag, até que perguntou se eu queria ver um ep de Cowboy Bebop e mesmo já tendo visto tudo resolvi assisti de novo (de olhos fechados, claro) com ele pra ver se ele se acalmava, aí ele dormiu como uma criança pequena dorme no carro balançando ou assistindo Peppa pig enquanto toma mamadeira. Hoje a vó dele tava de um lado pro outro falando no telefone e querendo arrumar as últimas coisas da viagem e a gente teve que acordar umas 10h e ele não tinha nem feito a mala, é claro. Senti um pouco de compaixão por ela por saber o quanto a mania de deixar tudo pra última hora dele é irritante, mas um pouco de prazer também por saber que ela podia dar uma oprimida nele pra ele deixar de ser relaxado hehe. Acabei vazando logo cedo pra não atrapalhar levando meu kunk e meu pedal e fui lá pro centro resolver as coisas da casa nova. Quando ele voltar, tudo vai estar completamente diferente e acho isso 100% bem loco.

Eu e Vanny fomos na Rio Branco procurar meus móveis e acabei achando um guarda roupa legal e uma cama com um preço bom (de casal.. <3). Uma das primeiras primeiras (!!) coisas que percebi foi que

MEU DEUS DO CÉU VANNY É A EPÍTOME DA BAGUNÇA 

Eu cheguei naquele apartamentinho lindo e recém construído, cheio de frescura e frufru, senha elevador vaga na garagem varanda piscina vários ambiente etc mas Vanny faz parecer que é um lixão a céu fechado (porque ela não abre nenhuma janela pro gato dela não pular aaaa). Quando eu desci do elevador, no começo do corredor, eu já senti o fedor da caixa de areia do gato. Ahuaha é impressionante em como ela consegue deixar tudo o mais sujo e bagunçado possível e imaginável (na verdade de um jeito que eu não era capaz de imaginar, até ver hoje), a gente entrou no meu futuro quarto e ele tava vazio? Não. Cheio de tralha espalhada, e ela ainda disse "se você tiver sentindo um cheiro ruim, é porque Billy mijou aqui mas eu não sei aonde" e eu pensei "berro" aí ela achou que foi em cima de um plástico no chão e falou ah sim, foi ali. Aí virou as costas e foi embora e nem fez menção de que um dia iria catar e botar no lixo AAAA!!!! Eu tive vários ataques cardíacos com a minha mania de limpeza absurda herdada-ensinada pela minha mãe (que por um acaso é virginiana, e tem essa parada de que é o signo da limpeza, por um acaso hehe). A ração do gato tava espalhada no chão no corredor, o banheiro dela eu não soube o que dizer só sentir, a cama dela no chão sem lençol até hoje (outro berro), tudo espalhado pelo chão, tanto o lixo quanto as coisas que ela vai usar, sem a menor distinção, como um socialismo utópico dos bens materiais (socoro). Quem chega lá deduz imediatamente que ela se mudou ontem, sendo que faz tipo 4 meses ahuah. 

Eu, como sempre, fui um jegue e comprei um guarda roupa grande demais pra colocar na parede que eu queria assim como fiz nesse quarto aqui de casa e agora NÃO VAI FICAR TUDO PERFEITO DO JEITO QUE EU QUERO! eu pensei. Sendo que depois pensei "por que me importo tanto com a aparência quando o que importa é a função?" E aí viajei muito nisso, vou tratar mais lá na frente. 

Quero aproveitar esse momento pra resumir os pontos principais já que tenho que dormir e só quero lembrar algum dia mesmo então
Pontos positivos felizes:
1) No centro tem vários pontos com pessoas vendendo frutas da estação/regionais! Vi um monte de caju, acerola, pinha e feijão verde pelas ruas e isso iluminou meu coração vegan
2) No centro o sacolão as coisas costumam ser mais baratas e o Alecrim fica a um pulo! Isso vai ser ótimo porque eu decidi ser uma pessoa crafty DIY handworker e vou passear bastante por lá e aprender as manhas de viver uma vida barata
3) O pai de Vanny tem uma lanchonete e ninguém vai morrer de fome comendo várias torrada e sanduíche sem carne
4) Nordestão a um passo também. Não vou precisar de carro not ever. Todos os médicos/dentistas/vet mais perto
5) Vanny me trata com um respeito que minha família talvez não saiba que existe.
6) Pela primeira vez na existência, eu vou ter um banheiro só meu... aqui em casa divido com 4 pessoas e é realmente terrível especialmente quando minha mãe tranca o dela pra ninguém usar
7) No prédio tem elevador, treino funcional e coisas fancy
8) Nunca mais vou acordar com grito, ouvir grito, ser tratada feito bosta, me estressar, não ter silêncio paz respeito e esse tipo de coisa que é o segredo da vida bem sucedida
9) Vou aprender a dançar funk e fazer twerk KKKKK
10) As paradas de ônibus são bem pertinho, festas na Ribeira de Uber por apenas 10 conto
11) Cama de casal. Finalmente vou poder dormir com Yuri no meu canto (já que ele tem cama de casal, mas não é a minha casa) sem ter que ficar me equilibrando na ponta da cama aleluia saravá axé namastê amém
12) Se tiver algo pra fazer na UF logo cedo ou imediatamente posso ficar na casa do bb
Pontos negativos horríveis:
1) Ficar longe da UF, não poder mais pegar o 54a, obrigatoriamente ter que pegar o circular :(
2) Sair de Ponta Negra, bairro do meu >core< e único lugar que eu realmente conheço na cidade KKKK
3) Na hora do rush tô lascada, ter que acordar muito mais cedo pra poder chegar nos lugares pontualmente
4) Ter que passar o pano no chão. Passar o pano eu te odeio. 
5) Ter que gastar com coisas tipo tupperware, lixo, cesto de roupa suja, lençóis :\
6) Não poder mais ver Yuri todo dia porque não seremos mais vizinhos de bairro
7) Ter que ficar trancada num espaço minúsculo com a caixinha de areia de Logan. Vai ser osso porque aqui eu boto ela lá fora e não gosto de jeito nenhum de deixar dentro de casa, é horrível 
8) Se os gatos não se derem bem
9) Adeus minha academia maravilhosa de rico Top Gym fitness. Era um saco mas ao mesmo tempo eu amava porque era muito chique. Pelo menos eles devolvem uma parte do dinheiro hehe
10) Vanny muito bagunceira até quando vou aguentar? Só o tempo dirá
11) Não ser mais rica esbanjadora, sem ar condicionado e edredom, coisas free, sem mãe arrumando a casa, ter dinheiro de sobra (agora vou ter que ter juntar grana pra emergência)

Fiquei cansada agora mas amanhã tem mais porque estou obcecada por esse assunto.